sábado, 6 de fevereiro de 2021

Carnaval 2021: como serão os dias dos cearenses amantes da folia

"O ano só começa depois do Carnaval", dizem os brasileiros. Todo ano novo, aliás, já inicia à espera do recesso imposto pela folia, que lota da praia à serra, das casas às ruas; esvazia salas de aula e fecha as portas dos escritórios. Em 2021, porém, a festa, antes de começar, já teve fim. E não teria como ser diferente - tanto por lei, já que o carnaval foi proibido por decreto do Governo do Estado, no dia 8 de janeiro deste ano; quanto por bom senso, diante das mais de 10.500 (e contando) mortes por Covid-19 no Ceará. Afinal, o que é que haveria para se celebrar?

O questionamento brota também dos pensamentos de Márcio Santos, que vive dos festejos de Carnaval há 20 dos 42 anos de idade, desde que ingressou no grupo Maracatu Vozes da África, tradicional nos desfiles sediados na Avenida Domingos Olímpio, em Fortaleza. Com a ausência da festa, o sentimento é de que a rotina e os dias estão "desorganizados", como quando se está de férias e as segundas, terças e quartas-feiras se embaralham, perdem a identidade.

"A ficha ainda não caiu, está sendo muito complicado. Tenho 20 anos de Maracatu, nove como carnavalesco, então já era uma coisa já muito certa na minha vida. Na verdade, nosso Carnaval inicia quando apagam-se as fogueiras de junho, quando termina o São João. Meu ano sempre começa na segunda-feira de Carnaval. Então, está tudo parado, aqui", declara Márcio, fazendo questão de afirmar que o sentido da folia, para ele, vai além dos festejos.

Perdas

Vazio maior ainda, porém, é o das ausências permanentes: segundo Márcio, três membros do grupo Maracatu Vozes da África morreram em consequência da Covid-19.

"Nossa costureira, dona Ivone, que nos acompanhava durante o ano todo; Iran, nosso aderecista, que estava sempre comigo; e a Thina Rodrigues, que não fazia mais parte, mas trabalhou conosco desde a fundação. Ainda estamos vivendo esse luto, não seria possível ter Carnaval de forma alguma. Não é momento pra comemorar, aglomerar e fazer a festa democrática que deve ser. Não tem clima", lamenta.

A constatação é compartilhada ainda por quem não vive da folia, mas aguarda por ela, todo ano, como se vivesse.

Futuro

Mayara confessa que ela e os amigos "até tiveram uma esperança" de que manteriam a tradição em 2021, mas viram que "realmente não teria como" e "tiveram de se conformar". "A sensação é ruim, é estranha, mas ao mesmo tempo é um momento de pensar mais no próximo, de acreditar que dias melhores estão por vir e que no próximo Carnaval estaremos todos com saúde e imunizados, e tudo vai voltar a ser como era antes, se Deus quiser", espera a vendedora.

Para Roberta, a ausência do carnaval, embora justificada, não passará em branco. "Tem um sociólogo que disse que depois que a pandemia terminar, vai haver uma onda de pessoas tirando o atraso de todas as coisas das quais a gente tá se podando. O brasileiro não vive sem o Carnaval: vai viver, porque precisa, mas depois vai correr atrás", diz, em referência ao sociólogo Nicholas Christakis, que afirmou, em entrevista à BBC, que "por volta de 2024, pode vir uma época de libertinagem sexual e gastança desenfreada".

E se, de um lado, a canção diz que "todo Carnaval tem seu fim"; do outro, 2021 nos impõe: não haverá sequer começo. "Não vamos ter muito a sensação de ter passado pelo período que deveria ser carnaval, sabe?", pontua Roberta, ao que resume: "depois dele é que o ano começava. Como a gente vai seguir 2021 sem ter passado por esse portal?"

Fonte: DN

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