terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Cancelar é pouco

Se uma novela, que é fictícia, influencia a vida de milhões de brasileiros, a ponto de grande parte não diferenciar o ator do personagem na rua, o programa Big Brother Brasil, que é real, torna-se duplamente perigoso.
Os abusos e a violência que Lucas vem tolerando podem passar a ideia distorcida de normalidade e incentivar exemplos de segregação.
Não é normal alguém ser isolado. Não é normal alguém ser proibido de almoçar com o grupo. Não é normal alguém ser chamado de tudo o que é desaforo. Não é normal alguém ser atacado em qualquer canto da casa que se encontre. Não é normal alguém ser espantado quando tenta conversar.
São manifestações de terrorismo psicológico e perseguição que devem ser interrompidas na hora.
Ainda mais que toda casa é cúmplice e não intervém nas maldades da cantora Karol Conká.
A depender dos participantes, a tortura continuará. Na avaliação deles, a vítima é que está errada.
Lucas Penteado não está interpretando um papel, sua dor é de carne e osso.
Poeta, ator, trabalhador, deveria ser igual a todo mundo e também dono temporário daquele espaço e daquela audiência.
Mas tem sido tratado como um cachorro doente e sarnento com a atenção negada na porta do mercado das ilusões, esmolando afeto, e sempre escorraçado e chutado para longe pelos clientes.
Ninguém aguentaria ser humilhado e constrangido por horas consecutivas sem ter para onde ir, longe da família e dos amigos para poderem defendê-lo.
Cabe entender que o sofrimento dele é pay-per-view, não dura somente um programa. Portanto, insuportável e inadmissível.
O que estamos testemunhando é uma surra pública, uma agressão sem precedentes na televisão brasileira, um massacre de gangue feita por uma elite indiferente, egoísta e ambiciosa por R$ 1,5 milhão do prêmio.
Já é motivo para gerar crise de pânico ou ansiedade, que se agrava no confinamento com a sua algoz. Não há como calcular as sequelas emocionais da cruel experiência.
Se ele falhou ou não, nada justifica a maneira sistemática e covarde de insultos. Ultrapassou a esfera do bullying, é vítima de assédio social, da soberba truculenta, da injúria e difamação de seus colegas.
Karol Conká não tem que ir ao paredão, não tem que conhecer a maior rejeição da história. Pode demorar muito levando em conta a complacência de seus aliados. E todo dia é um inferno para o Lucas.
Cancelar também é pouco. Precisa ser sumariamente expulsa pela emissora devido ao mau comportamento. Seu desligamento nem é para evitar que o pior aconteça, o pior já aconteceu.

Fabrício Carpinejar
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