sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Louvar a Deus em nossa vida

O momento atual está marcado por incertezas, medos, violências, pobrezas e sofrimentos que nos fazem, desde uma perspectiva crente, questionar "até quando viveremos nesta situação? Até quando teremos que esperar?". Em meio às turbulências torna-se difícil enxergar a presença do Deus da vida em nosso cotidiano. A partir do canto de Simeão, proferido no encontro com o menino Jesus no templo (Lc 2, 22-35), somos convidados a reconhecer os sinais de Deus presentes em nossa história e elevar ao Pai um canto de louvor pelas maravilhas realizadas, pois nossos olhos contemplaram a salvação que vem de Deus.

O canto de Simeão está inserido no evangelho de Lucas (sendo exclusivo deste autor) na seção comumente chamada de narração da infância de Jesus (Lc 1 – 2). Este pequeno bloco, de apenas dois capítulos, sintetiza e apresenta, em forma de prelúdio, os elementos essenciais que serão desenvolvidos ao longo de todo o texto sagrado. Com uma clara preocupação em situar os acontecimentos no tempo e o espaço, as narrações da infância têm como palco principal a cidade de Jerusalém aonde Jesus será reconhecido/condenado pelos seus coetâneos. Além disso, é em Jerusalém que se formará o primeiro núcleo da comunidade cristã, tornando-se centro irradiador da mensagem evangélica para os confins da terra.

Após o nascimento de Jesus (Lc 2,1-20), Maria e José dirigem-se ao templo para a purificação da mãe, seguindo os costumes legais que exigiam o oferecimento de um cordeiro ou dois pombinhos (Lv 12,1-8), bem como para consagrar o menino ao Senhor segundo a lei (Ex 13,2.12). O desenrolar dos fatos assemelha-se à descrição da apresentação do profeta Samuel no templo (1 Sm 1,11.21-28). O evangelista está sinalizando, para seus leitores, a dimensão profética presente na vida de Jesus, entretanto, a sequência dos acontecimentos aponta que a missão desta criança ultrapassa a lei e os profetas.

Neste cenário, o justo e piedoso Simeão toma a criança em seus abraços e eleva a Deus um canto-profecia de louvor. Louva ao Criador porque as promessas se cumpriram, Israel será consolado (Is 40,1; 49,13). As palavras, por ele proferidas, recordam as expectativas messiânicas presentes no povo, mostram que Deus não os abandonou, mas, que cumpre suas promessas. Neste encontro, temos o cruzamento de duas épocas: o tempo da expectativa e o início de um novo tempo de salvação, o antigo e o novo Israel que se tocam.

O justo Simeão reconhece naquela criança, pequena, pobre, frágil, a manifestação plena de Deus na história humana. Dentro da mentalidade de seu tempo, este reconhecimento parece insano, sem sentido. Entretanto, ele é capaz de reconhecer que Deus se encarna, faz-se solidário à humanidade, intervém em nossa história como Deus libertador. Adverte, inclusive, que esta salvação não chegará sem desafios. Neste sentido, compreende-se a sua palavra dirigida à mãe do menino: Maria representa a comunidade dos seguidores que terá seu coração traspassado pela morte do Mestre e pelas perseguições que virão em seguida. O discípulo de Jesus deverá ter presente que Deus caminha conosco em meio às nossas alegrias, desafios e angústias.

O justo Simeão alerta: "Este menino será sinal de contradição" (Lc 2,34). Diante de Jesus não é possível "ficar em cima do muro", o contato com Ele nos leva a uma decisão: sim ou não? Tem a palavra de Jesus sentido para minha vida? Ele responde as minhas buscas? Vale à pena engajar minha vida por ele? O modus operandi de Jesus contrapõe-se a lógica de domínio e poder humanos, exige consciência do caminho assumido e capacidade de perceber a presença do Reino de Deus que como fermento transforma as relações humanas e o mundo.

Louvar a Deus, neste contexto, torna-se difícil porque exige sabedoria para reconhecer que Deus não segue nossa lógica de poder e de domínio, mas manifesta-se na simplicidade e nos pequenos gestos daqueles que se abriram à graça de Deus e à força do Espírito. Somos convidados a reconhecer a salvação de Deus que nos chega, ainda que não plenamente, no cotidiano da vida e, partir destes pequenos sinais, elevar a nossa oração de louvor e de agradecimento a Deus. Devemos, como Simeão, contemplar a salvação de Deus que nos criou, chamou, formou, conduziu e enviou para o anuncio de sua boa nova.

Na oração das completas, rezada ao fim a da noite, antes do repouso, louva-se a Deus pelas grandes maravilhas que Ele opera na história humana, ao fim se repete as palavras de Simeão: "Deixai vosso servo ir em paz". Somos convidados a reconhecer as maravilhas que Deus opera em nossa vida. Ele é o Senhor da história. Somente quem faz a profunda experiência da vida humana é capaz de reconhecer a presença de Deus salvador em nossa história. É preciso olhar com sabedoria para reconhecer os sinais de Deus na vida humana, pois ele não se manifesta em grandes fenômenos (trovões, tremores), mas na brisa suave.

Padre Francisco Thallys Rodrigues

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