quarta-feira, 8 de julho de 2020

Volta de viagens intermunicipais pode acelerar efeito "bumerangue"


Os números gerais podem apontar para uma melhora no cenário da Covid-19 no Ceará, mas, se observados sob uma lupa territorial, mostram que o avanço da doença não cessou. A taxa de transmissão permanece média ou alta em 181 dos 184 municípios do Estado, sendo maior nas regiões do Litoral Leste/Jaguaribe, do Cariri e do Sertão Central. Os riscos podem aumentar diante da decisão do Governo do Estado de liberar o transporte intermunicipal de passageiros, no próximo dia 10 - medida vista por especialistas como "precipitada".
Um dos maiores perigos do aumento da circulação de pessoas entre Fortaleza e o interior é a aceleração do "efeito bumerangue", o "leva-e-traz" do vírus entre as localidades. No Ceará, o risco foi identificado pelo Comitê Científico de Combate ao Coronavírus no Nordeste, em boletim divulgado neste mês. Sérgio Rezende, um dos coordenadores do grupo, aponta que "pelas estradas do Estado, o vírus logo chegou a Crato e Juazeiro do Norte". "Pessoas nos municípios menores adoecem, não têm um sistema de saúde tão bom, voltam às capitais e fazem com que casos e mortes aumentem de novo", analisa.
A implantação de barreiras sanitárias nas estradas, o reforço das equipes de saúde e instalações hospitalares e o decreto de lockdown em municípios com situações mais críticas são medidas sugeridas pelo Comitê. Quanto ao transporte intermunicipal, Sérgio Rezende indica que "os ônibus limitem o número de passageiros", e que "todos sejam obrigados a usar máscaras". Além disso, "oferecer álcool em gel na entrada dos transportes" deve ser cuidado complementar para evitar a disseminação do novo coronavírus.
De acordo com Newton Fialho, gerente da Socicam, empresa que administra o Terminal Rodoviário de Fortaleza, um plano de biossegurança vem sendo adotado desde o início da pandemia nos espaços do equipamento, com instalação de pias, tótens de álcool em gel e intensificação da limpeza. As medidas sanitárias no interior dos veículos de transporte coletivo, porém, cabem a cada uma das empresas. "Elas adotarão protocolos individuais, conforme as regras de reabertura, e a fiscalização caberá aos órgãos estaduais. Se os passageiros tiverem consciência, o retorno será tranquilo", pontua.
A reportagem procurou três das principais empresas de transporte rodoviário intermunicipal e interestadual de passageiros que atuam no Ceará, a fim de saber que medidas de segurança sanitária serão tomadas. A maior parte das companhias afirmou que "não irá se pronunciar no momento". Outras duas não atenderam as chamadas de telefone.
Atualmente, a movimentação de passageiros na Rodoviária de Fortaleza está até 97% abaixo da registrada em períodos normais, quadro que, para Newton, não será revertido "da noite pro dia". "Não existe uma demanda represada de passageiros pra viagens. Mesmo com a liberação do transporte interestadual, a demanda ainda é muito baixa. Com o intermunicipal, dia 10, não será diferente, deve chegar a cerca de 10% do normal. Isso não vai voltar aos patamares regulares até o fim do ano", projeta o gerente da Socicam.

Cuidados

Antes de a pandemia chegar ao Ceará, o terminal registrava até 406 partidas de ônibus por dia. Do total, 343 viagens tinham como destino outros municípios cearenses, e 63 partiam para outros estados. Desde março, o cenário mudou totalmente: hoje, a média diária é de 13 partidas.
A gerente de produto Ticiana Romcy, de 41 anos, viajava a cada 10 dias, de ônibus, de Fortaleza para cidades do interior, para atividades de trabalho. Com a pandemia de Covid-19, a rotina foi quebrada - e, mesmo com a volta do transporte intermunicipal, não deve retornar.
"Ônibus é um lugar de contato com muitas pessoas, de tocar nas coisas. O que me deixaria mais segura é se as poltronas fossem individualizadas, pra tentar manter a distância, e fossem exigidos a máscara e o álcool em gel. Mas ainda assim não me sinto 100% segura, até porque moro com meus pais", relata.

Rigor nas viagens

Durante anúncio do novo decreto de retomada das atividades econômicas, sábado (4), o governador Camilo Santana (PT) alertou que as viagens devem seguir "rigoroso protocolo sanitário". Conforme Hélio Leitão, presidente da Agência Reguladora do Ceará (Arce), responsável por fiscalizar o sistema, as vistorias "serão intensificadas, principalmente nos embarques e no decorrer do trajeto". Empresas de ônibus e terminais rodoviários que descumprirem as determinações do decreto estadual estarão sujeitos a multa e, em "casos mais drásticos", proibição de funcionamento.
Medição da temperatura dos passageiros antes do embarque, proibindo a viagem de quem estiver com temperatura igual ou superior 37,8°C; uso obrigatório de máscaras de proteção por passageiros e funcionários por toda a viagem; limpeza e desinfecção obrigatórias dos veículos antes e ao término de cada viagem; priorização da venda de passagens por meios digitais; vedação ao transporte de pessoas em pé no veículo; e garantia do distanciamento mínimo de dois metros nos terminais são os pontos a serem verificados pela Arce.
Para Sayonara Cidade, presidenta do Conselho das Secretarias Municipais de Saúde do Ceará (Cosems/CE), a liberação das viagens intermunicipais é "precipitada". "Não era o momento, porque estamos vendo um aumento de casos na Região do Cariri, e uma taxa muito alta na Região Norte. Vejo isso com preocupação. Não teremos mais como controlar o fluxo de passageiros. É um risco grande", avalia.
A volta do transporte coletivo entre cidades, segundo ela, deveria ser considerada, no mínimo, "daqui a duas semanas", ou adiada "pelo menos para a Região do Cariri". Questionada sobre a possibilidade de colapso da rede de saúde pública no interior, Sayonara garante que esta "não é uma preocupação". "Em todo o interior, houve crescimento de leitos, sobretudo de UTI".
Para Emille Sampaio, mestra em Saúde Pública e professora do curso de Medicina da Universidade Federal do Cariri (UFCA), a "fragilidade" na rede de saúde do interior, a possibilidade de uma nova onda de contaminação na Capital e da disseminação da doença em cidades ainda pouco afetadas preocupam. "Temos situações epidemiológicas distintas no Estado: regiões com controle maior e outras com franca ascensão da curva. E não há serviços hospitalares estruturados suficientes", pontua.
A médica ratifica que a liberação do transporte intermunicipal de passageiros gera uma "perda de controle". "Estudos comprovam que pessoas já infectadas, mas ainda assintomáticas, transmitem a doença. Se alguém viajar assim, quando chegar ao destino e apresentar sintomas, já terá infectado outros passageiros. Precisamos reforçar a vigilância e insistir nas medidas sanitárias que evitem a contaminação", alerta - frisando que Crato e Juazeiro do Norte, por serem maiores, são, hoje, os municípios que "mais preocupam".
A Secretaria da Saúde do Estado (Sesa), através de nota, explicou que, "desde o princípio do processo de reabertura, vem acompanhando de perto os dados epidemiológicos da pandemia em todos os municípios e regiões do Estado, a fim de respaldar as decisões de Governo".
E que, desta forma, a partir de 10 de julho, fica autorizado o retorno do serviço de transporte intermunicipal de passageiros no Estado, regular e complementar, e que ele deverá operar em conformidade com as orientações das autoridades da saúde, já citadas na matéria, como medição de temperatura, uso de máscara, venda online de passagens, dentre outros.
Fonte: DN
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