terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Série “O Auto da Compadecida” é reexibida, com forte influência também no Ceará


Não parece, mas já se passaram 20 anos desde a primeira exibição da série “O Auto da Compadecida”. De lá para cá, muita coisa no Brasil mudou, seja a configuração política ou a própria maneira de fazer audiovisual, donde a atração deriva.

Mas ainda é bem viva na memória nacional o carisma e humor indefectíveis de João Grilo e Chicó que, feito guias, vão nos conduzindo a uma trama de aventuras e causos no sertão nordestino regada a muitos regionalismos, saberes populares e farta gama de personagens e situações inesquecíveis.

Baseado na peça teatral homônima do poeta, dramaturgo e romancista paraibano Ariano Suassuna (1927-2014), o seriado logo caiu no gosto do público e ganhou uma versão inclusive para o cinema, com 100 minutos a menos do tempo total do programa.

A partir desta terça-feira (7), a audiência mergulha novamente no fabuloso enredo a partir da reexibição da série na TV Globo, após a novela “Amor de Mãe”. Os quatro episódios serão veiculados até sexta (10), totalmente remasterizados, com nova abertura e tendo a identidade visual do céu e inferno repaginadas por computação gráfica.

Em entrevista, Guel Arraes, que assina a direção e roteiro da produção, comenta o caráter singular de uma história que já nasceu clássica, a qual narra as vivências de dois nordestinos pobres que vivem enganando os habitantes de um pequeno vilarejo no sertão da Paraíba para sobreviver.

“‘O Auto da Compadecida’ oferece beleza, alegria e dramaticidade atemporais. Sempre é tempo de revisitar o povo brasileiro, que é safo e sobrevive quase sem ajuda. Especialmente o nordestino que, apesar de todas as dificuldades, sabe se divertir e tem vocação para ser feliz”.

Matheus Nachtergaele que o diga. Intérprete do desnutrido João Grilo, malandro conhecido pela astúcia, ele enumera os aprendizados que reuniu com o personagem.

“Me ensinou a ser feliz na tristeza, a rir nas horas mais perigosas e desgraçadas da vida. Gosto das cenas com Selton Mello porque foi um encontro especial. Precisamos um do outro para que elas acontecessem como aconteceram. Mas me comovo também profundamente na hora do julgamento, em que a Compadecida livra o João Grilo do inferno”, confessa.

Selton, por sua vez, na pele do compulsivo e metido a galanteador Chicó, dimensiona que há uma carreira antes e depois do trabalho.

“É o personagem mais popular da minha vida, e olha que já fiz muita novela, um formato que te deixa em evidência por meses”, situa, sublinhando ainda o que representa o retorno do programa.

ALCANCE

Tanta imersão em cenários e narrativas sertanejas por parte da atração promoveu automática correspondência também com o solo cearense. Por aqui, “O Auto da Compadecida” inspirou muitos estudos, escritos e trabalhos, empenhados em aprofundar as questões retratadas na obra ou simplesmente reviver seu legado.

É o caso, por exemplo, da montagem “O Auto do Cumpade Cido”. Recentemente apresentada em Fortaleza, a peça tem 12 anos e é idealizada e encenada pelo ator e comediante João Netto (Zé Modesto).

Apesar de ser diferente do original de Ariano Suassuna, o espetáculo traz as mesmas características daquele: bastante humor e imaginação para falar do cotidiano.

Segundo o comediante, “é simplesmente uma alusão, onde eu usei o nome João Besouro, em referência ao João Grilo. Mas é outra história, outra conversa. Mesmo assim, também mostro questões políticas, sociais e religiosas, como no outro trabalho”.

Talvez resida aí, na visão do artista, a vasta amplitude da narrativa. “Além de ser uma produção maravilhosa, é uma comédia impagável. E que trata de assuntos sérios para quem entende o teor do que está sendo apresentado”.

CORDEL

A opinião sintoniza-se com a ótica de Arievaldo Viana – embora o cordelista tenha conhecido “O Auto da Compadecida” depois de se aprofundar na trajetória do paraibano Leandro Gomes de Barros (1865-1918), o qual foi biografado pelo cearense.

Alguns versos de “O Dinheiro” – folheto escrito por Leandro, em 1909 – foram utilizados, inclusive, na fala de Padre João, vivido pelo ator Rogério Cardoso na série e cinema.

Também partes de “O cavalo que defecava dinheiro” e “O Castigo da Soberba”, este último escrito por Silvino Pirauá de Lima, integraram o roteiro, assim como “As proezas de João Grilo”, do poeta pernambucano João Ferreira de Lima.

Arievaldo considera ainda que o cordel influenciou definitivamente na peça, a ponto de afirmar que, sem essa linguagem, a montagem não existiria ou não teria tido metade da aceitação que obteve por parte do público.

“Os lances mais engraçados, como o testamento e enterro da cachorra, o animal que defecava moedas de ouro, a gaita mágica que ressuscita defuntos, e até mesmo a burla da bexiga cheia de sangue de galinha, estão nos folhetos de Leandro, que certamente baseou-se em contos populares, transmitidos oralmente geração após geração. Daí a empatia imediata que o público teve pela obra, ao reconhecer de imediato as velhas matrizes de narrativas que faziam parte de sua tradição oral”.

Fonte: DN
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