quinta-feira, 5 de setembro de 2019

“É sempre tempo”: no Ceará, aposentada faz amigos em todo o Brasil ao evangelizar via WhatsApp


“Tem gente de Belém, Recife, Maceió, Belo Horizonte…” A lista de naturalidades se perde quando a aposentada Maria Delcy Souza, 69, tenta contabilizar a quantos ouvidos chega pelo Brasil, todos os dias, sem sair do próprio escritório. Com alguns toques na tela do smartphone, por meio do WhatsApp, ela põe em prática a formação em Teologia – já que não pode fazê-lo nos altares das igrejas, por ser mulher. 
Depois de assumir como missão de vida evangelizar, Delcy teve a ideia de gravar e enviar áudios com conteúdos autorais sobre a liturgia católica a todos os contatos, uma espécie de “homilia online”. Formada desde 2012, a aposentada é, segundo ela mesma, “a única mulher do Brasil que cursou a disciplina de homilética”, que ensina os padres a elaborar a chamada homilia, atividade proibida para mulheres. Mas com a palma da mão, conectada à internet, Delcy consegue atingir muito mais do que igrejas lotadas.
Inserção
A atividade, que ela já considera um trabalho informal, é simples. Todos os dias, à tarde, Delcy grava uma interpretação própria do evangelho do dia, como se fosse um sermão, e baixa ainda um vídeo que tenha a ver com o conteúdo, para facilitar a compreensão dos ouvintes. No dia seguinte, entre 3 e 4 horas da manhã, é sagrado: ela levanta, liga o celular e envia as mídias aos contatos. 
O número de idosos que têm incluído smartphones, smart TVs e computadores na rotina é crescente. Em 2017, de acordo com o IBGE, mais de 31% das pessoas com 60 anos ou mais no Brasil utilizavam a internet. O número é 26% mais alto do que em 2016, apontado pelo recorte de Tecnologia da Comunicação e Informação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua. Essa integração dos idosos à evolução dos meios de se comunicar é comemorada por Delcy.
“Eu nasci em Macapá, mas vim nova ao Ceará. Há quase 40 anos, eu tinha cinco amigos contados no dedo pra procurar. Uma irmã minha procurou pela internet, localizou um e os outros. Foi uma emoção fora de série. Teve uma que me olhava e não acreditava, abraçava, beijava, chorava. Eu imaginei que nunca mais ia ver aquela amizade de infância. A gente se comunica todos os dias, ela só me chama de irmãzinha. Foi a Internet. Se não fosse essa comunicação, a gente não ia mais se ver”, emociona-se.
Benefícios
As vantagens do uso dos dispositivos inteligentes por idosos vão além do caráter utilitário, como avalia o professor de informática para idosos da Universidade Sem Fronteiras, Ricardo Temóteo. “A inclusão digital se dá além da simples manipulação de celular, smart TV. Os benefícios representam uma verdadeira inclusão social, o idoso se sentir capaz de aprender, ter a autoestima elevada. Ter a condição de participar como cidadão. A inclusão digital é uma porta para o presente, e acaba abrindo novas possibilidades, até de realização de projetos pessoais e profissionais”, avalia o educador.
Uma das alunas dele é a aposentada Conceição Firmino, que nem faz questão de parecer modesta ao dizer que “domina bem” o uso do celular em plenos 72 anos de idade. “Eu uso o Facebook, Pinterest, Instagram… Participo de grupos de artesanatos, cursos online, tudo isso faço sozinha. Quando tenho alguma pergunta, alguma dúvida, levo lá ao professor. Eu gosto muito, acho que faz toda a diferença na minha vida. Agradeço a Deus estar envelhecendo nessa época”, declara Conceição.
Cuidados
Apesar de os idosos estarem transitando de forma cada vez mais livre nos ambientes online, é preciso atenção à segurança. E, para isso, é necessário que eles sejam ensinados, como alerta Ricardo. “O mais importante, além de ter um app de segurança, é se questionar em relação ao conteúdo da comunicação. Será que essa notícia é uma fake news? Será que essa pessoa que está me abordando no WhatsApp é realmente confiável, está representando uma empresa? Precisamos ter muito cuidado com os golpes aplicados através das redes sociais”, alerta.
Mesmo já sendo habilidosa ao usar principalmente o WhatsApp, Delcy reconhece que o aprendizado é diário – e o ensinamento vem de quem ela ajudou a colocar no mundo. “Pra mim, falta muita coisa: no meu ponto de vista, não sei quase nada. Aprendi, através da minha neta, a baixar vídeo. Tem coisa que eu não sei e elas ensinam”, sorri.
Série
As cinco reportagens da série “É sempre tempo”, sobre longevidade, foram veiculadas na Rádio Verdes Mares (AM 810) ao longo da última semana de agosto. Trouxemos, nelas, histórias sobre idosos que provam o direito e as possibilidades que têm de uma vida ativa em todos os aspectos: educação, saúde, sexualidade, mercado de trabalho e, por fim, no âmbito da tecnologia e das redes sociais.
Fonte: DN
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