sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Correios: interior pode passar a ter serviço mais caro e demorado


Incluso no pacote de privatizações do Governo Federal, os Correios podem perder capilaridade e reduzir sua área de atuação com a concessão à iniciativa privada. No Ceará, o Sertão Central e áreas serranas devem perder agências e terem serviços ainda mais demorados e caros que hoje, segundo avalia o especialista em logística Daniel Cordeiro.

“Isso acontece porque é inviável manter o serviço em áreas remotas, de difícil acesso, como o Norte e o interior do Nordeste, e com baixa demanda. A empresa que for assumir terá que buscar o equilíbrio entre o nível de serviço e o custo. Mas, sem dúvida, haverá lugares que não são atrativos para a iniciativa privada. Esse será o ponto negativo da privatização”, explica.

Entre os serviços que devem gerar mais atratividade para a empresa durante o processo de privatização, Cordeiro aponta o transporte de cargas como a “galinha dos ovos de ouro”. “O segmento de correspondência deixará de existir com a virtualização e não será um atrativo para a iniciativa privada. Com a ascensão do e-commerce, principalmente, o transporte de cargas realmente é o que será mais valioso”, pontua.

ECOMMERCE

O mercado de comércio eletrônico no Ceará pode ser um dos mais beneficiados pela privatização dos Correios, caso haja a entrada de um grande player do cenário global, como Fedex, UPS ou DHL, por exemplo. A perspectiva é de Augusto Fernandes, CEO da JM Aduaneira, empresa que atua na área de comércio exterior e consultoria.

A opinião se baseia no potencial a ser explorado no Estado pela empresa que comprar os Correios, considerando mecanismos de infraestrutura presente aqui e na capacidade de crescimento do e-commerce, a partir da logística de compras e entregas, na região.

Fernandes pondera que a posição geográfica do Estado, aliada ao potencial de distribuição de produtos gerado pelos hubs portuário e aeroportuário, poderia impulsionar os negócios de e-commerce no Ceará a partir de uma nova gestão à frente dos Correios. Ele analisa o fato de que as grandes empresas do ramo têm um pensamento “bem diferente” do mercado brasileiro, que busca evitar a centralização de mercados.

Com os Correios sendo administrado por um multinacional de logística, a empresa poderia ter alcance mais diluído por todo o País, uma vez que os prédios da estatal poderiam se aproveitados como novos centros de distribuição.

Além disso, o nível de desenvolvimento atual do mercado brasileiro proporciona bastante espaço para crescimento da empresa que assumir o controle dos Correios. “O interesse das grandes empresas é ganhar mercado, e há um mercado grande a ser explorado aqui no Nordeste. Esse potencial do Ceará pode ser um trunfo para atrair grandes empresas. O ganho para o Ceará seria enorme, pelo potencial geográfico”, diz Fernandes.

EFICIÊNCIA

Para garantir que o serviço passe a ser realmente mais eficiente do que é hoje, Cordeiro lista uma série de segmentos que deverão receber atenção especial. “Terá de investir em equipamentos mais modernos, em tecnologias na parte de separação, identificação de rotas, de mercadorias, toda essa parte de inteligência de operações”, aponta.

O especialista acrescenta que a empresa terá de reduzir o custo operacional, que hoje é muito alto. “Tem que diminuir a escala de mão de obra, de estrutura, de manutenção predial. Com o mercado privado assumindo, ele acaba enxugando os custos fixos, trabalhar de forma mais eficiente”.

CONSUMIDOR

Apesar da possível redução da área de atuação da estatal, o especialista indica que, com a privatização, o serviço prestado ao consumidor melhorará de forma substancial.

Isso será possível porque a empresa que assumir os Correios deverá conectar de forma mais eficiente as áreas com grandes demandas aos grandes produtores. “Sem falar que o consumidor terá a quem recorrer diretamente caso a qualidade do serviço não esteja conforme o esperado. Hoje não há a quem recorrer”, afirma o especialista em logística.

Para o especialista, não há outra saída para os Correios. “A privatização é um caminho sem volta. Se ele não tivesse sido tão politizado, teria estrutura para ser um case de sucesso. Mas acabou sendo minguado, foi perdendo espaço até chegar a situação atual, em que não consegue mais se manter. Sem falar nas constantes reclamações dos consumidores”, analisa.
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