quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

463


Você não só interrompeu o trânsito no sentido Centro por mais de uma hora, não só bloqueou as saídas do Aterro do Flamengo, na curva da Avenida Infante Dom Henrique, naquela manhã de quarta (16/1), não só fez alguns turistas perderem o seu voo no Santos Dumont, não só sacrificou o desejo de diretores de convidá-lo para aquele papel escrito especialmente para você, MAS A SUA MORTE, Caio Junqueira, ator que eu assistia com devoção pela sua enigmática cara de anjo e sobrancelhas assustadas, tirou o sono de muita gente, congestionou também os olhos de muita gente.

Porque era jovem, 42 anos, com a idade de meu irmão mais novo.

Porque era brilhante no teatro, cinema e televisão.

Porque ninguém esquece o aspirante Gouveia do Tropa de Elite.

Porque vivia recebendo elogios dos amigos e acreditava que um dia iria conhecê-lo para confirmá-los.

Porque são fatalidades que nunca imaginamos que podem acontecer, mas é o que acontece, inesperadamente, com o sol a pino, na claridade dos costumes, quando se perde o controle do veículo e a vida não tem nem a decência de oferecer uma segunda chance ou uma despedida ou mesmo entender o que aconteceu.

Você é tão guerreiro que se juntou aos 462 soldados brasileiros que lutaram na Itália durante a Segunda Guerra, recolhidos no Monumento dos Pracinhas, próximo de onde o seu carro colidiu. Todos jovens e sonhadores que, à sua imagem e semelhança, entregaram-se a uma missão.

Fabrício Carpinejar é escritor 
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