quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Viagem de ônibus, ao som de Simone e Simaria


Mais uma vez, em um ônibus lotado. Fiquei em pé diante de um banco ocupado. Do lado da janela um senhor sério. Na ponta do corredor, uma senhorinha de uns 70 anos.
De cima pra baixo: ela usava um tiara marrom na cabeça, óculos de grau remendados, vestido de bolinha, unhas pintadas de vermelho, mas com o esmalte saindo pela metade. Ela carregava uma bolsa preta e meus livros, que gentilmente pediu para segurar. Pernas grossas. Varizes inchadas. Leveza no olhar.
Diversas conversas paralelas. A Jangadeiro FM estava sintonizada, e em meio ao barulho, a música do Luan Santana se evidenciou. "Vamo acordar esse prédio, fazer inveja pro povo, enquanto eles estão indo trabalhar, a gente faz amor gostoso de novo..."

Olhei para baixo e percebi a senhorinha de lábios enrugados cantarolando: " ...a gente faz amor gostoso de novo...", Eu ri. Não aguentei, foi instantâneo. Achei estranho uma velhinha cantar especificamente esse trecho.
Ela me viu rindo, olhou pra cima ainda cantando. Entendeu o motivo da minha risada. Ela gargalhou também. Rimos juntas. Comunhão entre estranhas.
Em pé, segurando nos ferros, tentei virar o rosto pra conter o riso. Olhei de soslaio, outra senhorinha apertou o sinal pra descer. Ela tinha o braço quase todo tatuado e mascava chicletes. "De onde estão tirando essas velhinhas bacanas?", Pensei.
Então virei o rosto para baixo, mas agora, a velhinha número 1 estava cantando Simone e Simaria. "É bandido esse meu coração, eterno prisioneiro da paixão..."
Aí eu não aguentei.
Juliana Marques é jornalista 
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