segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Parada de ônibus


(sexta feira, 14 de setembro) Na parada de ônibus, um senhor de quase 60 anos se aproximou. Vou chamá-lo de José. Pediu-me uns trocados. Percebi sinceridade em seu olhar, mesmo sem explicar se o dinheiro seria para comprar comida ou para pagar uma passagem.
Pele negra, alto, olhar amarelado e triste. Usava um boné azul, camisa de botão, bermuda jeans. Nas mãos carregava uma sacola grande. Cheia de doações, talvez. Cheia de sonhos, esperança e vontade de vencer? Acho que sim.
Rapidamente tirei algumas moedas da bolsa. Ele agradeceu. Olhou para minhas mãos e viu o livro que eu segurava.“Não tenho inveja de nada, sabe? Mas admiro muito quem sabe ler. Eu não sei identificar uma palavra. Minha assinatura é minha digital”, disse melancólico.
Eu não sabia o que falar para aliviar o clima de tensão. Outros desconhecidos que estavam na parada assistiam o diálogo. Aí ele continuou: “Mas vou procurar um programa da prefeitura que ensina os mais velhos. Meu maior sonho é um dia conseguir ler e poder carregar um livro, assim como você”. Seu olhar sorriu. O meu também.
Então o incentivei e pedi para não desistir. Falei alguma coisa relacionada a nunca ser tarde para ir atrás dos sonhos.
Percebi o quanto podemos ser covardes com nossas próprias histórias. Tantas coisas que já quis fazer, mas que nunca saíram do campo da imaginação? Dançar Ballet clássico, aprender um novo instrumento musical, ou até mesmo terminar o que comecei (diversos cursos de inglês estão na lista).
Mas o senhor José só queria aprender a ler. Não teve oportunidade.
Eu continuava a refletir muito, em frações de segundos. Voltei a atenção para o homem que agora me encarava sorrindo. De repente, ele agradeceu e se foi. Acompanhei o trajeto até perdê-lo de vista. Desapareceu na cidade.
Aquele senhor não sabe, mas ele na condição de analfabeto, ensinou-me muito mais, que sou pós graduada e amante das leituras.
Não se feche em seu mundo. Quase sempre conversar com estranhos faz bem. José, suas palavras simples deixaram marcas em mim, assim como sua digital ao assinar os documentos da vida.
Juliana Marques é jornalista 
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