domingo, 12 de novembro de 2017

PSDB: A solidariedade interna no tucanato sempre foi muito frágil; questão se torna dramática


Quem acompanhou os bastidores pode assegurar: Aécio Neves (MG) foi ao limite para tentar evitar a destituição de Tasso Jereissati (CE) da presidência do PSDB. Mas o cearense não deixou alternativas. Existe, como já afirmei aqui, uma razão objetiva ao menos para fazê-lo: Tasso se declarou candidato à presidência do partido e vai disputar o posto com o governador de Goiás, Marconi Perillo.
Hoje no comando, o senador tem condições de mexer na composição dos diretórios estaduais em favor do próprio pleito. Alberto Goldman, o novo interino, tentará o equilíbrio. Até na questão que hoje mais acirra os ânimos, Goldman está no meio. Nem defende a permanência no partido na base do governo — já foi um crítico duro dessa escolha — nem defende o rompimento. Mas é claro que há mais do que isso. A questão: por que é justamente o PSDB o partido que mais sofreu danos estruturais em decorrência da Lava Jato?
Não é preciso recorrer ao divã de um analista. A história, mais do que motivações incrustadas no inconsciente partidário, o explicam. Se a organicidade primitiva do PT deriva, e deriva, dos movimentos sociais (esquerdistas, católicos e esquerdista-católicos), dos aparelhos sindicais e das teorias revolucionárias convertidas em reformismo agressivo, a do PSDB se deve, desde o princípio, a seus “quadros preparados”. Seria exagerado dizer que o PT tem uma utopia redentora, mas é certo afirmar que o partido desenvolveu uma cultura interna coletivista, sob o comando, claro!, de um chefe — e nada disso é novo na esquerda.
O PSDB surgiu como uma soma de talentos — alguns verdadeiros; outros falsos como notas de R$ 3. A solidariedade interna, inter pares, sempre foi muito frágil. O herói secreto da turma é Leibniz: cada tucano é uma mônada. Inexiste por ali o espírito da ordem unida. Há vezes em que isso é bom. Mas também pode ser um desastre, como vinha sendo.
É preciso comparar as reações de petistas e tucanos quando seus respectivos líderes máximos foram atropelados pela Lava Jato. Sim, Lula é o símbolo do PT, sua figura emblemática, o chefe inconteste, sem paralelo no tucanato e em partido nenhum. O coletivo reagiu, sem uma só voz dissonante, em defesa de seu quase demiurgo. Não estou fazendo juízo moral. Trata-se apenas de uma constatação. E o que se deu no tucanato? Convenham: não foi um espetáculo bonito de se ver.
Rodrigo Janot quis prender Aécio antes mesmo de denunciá-lo. Depois pediu e obteve o seu afastamento do mandato, uma violação clara da Constituição, acrescida de uma variante de prisão domiciliar. Na denúncia que apresentou contra o senador, a PGR não conseguiu apontar onde está a contrapartida dos tais R$ 2 milhões, que Janot diz ser propina. A solidariedade ao senador mineiro foi quase nenhuma. Ao contrário: teve início uma corrida para substituí-lo. E-mail que o ex-procurador Marcelo Miller enviou para si mesmo no dia 9 de março indica que os episódios que colheram o senador — e também o presidente da República — constituíram flagrantes armados. E qual foi a reação do PSDB?
Nenhuma! A luta para ocupar o lugar de Aécio continuou. Embora a Lava Jato tenha posto na mira outros nomes estrelados do partido, o que se viu foi uma direção reverente a desmandos óbvios. Com a devida vênia, depois de tudo o que se sabe sobre as delações de Batistas e associados e Lúcio Funaro; dado o conteúdo pífio das duas denúncias, considero vergonhoso que parte da bancada tucana tenha votado pela continuidade da tramitação das ditas-cujas: 21 na primeira e 23 na segunda. Ao fazê-lo, esses parlamentares não estavam apenas coonestando a denúncia sem provas — ou digam onde estas estão —, mas também os métodos ilegais a que recorreram membros do Ministério Público Federal inclusive contra quadros do PSDB.
Ao assumir o comando do partido, Tasso resolveu juntar o seu exército, declarar a sua superioridade moral — “nós não somos como eles”, os tucanos governistas — e partir para a conquista da cidadela adversária. Acontece que tinha se tornado interino para fazer a transição, para tentar estabelecer a paz, não para obter a rendição de uma ala do partido. Nesse sentido, a destituição é um caminho que preserva a legenda.
Os partidários de Tasso alardeiam que o episódio só serviu para fortalecer o seu pleito. Bem, então não há do que reclamar; só se pode agradecer. Não parece que ele ou Perillo possam obter vitória esmagadora. Haverá vencidos robustos em qualquer um dos lados. Fosse eu um eleitor nesse pleito, responderia a seguinte pergunta antes de escolher Tasso ou Perillo: “Quem reúne as melhores condições para fazer com que o partido chegue a 2018 o mais unido possível, dadas as mônadas?
Esse é o cara que tem de presidir o PSDB ou qualquer partido.

Fonte: Blog do Reinaldo Azevedo 
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