segunda-feira, 1 de maio de 2017

O Termo Saudade. Morre, aos 70 anos, o cantor Belchior


Após uma década voluntariamente fora de cena, Antônio Carlos Belchior foi-se aos 70 anos de idade. A notícia chegou ao público durante a manhã de ontem, após Edna Assunção de Araújo, a companheira do artista, ter ligado para parentes informando que Belchior foi dormir, mas não acordou. O casal vivia em Santa Cruz do Sul (RS), a 120km de Porto Alegre, em um exílio voluntário da vida artística do cantor e compositor. Foi lá que o músico sofreu uma parada cardíaca, horas após realizar uma pequena apresentação. A informação da morte do artista foi noticiada nacionalmente em primeira mão pelo O POVO.

O grande legado do cearense é a obra deixada por ele em 17 discos e um afastamento do mercado e dos holofotes na última década. “O desaparecimento do Belchior, esse hiato, foi a conclusão de uma ópera”, define o cineasta Nirton Venâncio, amigo do artista. Fagner, parceiro de composição de Belchior, relembrou a parceria que tiveram na canção Mucuripe. “Compor essa música ao lado dele foi mágico. Foi nossa primeira parceria de outras mais que vieram. Poderiam ser tido mais”, lamenta.

Nascido em Sobral no dia 26 de outubro de 1946, filho de Dolores Gomes Fontenelle Fernandes e Otávio Belchior Fernandes, o cantor teve uma infância próxima às artes e letras. A música surgiu, de início, na família: o avô tocava flauta e sax, a mãe cantava no coro da igreja e os tios eram “boêmios, que cantavam e tocavam violão”. Além de parentes, Belchior também atribuía papel importante à cidade natal — “foi lá que eu vi a arte das igrejas, os mestres, as bandas de música” — e ao colégio de padres, onde estudava — “a música era uma disciplina normal no currículo. Essas coisas me encaminharam para o fazer artístico”, resumiu, em entrevista ao O POVO em agosto de 2007.
Capa da edição 01-05-2017

De Sobral, Belchior mudou-se para Fortaleza no início da década de 1960. Chegou a estudar Medicina na Universidade Federal do Ceará, mas seguia mantendo um pé, ou quase os dois, no “fazer artístico”, circulando em eventos culturais da Capital e trabalhando em um programa musical da TV Ceará.

Foi quando deixou a Cidade para morar no Sudeste, no entanto, que Belchior passou a ser reconhecido por sua arte, já nos anos 1970. “Ele fez quatro anos de Medicina e disse para mim que não era aquilo que queria. O papai pediu muito para ele terminar, pois faltava só um ano. Ele disse que não, que iria viver de música”, contou o irmão Nilson Belchior, em entrevista para o especial comemorativo dos 70 anos do cantor, publicado pelo O POVO em outubro passado.

Durante as décadas de 1960 e 1970, Belchior firmou parcerias com Fagner, Téti, Rodger Rogério, Amelinha, Ednardo, entre outros artistas. O primeiro LP do cantor foi lançado em 1974, mas foi 1976 que marcou a carreira de Belchior: foi naquele ano que Elis Regina gravou Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais, de autoria do cearense, no LP Falso Brilhante, e, mais tarde no mesmo ano, Belchior lançou Alucinação, disco referencial que o alçou ao sucesso nacional. Aos dois primeiros trabalhos, somaram-se outros 15. O último disco de inéditas foi Baihuno (1993). Depois dele o cantor passou a revisitar a própria discografia, lançando acústicos e releituras. Os último trabalhos de estúdio lançados foram Auto-Retrato (1999) e As Várias Caras de Drummond (2004), com melodias de Belchior para poemas do escritor mineiro.

Daí para frente, Belchior acabou por superar o status de ídolo para virar lenda, mito. O cantor foi se distanciando do público e da mídia a partir de uma espécie de autoexílio, descrito como “sumiço” e envolto em polêmicas e boatos. Na entrevista que deu ao O POVO em 2007, Belchior já tinha dado pistas do que estava por vir: “Olha, essas fugas de casa foram constaaaantes (risos). Sempre fui um menino muito levado, inquieto e isso me levou a fugir várias vezes de casa, mas eu sempre voltei”. (colaborou Camila Holanda)
Fonte: Jornal O Povo
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