terça-feira, 5 de março de 2013

Filosofando - Por Mário Henrique / Guaraciaba do Norte


Hoje , meu cachorro fez lembrar-me de Platão. Em um dado momento, enquanto eu usava roupas incotidianas e brincava ludicamente , fabricando gestos descompromissados, surpriendi-me com seu olhar, com a sua postura observacionista, zeloso e sempre fiel no trato de sua observâcia institiva; então, ele parecia... parecía-me admirado e ao mesmo tempo, espantado, diante de algo supostamente inusitado, fora do padrão.

Fui refém , por alguns segundos, dos arroubos discrepantes de tal constatação; sentí-me uma assombração , uma figura insólita, extraordinária, como se naquele fugaz momento , eu me fosse a própria personificação do primeiro eclipse observado. Era eu, um intruso da caverna. Mais que isso, eu era a transgressão da realidade, a constatação da ignorâcia centelhando no olhar de um observador que desconhecia sua própria noção de ignorar ou condição de ignorante.

Foi quando então, na reciprocidade do observar, vislumbrei a sua postura , o seu olhar indagativo, incomodado , inquisidor. Parei . Ele latiu e alternou evoluções que pareciam demonstrar medo e desfio. Ao perceber que eu ainda permanecia parado, lentamente aproximou-se , logo abaixando-se ao mesmo tempo em que rastejava e farejava curioso, imbuido do ímpeto da saciedade. Demonstrou não aceitar as coisas sem maiores considerações.

Doravante, não me fugiram a imagem e o simbolismo socrático. O meu cachorro, ao alcançar com sua visão, a nitidez desmistificante proporcionada pelos espaços exíguos , reconheceu meu disfarce, meus trejeitos, aceitou minhas tradições, assentiu. Logo eu, que da metamorfose, pensava ser feito. Deu ai um sorriso desconcertado, que nem pássaro constrangido ao despencar. Ladrou, timidamente. Aparentando ressábio diante da perfidez  pelo que acreditava conhecer. Estranhamente, aparentou anuir, que viver é enganar-se com a verdade, e angústia , é a não aceitação da incompletude perfeita.

Meu cachorro, fôra filósofo, fôra poeta como Pessoa. Fôra também, gigante, como elefante ou baleia. Aliás, não foi por acaso que de icoercível alusão, me veio tão fortemente a lembrança de Graciliano. A sozonalidade da sorte inerente ao período chuvoso, fomentando o “ramo” e o “rumbora” do nordestino, pergrino, nômade e ignorado, fugindo das secas vidas , ressequidas à mercer do abandono. Uma gente expatriada, sem nação protetora, sem noção humana de animal deprezado.

Meu cachorro fez lembrar-me a cachorra baleia. O inimigo era confrade e fez do piso um colchão, rolando feliz , assim como baleia no sonho encantado onde preás gordos em miríades eram miragens magistrais em meio ao deserto das desilusões.

Não pude então , deixar de pensar que o cachorro me era  e é o que me sou. Ontologia , Aristóteles já diria.

 Mário Henrique

                                                        
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