segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Presidente Lula e Tasso - Por André Haguette / Fortaleza

Compreender a política não é tarefa fácil, mesmo sabendo que o jogo político é fundamentalmente um jogo de poder e de interesses, interesses dos mais inconfessáveis até os mais nobres, que sejam individuais ou coletivos. Assim o agir político está recheado de táticas e estratégias para atingir determinados fins. Quando tudo caminhava para um entendimento amigável, latente entre o PSB e o PSDB, eis que os arranjos foram desfeitos e um candidato de oposição a governador foi lançado, Marcos Cals, em apoio à candidatura de Tasso Jereissati a senador. Diversos comentadores políticos atribuíram esse lance à visita do presidente Lula ao Ceará, que teria exigido por parte do governador Cid um alinhamento oficial com os dois outros candidatos à senadoria. Verdadeira ou não, essa versão não deixa de ser instigante: o que levaria o governador a dobrar-se à vontade de Lula quando este acabava de aplicar um golpe de mestre no irmão Ciro?

A decisão manifesta uma clara intenção de permanecer ligado ao comando do Planalto, por medo de represálias ou esperança de benefícios futuros. Mas o que se consegue ou se conseguiu com isso? Se a política entre nós é concebida como uma troca entre o dar e receber e não como uma defesa intransigente de ideologias, programas e princípios cabe perguntar o que a fidelidade ao governo Lula dos dois últimos governadores trouxe ao Ceará? Muito pouco e pouquíssimo em relação à consistência e ao tamanho dos apoios e votos dos eleitores.

O Ceará se beneficiou, como todos os outros Estados da Federação, do sucesso da política econômica do governo Lula e de determinados programas, entre outros, o Bolsa Família, a criação de escolas tecnológicas e o crédito do Banco do Nordeste. Mas o que foi feito de específico no Ceará, estado entre os três ou quatro mais pobres do País? Cadê a refinaria, duas vezes publicamente prometida por Lula? Enquanto se planeja um trem-bala ao custo de (no mínimo) R$ 38 bilhões, o Governo Federal não foi capaz de concluir o metrô de Fortaleza. Cadê a Zona de Processamento das Exportações (ZPE)? Cadê as lentérrimas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o planejamento e dinheiro da Sudene triunfalmente recriada? E as nossas estradas federais comparadas às dos Estados vizinhos? E isso sem falar do tão prometido Hospital da Mulher! Diante desse quadro e dentro do jogo político nacional mesquinho de troca de favores, ficar na oposição não proporcionaria um melhor poder de barganha?

O governador Cid Gomes, pelo menos duas vezes no período eleitoral, declarou que “Tasso Jereissati era o maior político cearense das últimas décadas”. E, de fato, ele o é não somente por ter ocupado três vezes a governadoria do Estado, mas por ter elaborado e executado um novo projeto para o Ceará, o que levou estudiosos a criar a expressão “era Tasso Jereissati” para se referir aos últimos 24 anos no Ceará. Todos lembramos que Tasso, apoiado por empresários do Centro Industrial do Ceará (CIC) e pelo movimento Pró-Mudança, fez campanha contra os coronéis e tratou de organizar um estado livre do tradicional clientelismo e com finanças saneadas.

São do Tasso mudanças estruturais e sociais de efeitos multiplicadores: a industrialização do Interior; a implementação da indústria do turismo; a convivência com a seca mediante o Castanhão e o Caminho das Águas, hoje rebatizado de Eixão das Águas; as estradas e obras estruturantes como o Complexo Industrial e Portuário do Pecém; o novo aeroporto de Fortaleza; a fruticultura e floricultura no Ceará; a implantação dos agentes de saúde em todos os municípios; o Projeto São José; a municipalização do ensino fundamental que deu origem ao Fundef e ao Fundeb, a criação da Urca e da UVA; a universalização do ensino médio e a construção de Liceus; os programas de diminuição drástica da mortalidade infantil; de interiorização de água potável em torneiras, de eletrificação, etc. Este modelo de desenvolvimento vingou e teve continuidade, com modificações e acréscimos, nos governos Ciro Gomes, Lúcio Alcântara e Cid Gomes.

Aos olhos de quem julga os governos pelas obras que realizaram em favor da população, melhorando a sua vida, a opção do governador surpreendeu, mas teve o mérito de provocar a instalação de uma necessária oposição para apurar e fortalecer o jogo democrático e a prática governamental e legislativa.

André Haguette é Sociólogo
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