quinta-feira, 25 de março de 2010

Os Orfãos da idade - Por Bérgson Frota / Fortaleza



No ritmo alucinante de vida que se vive hoje nas grandes cidades, onde o contato humano se dá quase sempre numa superficialidade não tão necessária mas já característica, assiste-se silenciosamente o drama dos idosos oriundos do interior.

Trazidos pelos filhos, sofrem no novo ambiente com a insegurança e as parcas opções de lazer. Daí perderem eles importantes pontos de identidade e referência com que se guiaram na maior parte de suas vidas.

O primeiro é a moradia, em geral apartamentos. Um estilo de vida que os faz sentir saudosos da importante convivência com os vizinhos que tinham.

O elevador transforma-se num espaço em que muitos se vêm diariamente e passam a “conhecer-se”, e deste modo frio de relacionamento, não generalizando, acabam identificados por fim pelos números de suas novas residências.

Longe da amizade mais próxima se fitam silenciosos, até findarem-se os “eternos” segundos que os levam à portaria ou ao seu andar quando se está de regresso.

A rotina que antes se fazia ao percorrer as pracinhas, ir às missas e conversar com amigos transforma-se em viagens constante a médicos e esporádicas visitas dos filhos aos domingos, estes quando aparecem, mas mesmo a presença constante destes, não impede com que os pais já idosos se tornem o que poderíamos chamar de “órfãos da idade”.

Dependentes de cuidados, muitos calam diante das contrariedades que lhes são impostas, envergonham-se de pedir o que para eles seria o lícito, mas já de forma inconsciente se consideram aos filhos um estorvo, quando assim não deveria ser.

Não se trata de acusar os filhos de insensíveis, mas alertá-los que muitas vezes em tirá-los do seu recanto interiorano, onde ficaram os velhos amigos e histórias para serem lembradas e nestas lembranças buscadas e revividas criam neles um desamparo psíquico quando não uma grande falta de perspectiva.

É necessário nestas decisões familiares muito pensar e dar espaço aos pais para manifestarem-se, pois em muitos casos a frieza da vida de um grande centro urbano é mais sentida e mais cruel para o idoso do que a temida solidão interiorana que se busca evitar.

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota, escritor, contista e cronista, é formado em Direito (UNIFOR), Filosofia-Licenciatura (UECE) e Especialista em Metodologia do Ensino Médio e Fundamental (UVA), tem colaborado com os jornais O Povo e Diário do Nordeste, desenvolvendo um trabalho por ele descrito de resgate da memória cultural e produzindo artigos de relevância atual.
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