quinta-feira, 25 de março de 2010

700 milhões vivem sem nenhum saneamento - Por Priscila Pagliuso / Rio de Janeiro


Boa parte da população mundial, cerca de 700 milhões de pessoas, permanecem sem nenhum tipo de saneamento básico e 2,5 bilhões delas vivem sem instalações sanitárias adequadas, advertiu nesta quarta-feira (24/3), o contabilista Dennis Mwanza, do Water and Sanitation Program (WSP), programa de água e saneamento do Banco Mundial.

Embora proporcionalmente a quantidade de pessoas sem acesso a esses serviços venha diminuindo consideravelmente nas últimas décadas, a carência continua, em números absolutos, acompanhando um crescimento populacional de 779 milhões de pessoas desde 1990, segundo informou Mwanza no evento de rede “Unindo a divisão: aprimorando o fornecimento de água e o saneamento para os pobres urbanos”, durante a tarde desta quarta-feira no Fórum Urbano Mundial 5 (FUM5), que acontece no Rio de Janeiro.

A região com os piores números do planeta é o sudeste asiático, embora os países da área tenham reduzido em 17 pontos percentuais a proporção de pessoas que ainda precisam defecar e urinar ao ar livre, sem nenhuma separação sanitária, em um período de 16 anos. Em 1990, o índice naquela região era de 65% da população; ele caiu para 48% – pouco menos da metade da população – até 2006, data da mais recente estimativa do WSP. Na média mundial, a queda foi de 24% para 18%.

Mwanza recebeu convidados para descrever programas de saneamento em favelas e áreas carentes em diferentes locais. O primeiro a falar foi o indonésio Nugroho Tri Utomo, que explicou as ações para reduzir o esgoto a céu aberto em seu país, que faz parte justamente da região mais afetada pela carência de saneamento no mundo.

Segundo Utomo, a população local já se acostumara aos baixos padrões de higiene, fazendo parte de um ciclo vicioso em que não cobrava mais das autoridades por melhores condições e, ao mesmo tempo, não pagava taxas que pudessem bancar uma melhoria no sistema.

“A população pobre, se tiver a opção e sentir que vale a pena pagar para ficar mais segura de doenças causadas por falta de esgoto, ela paga”, afirmou o indonésio, ressaltando que um largo trabalho de comunicação foi feito para convencer as pessoas a participarem, adquirindo latrinas, do processo de construção de sistemas de saneamento que começou em seis cidades escolhidas como modelo, já chegou a 24 municípios e pretende se expandir a 307 até 2014.

Além da falta de sistemas de saneamento, a população da Indonésia, maior que a do Brasil – 242 milhões segundo o censo mais recente, de 2005 – ainda sofre com constantes enchentes, espalhando sujeira dos esgotos ao ar livre, especialmente nas áreas mais pobres.

Sistema improvisado Chefe da equipe do WSP para a América Latina, Glenn Pearce-Oroz citou o curioso exemplo de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, onde 58% da população têm acesso ao saneamento completo, mas o restante precisa apelar a cerca de 40 companhias pequenas que removem os excrementos de fossas caseiras com caminhões.

“O lado bom dessas empresas é que elas preenchem uma lacuna. No entanto, geralmente não têm equipamento técnico adequado nem no transporte nem no depósito”, frisou.

As inadequações começam, na verdade, nas próprias residências, 80% com falhas técnicas em suas fossas, segundo pesquisa do WSF. Os problemas continuam nos caminhões das companhias de remoção, 90% dos quais não levam nenhum aviso de que espécie de material que estão transportando e chegam aos depósitos, 65% em lagos de oxidação, mas 35% em terrenos baldios e áreas de cultivo – destas, Pearce-Oroz ainda ponderou que muitos agricultores pedem os excrementos para usar como adubo orgânico.

“As fossas domésticas e companhias de remoção devem continuar preenchendo essa lacuna por algum tempo, pois o saneamento demora a ser universalizado, mas elas têm que melhorar seus padrões técnicos”, avaliou.

Também na América Latina, Marco Zegarra, do governo estadual da La Libertad, no Peru, destacou a dificuldade de se planejar um programa de saneamento em áreas pobres num país de administração altamente centralizada.

“Um terço da população vive na capital Lima, que responde por 80% dos investimentos do país. Somente em 2001, as autoridades locais passaram a ter mais autonomia, mas ainda precisam trabalhar em conjunto com o governo central, pois não têm verba própria suficiente”, afirmou.

Também foi abordado um sistema que vem tentando se desenvolver em Burkina Faso, na África, com fossas comunitárias nas áreas carentes rurais. Metade da população do país ainda precisa fazer as necessidades ao ar livre, principalmente nessas regiões.

Priscila Pagliuso
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