terça-feira, 17 de novembro de 2009

Moeda de troca na saúde - Por Lúcio Cavalcante de Albuquerque / Rondônia

Nessa questão do João Paulo só atender alta complexidade, deixando para os postos municipais o atendimento menor pode até ser uma coisa coerente, mas, na prática, está cada vez mais gerando dificuldades e pode até descambar em agressões a quem não tem nada com a história: os profissionais que atendem nos postos municipais e que vão acabar levando a culpa de uma situação gerada pelo desprezo com que o setor vem sendo tratado pelo poder público.

A questão do João Paulo é mais uma demonstração da politicagem na gerência do interesse público e, claramente, o uso de um setor vital, o da saúde, como moeda de troca na disputa política local, sem que se leve em consideração o cidadão e direitos consagrados inclusive na Constituição Federal.

Não estou aqui para dizer quem está certo ou errado, mas apenas para citar um exemplo, o do controle do ponto nos hospitais do Estado, onde quem toma conta disso destrata servidores alegando agir em nome do governador, transformando um ato normal, o de verificar a presença em serviço dos servidores, num exercício de autoritarismo e de má educação - o que também acontece na Assembléia Legislativa.

Voltando áo nosso foco central, relativo ao João Paulo, seria necessário, antes de tomar uma decisão como a agora anunciada, que Governo e Prefeitura cumprissem efetivamente suas responsabilidades. Nesse caso do atendimento no órgão estadual, há dois fatores a considerar: primeiro, a falta de cultura em Porto Velho de levar o doente inicialmente aos postos e policlínicas municipais e, segundo, porque os postos municipais não contam com estrutura necessária para cumprir suas finalidades.

Equipamentos quebrados dificultam até um exame de raio-x ou um examelaboratorial, isso para citar apenas doisa casos, o que pode ser ampliado pela falta segurança física de prédios e servidores. "Como posso atender bem um paciente se alguém fora do gabinete está gritando e dando chute na porta ameaçando me agredir?", queixa-se um profissional de saúde, reclamando que a sobrecarga do plantão é outra ameaça: "Há dias que atendemos num período mais de 50 pessoas, e isso é desumano para nós, que fazemos o atendimento e, principalmente, ao paciente que não pode ser bem examinado justamente porque faltam tempo e meios para tal"?".

Apenas para citar um exemplo, a situação do posto municipal do Ulysses guimarães, onde falta banheiro para uso de quem trabalha ali, e o único, o do pessoal da limpeza, está em situação tão precária que desestimula qualquer pretendente a usuário, e a solução é buscar socorro nas casas vizinhas, contando com a boa vontade dos moradores.

Nessa questão do uso da saúde pública como moeda de troca política entra até a Vigilância Sanitária. Se esses órgãos, o municipal e o estadual, agissem conforme as finalidades para as quais foram criados - e para o que o contribuinte paga salários e meios de trabalho - certamente haveria interdição de locais de atendimento de saúde que não condizem com as normas da vigilância. "Mas, como fazer queixa nesses órgãos? Será que eles farão alguma coisa sabendo-se serem ligados ao poder público?", quer saber um profissional de saúde.

Agora, uma coisa se tem de tirar o chapéu e destacar: fazer propaganda, gastar dinheiro vendendo imagem de ter feito algo no setor, isso os administradores públicos fazem com muita voracidade. Já agir de forma coerente no setor, investindo na melhora da qualidade do atendimento, bom, isso, pelo visto, é periférico.

Inté outro dia, se Deus quiser!

José Lúcio Cavalcante de Albuquerque. Ex-editor dos jornais Tribuna, Alto Madeira, e com passagens em outras publicações como o Estadão do Norte, Lúcio Albuquerque, egresso da imprensa amazonense, tem projeção nacional, desde a década de 80, quando foi correspondente do Estadão de São Paulo.
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