domingo, 15 de março de 2009

Medo da morte - Por Lúcio Albuquerque / Rondônia


Dizer que alguém não tenha medo da morte, é coisa difícil de entender. Mas o que andei ouvindo nesse périplo nordestino, 40 dias de Aracaju ao Maranhão, chama a atenção porque não se trata de medo de morrer, mas de que alguém morra e, aí, seque a galinha dos ovos de ouro que garante a muitos marmanjos deixar de trabalhar e passar a viver dos rendimentos de senhores e senhoras aposentadas, nas pequenas cidades.

O maior medo de muitos desses jovens é que seus pais ou avós morram, porque aí deixam de receber o dinheiro da aposentadoria e, então, para sobreviver, têm de voltar a trabalhar.
A frase foi ouvida em várias situações diferentes, entre Fortaleza e Aracaju, em João Pessoa, em Teresina, em Campina Grande, e por aí afora.

Bom prá gente é quando pagam o bolsa-família e o bolsa-escola. Só estão deixando de plantar para viver disso.

A opinião foi de comerciantes em Guaraciaba do Norte (CE) e em Timom (MA). Quem está gostando desse sistema de aposentar velho são os políticos e os donos de financeiras que emprestam dinheiro. Os filhos e netos exigem e pressionam. Aí o pai ou o avô se endivida para atender. Mas eles não tratam os velhos com respeito, diz um professor de História Regional em Teresina.

Recebidos, com alegria, por todos os segmentos envolvidos , os auxílios sociais do Governo são vistos, atualmente, inclusive por funcionários de órgãos federais, como fatores de desestruturação econômica. O Governo está invertendo a filosofia, que manda ensinar a pescar. Até quando vão continuar dando o peixe?, pergunta uma funcionária federal em Parnayba (PI).

Para muitos, o grande beneficiário é aquele político que transforma o auxílio social em voto. Isso também acontece em Rondônia, onde muitas famílias estão deixando de plantar e de criar, para viver do que o Governo lhe dá, me diz uma atendente de enfermagem residente na região de Guajará-Mirim e com a qual eu conversei na feira de Caruaru.

A coluna de hoje busca apenas levar aos leitores uma reflexão em torno de uma idéia que, como é fácil de entender, se deixou mesmo de lado o ensinar a pescar para se instaurar a exploração da miséria humana. Enquanto quem trabalha paga a conta.

Inté outro dia, se Deus quiser!

José Lúcio Cavalcante de Albuquerque. Ex-editor dos jornais Tribuna, Alto Madeira, e com passagens em outras publicações como o Estadão do Norte, Lúcio Albuquerque, egresso da imprensa amazonense, tem projeção nacional, desde a década de 80, quando foi correspondente do Estadão de São Paulo.

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Um comentário:

  1. Confrade Lúcio, está se olhando apenas um lado da questão. Eu nasci e vivi bom tempo na região mais seca do Nordeste, Seridó do Rio Grande do Norte. Minha vida de jovem, até os 19 anos, foi por aqui, a coisa era feia, junto com muitos passei dificuldade e até fome, não conseguia fazer a 6ª série porque na Minha Jardim do Seridó tinha apenas estudo até a 5ª série, chamado Programa de Admissão. Meus pais sem condições financeiras, não podiam me mandar estudar no Ginásio Diocesano Seridoense - GDS, em Caicó. Fui conseguir uma bolsa em 1964, já tendo perdido dois anos de estudo. Hoje ônibus escolares da Prefeitura transportam alunos de toda área rural para alunos da creche à faculdade. Só não estuda quem não quer. Uma amiga minha falou: "Já não se vê mendigo pedindo esmola nas feiras". Não sou a favor, totalmente, da bolsa-família, todavia ela tem ajudado bastante. O nordestino não "é antes de tudo um forte", ele é honesto e não se orgulha por receber algo sem dar uma contrapartida. Essa conversa de ensinar a pescar ao invés de dar o peixe, é muito bonito para quem não conhece o sertão seco ou é político procurando um fatia do bolo. Trabalhei 2 anos atendendo 28 municípios na região mais seca do nordeste, vi cada situação em lugares ermos que fiquei me perguntando como esse povo vivia antes sem a bolsa-família. Eu vivi duas situações diferentes, 33 anos na amazônia, muita chuva, e o restante do meus 65 anos no nordeste, com pouco, mas muito pouca, ou sem chuva, mesmo com orações. Que tipo de ensinamento do tipo "pescar" pode se criar numa terra iminentemente agrícola, sem chuva, abrir poços artesianos? Nasci e me criei ouvindo isso. O que acontece é que existe muita gente dando opinião sobre um assunto, sem sentir o o viver o problema.

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