quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Juiz ou Réu - Por Beto Costa / Rio de Janeiro

Implicitamente, todos somos vítimas da sociedade contemporânea? Minha pergunta se fundamenta no assassino que acabei de virar.
Embora não tenha tido dolo, matei o silêncio das minhas linhas tortas. Há mais de um ano eu não escrevia nada.

Muitas vezes a tão procurada inspiração vinha, mas eu sempre preferia virar pro lado e fingir que tanto fazia. Quantas frases de efeito e “pensamentos filosóficos” se perderam. Minha maior frustração é não lembrar nada no dia seguinte. Entretanto, atipicamente, hoje, conquistei a desconhecida e vazia Insônia. Algo dentro de mim me obriga a pegar o laptop. Não sei direito o que escrever.

O meu âmago se confunde com as minhas aflições. Penso no que não me tornei e de como muitos sonhos se esvaíram. De repente, impetuosamente, meu coração se outorga mestre do contorcionismo. E acreditem, eu não sabia que um órgão poderia escolher tanto...

É estranho quando não se sabe pra onde ir. Perder o controle é não se importar mais com a convicção das próprias normas preestabelecidas durante anos. Confuso, descubro que não ter onde pisar é como cair num buraco sem fundo da própria consciência. Mas o que fazer para parar? Queria que o “Good Times” fosse o bastante. Ligar a TV também de não adiantou. Ontem eu iria para o seio da minha “amada imortal”. Entretanto, nem parafrasear o gênio Bettowen me dá respostas. Preciso do imediatismo. A ele sim estou acostumado! Se quero comer, gasto apenas três minutos no preparo do miojo. Se quero entretenimento, o controle-remoto está ao meu alcance.

Se quero fazer compras, apenas atualizo o meu anti-vírus. E, mesmo com tanta instantaneidade, eu sequer escrevo um e-mail para saber como estão os meus amigos, outrora amizade eterna. Que metamorfose é essa?

Um grande pesar que levo na vida é o dia do falecimento da minha mãe. Eu cheguei tarde... Ah, naquele dia, como eu queria ter dado um beijo nela, um abraço apertado e olhado no fundo dos seus olhos e dito que a amava. Mas, em vez disso, me apressei para não perder o horário. Alguns segundos a mais talvez me bastassem. Completamente leigo a qualquer religião, mas sabedor de que a fé no tamanho de um grão de mostarda é o que nos é pedido, implorei por seu ressuscitar.

Mas, amigos, não confundam fé com desespero.
Quantas oportunidades deixamos de ganhar ao longo das nossas vidas? Amizades, por subjugarmos algumas pessoas. Aquele amor, por não sermos nós mesmos. Oportunidade de emprego por não termos estudado o bastante. Isso sem mencionar o perdão, sempre aniquilado pelo orgulho. Há também a oportunidade que some por não fazermos nada! É perturbador como, às vezes, não temos boca. Como, às vezes, não temos olhos. E como, às vezes, não temos ouvidos.

É impressionante como, na maioria das vezes, não fazemos sequer um gesto. Deixamos o tempo passar sem que ele nos perceba. Eu falo todo dia com algumas pessoas e, pasmem, eu sequer sei como se chamam. A nossa linguagem está cada vez mais burocrática. Será que não podemos dizer mais do que um “bom-dia”? Acabou de passar por minha cabeça a possibilidade de dizer às pessoas: “Bom te ver”. O que nos falta? Onde nos limitamos? Não me pergunte onde, mas há tempos perdi o meu cartão-de-visita, o sorriso frouxo.

Eu hoje estou com medo. Tenho medo de ter condenado um inocente: o corre-corre do dia-a-dia.

Beto Costa é jornalista
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