segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Escrever, verbo intransitivo - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Os janeiros – repisemos – trazem-nos o olhar à frente e atrás, a dupla face de Jano. E, a mim, aquariano, o olhar sobre a escola e, nela, o escrever.

Reporto-me aos tempos de adolescente, egresso das caatingas das Ipueiras para as brumas da Serra dos Órgãos, no Seminário de Petrópolis. Ao final do ano, uma caneta a mim de prêmio, símbolo e estímulo ao escrever. Alegando humildade, rejeito-a. O bispo reclama-me não ter eu aprendido a diferença entre "húmus" (chão) e "vanus" (oco, vazio). Lição, a caneta de volta. E, nela, o responsável "ofício do escrever".

Nos fechados anos 70, sob a coordenação de Adísia Sá, publicamos, pela Editora Vozes, de Petrópolis, o livro Fundamentos científicos da Comunicação, cabendo-me discorrer sobre os fundamentos lingüísticos. À época, os arapongas viram-nos sob as metonímias do mar cor de rosa com a editora do clero. E logo depois, nos tempos do Ciclo Básico, na UFC, a metodologia Oficina do Pensar, considerada pelo MEC, entre as mais avançadas do País, despertaria preocupante olhar sobre nossos propósitos. Lembro-me haver deixado tais setores sem nada entender ante a frase: "escrever é verbo intransitivo"...

Jano, em seu duplo olhar, à frente e atrás, ostenta-nos dual a nossa escola e, produto dela, seus alunos. De um lado, gênios até, figurando alguns entre os melhores "deste País" e do mundo. De outro, escolas (privadas e públicas) entre as piores do globo. Nelas, alunos analfabetos funcionais.
Em mim, a lição que, em Petrópolis, ratificada após no Seminário da Imaculada, em Campinas (SP), deixaram-me os professores sobre o escrever e o ofício do pensar. Verbos, os dois, intransitivos, alicerces de uma escola a formar "cidadãos, profissionais e pessoas", porto constitucional e seguro para nossa combalida educação.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
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