domingo, 28 de dezembro de 2008

O Centenário do açude Cedro - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Há exatamente 100 anos era inaugurado o açude Cedro, obra prima da engenharia brasileira do final do século XIX. Este colossal açude retrata as esperanças do governo central na época para minimizar o sofrimento do nordestino, em especial o cearense que muito havia sofrido na grande seca de 1877 e que durou até 1879, custando ao Ceará, segundo o historiador Barão de Studart, 119 mil mortos e expatriados 5.500, bem como o desaparecimento total da indústria criadora

A obra foi encomendada pelo imperador Pedro II, monarca sensível ao sofrimento de seu povo e que conforme a lenda histórica, ao ouvir os relatos de vários retirantes teria dito que venderia “até o último brilhante da coroa” para que nunca mais os cearenses morressem de inanição.

Enviou ao Nordeste uma missão científica, especialmente ao Ceará, para estudar a questão da seca. Dela participaram os maiores expoentes da engenharia brasileira na época como o professor Raja Gabaglia, o Barão de Capanema e outros grandes nomes.

Determinada a construção do açude, escolheu-se a região semi-árida de Quixadá.

As obras da barragem foram iniciadas em 1881 (ou 1888, segundo outras fontes), foi quando começou o levantamento da monumental parede de pedra, engenho de arte e beleza, que veio em 1977 a ser tombada pelo Patrimônio Nacional.

A obra prosseguiu por quase 25 anos, e depois da abolição da escravatura teve como força o braço livre dos agricultores da região.

A conclusão do grande açude se deu já na República, em fevereiro de 1906, no governo de Afonso Pena.

O Cedro foi o primeiro açude público do Nordeste, símbolo maior da luta do nordestino pela sobrevivência contra as adversidades da seca. Possui um reservatório com a capacidade para 125.694.200 metros cúbicos, com uma profundidade máxima de 16 metros e uma bacia hidrográfica de 120 km quadrados.

Da parede do açude, feita artesanalmente de pedra, vê-se a bela formação rochosa que é o símbolo da cidade de Quixadá : a pedra da Galinha Choca.

A construção do Cedro foi um grande desafio, não só pelas difíceis condições da região na época mas também a prova de que o nordestino não se acomoda perante a maior das adversidades que tem enfrentado : a seca.

Ao finalizar, fica a frase concisa mas grandiosa que melhor define o grande açude dita pelo biólogo paranaense Fábio Angeoletto : “Pergaminho pétreo que nos conta a história evolutiva de um animal cujas armas não são garras ou mandíbulas poderosas, mas a capacidade de criar e disseminar cultura”.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha

(Publicado no jornal O POVO em 19.03.2006)

sábado, 27 de dezembro de 2008

Frase do dia
"Um bom sinônimo de desonesto é indigno. E servidor do povo indigno não pode e não deve escapar incólume."

Roberto Civita, editor da VEJA e presidente da Editora Abril

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Berço do Nazareno  - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza


Na TV e jornais, mercado e política em aguda crise. Nos shoppings, spot lights sobre pródigo Papai Noel. Na Praça do F erreira, em contraponto, outro cenário: arte, cultura e criatividade de nossa gente, nas noites, em Fortaleza.

Com amigos, acorro para este cenário. Luzes sobre tombado hotel . Em suas janelas, crianças e artistas, nos diversos andares, a nos envolver em antológicas canções natalinas. Muitos ali, os que compartilhávamos desse clima envolvente. No vácuo do outrora Abrigo Central, palco a teatralizar cenas sobre o natal. Crianças, seus pais e avós, irmanados nos aplausos. Os bancos, a me evocar os noturnos papos dos tempos estudantis. E o outrora soberbo Cine São Luiz a suscitar história em que nos tornamos partícipes dos festivais do cinema nacional e da realização do internacional FestRio, que para cá trouxemos, nos anos 80.

De volta, o folclórico Bode Ioiô, hoje no Museu Histórico, parceiro nos papos entre intelectuais e boêmios. E a cena do Ceará Moleque, a vaiar o retardado e preguiçoso sol, aqui onde o sol sempre nasce mais cedo... Discreto, na recuperada Coluna da Hora, um presépio: Jesus menino cercado por pastores, animais, anjos, reis magos...

Já de volta e em casa, martela-me a cabeça o Soneto de Natal, de Machado de Assis. E dele faço postal, enviado por e-mail aos amigos, falando de "noite amiga" (...) "berço do Nazareno", atropelado pelo "metro adverso", ultimado na indagação "Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Retorno à infância, em Ipueiras, onde os criativos presépios de Raul Catunda nos levavam ao "berço do Nazareno". Nisso, chegam-me, na contramão desse clima, protestos de professor da UECe contra nossa política, "remanescente da elite trazida por dom João VI" (...) "E aí você me vem com papo de nazareno... Me poupe!"
Razões ao professor?

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).


terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Frase do dia
"Se tem um dinheirinho no bolso ou recebeu o décimo terceiro, e está querendo comprar uma geladeira, um fogão ou trocar de carro, não frustre seu sonho, com medo do futuro."

Lula

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Uma Árvore de Natal para Maria - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Maria era uma pobre menina que vivia no interior.Seu cenário era completamente diferente do ambiente das meninas de sua idade que moravam na cidade.

Até bem pouco tempo, as pessoas que moravam no interior, iam à cidade por dois motivos apenas: A feira aos sábados e a missa aos domingos.

E foi num domingo desses que Maria já crescidinha acompanhou, pela primeira vez, sua mãe, para assistir a missa dominical.

O dia de Natal se aproximava e as casas da pequena cidade escancaravam portas e janelas no intuito de exibirem suas árvores de Natal.

A pequena Maria que volteava pela cidade agarrada a mão de sua mãe, ficou maravilhada com as coloridas árvores que via a cada porta e janela que seu olhar espichado alcançava.

Em casa, o resto do dia a menina não falava em outra coisa. E queria que a necessitada mãe a qualquer custo montasse uma árvore de natal para ela. A mãe por mais que desejasse, não tinha condições financeiras para satisfazer as vontades da filha.

O Natal se aproximava, e Maria cada dia ficava mais triste, não queria comer, dormia mal e não tirava a árvore da cabeça. A mãe preocupada já estava pensando em levar sua filha ao médico.

Faltavam dois dias para o Natal, e para surpresa de todos Maria acordou feliz, tomou café e falou cheia de felicidade que iria ganhar uma árvore na noite de natal. A mãe preocupada colocou a mão na testa da menina achando que ela poderia estar com febre e por esse motivo delirava.

Maria com palavras firmes falou para a família:- Ontem eu sonhei com um anjo que saia do meio das nuvens e me dizia:-Dorme pequena Maria,Que a mãe do menino JesusVai te ofertar uma árvoreRepleta de cores e de luz.

Véspera de natal Maria entrava e saia e se impacientava por não ter a árvore prometida. A família aflita tentava consolar a criança. De repente diante dos olhos maravilhados da pequena Maria a promessa do anjo começava a ganhar forma.

Ouviu-se o canto do Galo repetidas vezes. Uma estrela brilhou forte no céu e feito uma estrela cadente se postou no mais alto galho de um pé de mandacaru que tinha na porta de entrada da casa de Maria. O pé de mandacaru que andava ressequido, como se por milagre ou encanto, apareceu cheio de frutos vermelhos como se fossem bolas de natal. Em suas flores desabrochadas beija-flores pairavam num movimento gracioso. Pequenas corujas se instalaram estrategicamente iluminando a árvore que começava a tomar jeito de árvore de Natal. Uma variedade infinita de pássaros saltava de galho em galho. E para completar o espetáculo. Correntes e mais correntes de vaga-lumes, num pisca-pisca natural, envolviam a mais bela, a mais deslumbrante Árvore Natural de Natal que já se viu na face da terra.

A estrela que brilhou no céu e se postou no alto da árvore, foi responsável pelo enxame de pessoas que, seguindo aquele clarão, presenciaram o mais belo espetáculo de suas vidas. A Árvore de Natal de Maria.

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Frase do dia
"Gente, por favor, ninguém tira o sapato. A gente vai perceber antes de jogar por causa do chulé."

Lula, brincando com os jornalistas

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Em louvor à Minha Terra - Por Jeremias Catunda / Ipueiras


Embora com o mesmo aspecto físico que as cidades do interior apresentam, Ipueiras tem qualquer coisa que a difere das demais comunas do nosso sertão.

A cavaleiro da soberba cordilheira da Ibiapaba, que vista da cidade parece uma imensa fita azul a ondular no poente, salpicada de esguias palmeiras, os crepúsculos chegam sempre mais cedo, porque a sombra da serra desce por sobre o casario multicor como um grande véu plúmbeo.

Cercada de morros que no inverno vestem-se de um verde-claro, quase gaio, antes das chuvas passarem já começam as jitiranas a soltar as flores violáceas, cobrindo com os pau-d´arcos toda a ramagem, que se torna matizada, apresentando um colorido exuberante, digno de uma tela. É num desses morros, o mais alto que orla o sul de minha terra, que está plantada a figura meiga do Cristo Redentor. De braços abertos, o olhar fino daquele que perscruta o interior das almas, parece a num longo e carinhoso amplexo de amizade, juntar a terra e o seu povo.

Visitante nenhum foi até hoje ao cimo da colina, de onde a imagem do Filho de Nazaré olha a cidade, que não tivesse uma frase de exclamação, uma palavra de elogio ao monumento, ao panorama deslumbrante que não cansa nunca os olhos.

A cidade é vista de todos os seus ângulos. Lá para o leste está o açude, aquele mesmo açude que me viu menino, de baladeira no encalço de jaçanãs e mergulhões, correndo na parede atrás do pássaro chumbado, ou descendo para represa onde os coqueiros e as enormes mangueiras oferecem um clima de oásis.

O chafariz que do alto mais se assemelha a um monumento do tempo de Mausolo, fica postado numa das principais entradas da cidade. É lá que a alma do povo humilde de minha terra, grita as suas necessidades e chora o seu abandono.

O Arco de Fátima, o mais belo marco da área urbana, se ergue na rua Gal. Sampaio e é bem o símbolo, o atestado da fé transbordante do ipueirense. Lá, quer nas horas quentes do sol a pino ou quando o grande astro já se vai dobrando por sobre a Ibiapaba, tem sempre alguém com os joelhos na terra, implorando uma graça à Virgem da Iria.

A Escola Normal Rural, edifício vigoroso do ensino de Ipueiras, enfeita com os seus dois vistosos pavimentos a Praça da Bandeira. É lá onde a nova geração está encontrando no amanho dos livros o caminho das ciências.

Um ligeiro salto passamos por sobre à avenida Getúlio Vargas, o coração da cidade, onde o society se reúne nos dias de festas e em que cada banco de cimento é um confessionário de amor. Nas noites de lua, quando a soberba rainha do espaço gira no alto, os violões sentidos, choram mágoas de romances fracassados, que a história só a velha praça conhece.

A Prefeitura ali bem perto, dorme com a sua galeria de edis o sono de Prometeu ! ?

Bem no centro da grande praça está a igreja ; com sua esguia torre para o alto, parece nos apontar o caminho de Deus. Tudo nos fala de um tempo, de álacres noitaros, das matinais alvoradas quando a santa padroeira é festejada em dezembro !

E vamos chegando ao velho rio Jatobá, à ponte, ah rio da saudade, das pescarias, dos banhos, cada curva que ele dá é um relicário do passado e são tantas as suas curvas ! Como nos lembra uma infância feliz e longínqua !

O carnaubal de minha terra é o mais belo do mundo ! À tarde em cada carnaubeira canta uma graúna. Quando a sombra da terra vai chegando, a grande orquestra inicia das copas soberbas e virentes a mais maviosa canção que já se ouviu : é a canção da saudade. Lembrá-la é rever minha terra, é escutá-la nos seus sussurros de amor.

É assim a minha terra : não há poeta que lhe diga a grandeza, não há descrição que lhe conte os encantos !!!

(Crônica publicada no jornal O Estado em agosto de 1959)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Foto do dia
Praça do Guaraci / Guaraciaba do Norte - Ce

Foto: Carlinhos Moreira

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Polícia que mata - Por Carlos Moreira / Ipueiras


Documento produzido pela Organização da Nações Unidas (ONU) aponta a polícia como a maior responsável pelos mais de 48 mil homicídios que se cometem a cada ano no Brasil.

De acordo com a ONU, os problemas incluem as execuções cometidas por policiais em serviço, fora do serviço, integrantes de esquadrões da morte ou de milícias, assassinos de aluguel e as mortes de internos nas prisões.

O inimigo pode estar ao lado, na rádio-patrulha, no batalhão, no posto avançado nas favelas. Além de enfrentar o tráfico, o policial ainda tem de estar preparado para o inimigo que mais o surpreende: o companheiro de farda - que não faz jus a ela. São histórias de traição, de ganância, que muitas vezes acabam da pior forma.

O torcedor do São Paulo Nilton César de Jesus, 26 anos, foi uma das últimas vítimas da PM que teve repercussão nacional, ele morreu no Hospital de Base de Brasília. A vítima foi atingida com um tiro na cabeça no domingo, pouco antes da partida contra o time do Goiás, no estádio Bezerrão, no Gama (DF). O disparo ocorreu durante confronto envolvendo uma torcida organizada do São Paulo e policiais.

O sargento da PM José Luiz Carvalho Barreto, suspeito de ter atirado no torcedor foi levado para um presídio militar, mas foi libertado pela Justiça. Ele foi autuado por lesão corporal grave. Segundo nota oficial da assessoria da Polícia Militar, o policial tinha cerca 20 anos de serviço sem desvios de conduta.

O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda (DEM), reconheceu o despreparo da polícia local, durante visita ao Congresso Nacional, também na terça-feira. Arruda ressaltou, no entanto, que o despreparo da polícia é um “fenômeno” nacional e não exclusividade do Distrito Federal.

Cuidado! A polícia não protege! A polícia mata!

domingo, 14 de dezembro de 2008

Foto do dia
Localidade Buriti - Ipueiras

Foto: Carlinhos Moreira

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Frase do dia
"Depois da decisão do Supremo, pela primeira vez desde 1820 vivemos a mais grave ameaça à integridade de nosso território. Os brasileiros que estão lá desde 1800 e que agora são considerados na ilegalidade serão desterritorializados."

Ex-presidente da Câmara Aldo Rebelo (PCdoB-SP) sobre a demarcação da Reserva Rapousa Serra do Sol

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Escola, onde erramos? - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza


Auditório do BNB/Passaré, em Fortaleza. XIX Encontro Estadual de Política e Administração da Educação. Tema - "A escola e a educação para a cidadania". Da professora Maria Luíza Barbosa Chaves, recebo convite para debatedor sobre "Cidadania e gestão democrática na educação". No encontro, vejo-me, mais que educador, cronista de latentes "não-ditos"...

A palestra inaugural fala do jogo entre a utopia e o real, a perpassar o diálogo entre escola, família e sociedade, os três como se num desacerto e piagetiano "monólogo coletivo". Discussões que, nascidas aqui e alhures, ostentam horizontes palpáveis: os agentes da educação, cada qual "em seu quadrado", a ensaiar parcerias e nortes possíveis. Mais que isso, o brotar de parcerias, nas relações sociais, familiares e escolares, e feição nova desenhando-se numa democracia não mais império da maioria, mas as minorias em caleidoscópico e construtivo diálogo.

Hoje, na escola, no País e em nossa sociedade, quedam por terra os velhos conceitos do intra e extra ... muros.O planeta e a vida, urbs et orbis, ingressam em nosso ciclo. Sobre nós, abate-se apocalipse em sua revelação sadia (esperamos) a passar a limpo a sociedade, a família e escola. Reedita-se, cíclica, a cena pentecostal das línguas-de-fogo, das inteligências múltiplas e da feição nova de nossa democracia, onde possamos, em nossas diferenças, conviver em produtivo diálogo.

Hoje, dados internacionais ostentam-nos o porto aonde chegarmos. A despeito do "todos por uma educação de qualidade para todos", lá estamos entre os 62 piores países do mundo. Onde erramos? Esquecemo-nos do novo: das "línguas de fogo", "inteligências múltiplas", o "quadrado" e visão pessoal de cada um.

É batermos meas culpas ao peito e clamarmos por um novo e urgente amanhecer, em nossa educação!

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Foto do dia
Queimadas, localidade Floresta em Ipueiras - Ce


Foto: Carlinhos Moreira

sábado, 6 de dezembro de 2008

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Frase do dia
"Se os meus companheiros me elogiassem só a metade disso, eu estaria bem."

Lula, coberto por elogios do governador alagoano Teotônio Vilela Filho (PSDB)

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

As visões da cegueira - Por Nilton Bustamante / Rio de Janeiro


Hoje minha filha vai a campo. É o seu primeiro dia na rua. Não está só. Sua orientadora e a bengala branca serão seus olhos; sua visão. Minha filha é deficiente visual; não enxerga nada.

Fico de longe. Acompanho tudo.

Meu coração está entalado na garganta.

Eu percebo sua insegurança.

- Cuidado, minha filha, o buraco à sua direita na calçada - grito dentro de mim, num sobressalto.
Seus passos desorientados procuram novas rotas, tentam chegar à Índia, China, América, Lua...

Ficam logo depois da curva da próxima esquina.

Uma mão segura a bengala e a outra busca apoio no ar, no espaço vazio; talvez para ela há algo concreto que o ajuda; certamente a mão de um anjo. A bengala movimenta-se para frente e para os lados, quase sincronizada. A orientadora vai um pouco atrás; séria, diria até pesada no andar, na fisionomia.

Ela está indo rápida demais, observo.

Outro dia ela me perguntou como era a cor azul?

Levantei-o com meus braços erguidos em ângulo reto e corri pelo quintal de casa. Disse-lhe depois que a cor azul é a cor do céu, onde os pássaros voam sentindo a mesma sensação de frio na barriga como ela em meus braços a sustentá-la no ar da liberdade.

Hoje pela manhã, antes de vir ao Instituto, tenso, ela me confidenciou que precisava muito do "azul".

Oh! Meu Deus! Ela acaba de cair. Minha lágrima cai junto. Aquela imagem terrível, vendo minha filha no chão tentando se erguer, parte meu coração em milhões de pedaços.

- Levante-se, minha filha, se não vamos ficar juntos caídos - outra vez grito em silêncio.

Ela é perseverante.

Sua imagem, sua fisionomia, fica ainda mais inocente, ainda mais frágil. Não sei como pude tirá-la um dia do meu colo.

Quando eu quero ficar com ela, só com ela e entrar em seu mundo converso com os olhos fechados, ou se noite apago as luzes e passo a "enxergar" as mesmas coisas, parece que o diálogo se torna fácil, pois compreendo melhor o que ela diz nesses momentos.

E lá vai a bengala, sua espada, lutando contra a noite; o escuro que antecede a descoberta da luminosidade. Cada obstáculo desviado, cada passo avante, cada "touché" de sua bengala, um pouco mais de luz para seus olhinhos, diferentes dos meus.

Agora ela está indo bem. Acalmo-me.

Não caiu mais.

A voz orientadora de sua instrutora ecoará em ondas para toda a vida, em seus "labirintos"; a mão de seu anjo o manterá equilibrado. Nas vezes em que caiu, minha filha aprendeu as diferenças entre ser confiantee em pé nos caminhos da vida ou se esparramando em obstáculos professores.

Vejo seu cansaço provocado pelo esforço, mas percebo um arde felicidade indisfarçável.

É interessante conhecer as cores por "dentro". Na escuridão, na ausência de luz, pode parecer imponderável. As cores não são só perceptíveis com o calor, ou ausência, que emitem. São mutantes. Vão criando vida e formas que dão idéia não da pigmentação, mas sim da "vida e movimento" que produzem.

Semanas atrás, minha filha, anjo de Deus que agora "voa por instrumentos", correu de mãos dadas com sua mãe e eu num campo plano e gramado. Corremos, corremos o mais que pudemos. Ríamos todos crianças livrese depois nos abraçamos num abraço triplo e assim permanecemos nos beijando felizes. Minha mulher pegou nas mãos da nossa filha e pousou-as em suas próprias faces e disse-lhe:

- Percebe este calor? Esta agitação? Esta, minha filha, é a cor vermelha que está agora em nossas faces. E assim foi para cada cor, um exemplo cheio de vida e tato. Eles estão voltando, a instrutora, minha filha e seu anjo. Deram a volta ao quarteirão. Foi a primeira vez dela, desta maneira.

Não são somente os olhos que conseguem ver, o meu coração de pai está vendo a minha pequena que se agigantou pela sua vitória particular, silenciosa.

- Eu estou vendo, estou vendo, minha filha está agora toda "azul".

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Calamidade - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


O Brasil anda agoniado
Sofre sua população.
No sul as águas fartas
Causam a inundação
O povo sofrido chora
Com tanta destruição.

Famílias desesperadas,
Perdem casa e plantação
Até gente levam as águas
Muito triste é situação
E o desespero comove
Quem vê na televisão.

Pior é quem sente na pele
A revolta da natureza,
O lamaçal toma conta
Arrastando toda beleza
Desse sul tão majestoso
Que se acaba em tristeza.

É gado na água morrendo
Famílias inteiras soterradas.
Crianças tão indefesas
E mães desesperadas
E a própria Defesa Civil
Não pode fazer quase nada.

Quanta água destruindo
A vida de uma população,
Porém seriam bem-vindas
Se caíssem lá no sertão
Do Nordeste brasileiro,
Onde mora a sequidão.

Os açudes estão secando,
O povo já começa a rezar
O fogo consome os pastos,
E a água não cai por lá.
É o gado e pasto secando,
Da vontade de chorar.

O sol não faz feriado,
O mato inteiro secou,
A caatinga ficou branca,
Outra parte amarelou
O povo pede clemência,
E reza pra Nosso Senhor.

Eu não consigo entender,
Me dói essa contradição.
O sul morrendo afogado,
De sede morre o sertão,
E diante dos meus olhos,
Não vejo uma solução.

E se a natureza cobra,
Com juros a destruição.
Vamos ser conscientes
Tratar melhor nosso chão.
Porque a lei do retorno,
Não tem piedade não.

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Frase do dia
A felicidade é um estado de alegria que desejaríamos infinito.
É uma saudade, uma nostalgia do "não-fazer", uma vez que, não podendo projeta-lá para um futuro nublado, ficamos sem saber o que e como fazer. Felicidade é um momento almejado, que vem sendo cantado nas versões do paraíso de todos os povos. E, no nosso norte, no lugar para onde segue nosso olhar curioso, imaginamos, escondida, uma realização tão perfeita que tornaria o "fazer" desnecessário e a felicidade infinita.

Anna Verônica Mautner