quarta-feira, 30 de abril de 2008

Demócrito, o ícone - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Prostrou-me, em súbita emoção, a trágica notícia. Ao lado de Demócrito, estivera eu, ao se lançar, entre líderes da terra, a obra A construção do Ceará - Temas da história econômica, de Cláudio Ferreira Lima, ali propondo o resgate da sintaxe perdida em nossa política, no alternar-se das solidárias cheias e das solitárias secas de nossos rios.

A custo, recobro o lado construtivo da emoção. É do “escrever é espantar-se”, extraio do barro do chão cotidiano, a “psicanálise e metafísica do mundo” a nos lastrear o projeto, sadios cúmplices os dois, desde os anos 80, quando, esgotada a União pelo Ceará, Celso Furtado reunia-nos dos então jovens empresários do CIC às mais avançadas correntes de esquerda: “o crescimento econômico a se metamorfosear em sustentável desenvolvimento”.

Pontos e contrapontos a compor acorde. Universidades a transpor muros, nas praças, campos e ruas. Literatura, arte, cinema, em simpósios e festivais aqui (nacionais e internacionais). Programas de responsabilidade social e de educação a distância. Com assento na Fiec, vistas “indústrias sem chaminés” nossas instituições de ensino superior.

Histórica parceria. É o cotidiano da vida na pauta de projeto plural, sob o diapasão do “quebras comigo a flecha da paz?”, entre Iracema e o guerreiro branco, a ter por símbolo de agora a sinfonia regida pelo maestro Koellreutter, na reinauguração do Teatro José de Alencar, onde ruídos da obra concertavam-se com violinos e vozes, no desenho do solidário e plural.

Uma saudade! Mas, ícone maior a decantar, de Demócrito Rocha, o poema Rio Jaguaribe. E a desaguar, na solidária água grande e no Longo amanhecer de Celso Furtado. Dele, diria o poeta Manuel Bandeira - no alto, São Pedro, bonachão, a convidá-lo: “Entra, Demócrito, você aqui não precisa pedir licença”!

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

terça-feira, 29 de abril de 2008

Frase do dia
"É melhor ouvir o grito ‘Fica Lula’ do que o de ‘Fora Lula’ "

Do Chefe de Gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, ao negar que Lula queira um terceiro mandato

segunda-feira, 28 de abril de 2008

O Fim da Picada  - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Quem diria minha gente,
Eu nem posso acreditar,
A picada de um mosquito
Hoje é arma de matar
E a saúde decadente
Não consegue nos salvar.

Vejo famílias chorando
A morte de entes queridos,
Que partem na flor da idade,
Não há nada mais sofrido.
O descaso contagioso
De morte nos deixa feridos.

Morrem adolescentes,
Criança, idoso e mulher.
A doença é uma praga,
É um salve-se quem puder,
E a culpa meu amigo,
Ninguém sabe de quem é.

Nem São Jorge nem espada
Nos salvará nessa hora.
O negócio e ir à luta
De pressa e sem demora,
O caminho é a prevenção
Pra esse mal que apavora.

Não deixe pneu jogado,
Não jogue latas no chão.
Caixa d’água destampada,
Ajuda na proliferação.
Não deixe água parada,
Evite a contaminação.

Nas plantas de sua casa,
Tenha um cuidado maior.
Pondo areia nos pratos
Tudo ficará melhor
Desalojando o mosquito
O perigo é bem menor.

Não caia nos milagres
Da igreja universal.
O óleo santo oferecido
Jamais vai curar seu mal
Quando muito ele serve,
Pra lustrar cara de pau.

Se óleo santo servisse
Serviria água benta.
E a igreja católica
A receita não apresenta.
Por isso fique esperta.
A receita é ficar atenta.

Se sentir dor de cabeça,
E dor nas juntas também,
Mal-estar ânsia de vômito,
Não espere por ninguém,
Antes que a febre chegue,
Vá ao médico, pro seu bem.

Tome bastante liquido,
Que evita a desidratação
Na base do acetilsalicílico
Remédio não tome não,
Assim dizem os médicos,
Interfere na coagulação.

A população padece
A situação é dramática
Temos a hemorrágica,
Além da dengue clássica.
Precisamos com urgência
De uma medida drástica

Usar um repelente,
É uma boa medida.
Mas isso não quer dizer,
Que você está protegida.
É apenas um paliativo
A se usar nessa corrida.

Receba bem os guardas,
Que fazem à varredura,
Abra as janelas ao “fumacê”
No mosquito dê uma dura.
Ajude aos que combatem
Para evitar amarguras.

Cuidar da nossa saúde,
É mais que obrigação.
Também devemos cobrar.
Aos que dirigem a nação.
Que nos devem casa, comida,
Saúde, segurança e educação.

A quem pertence o mosquito?
Não sei, nem quero saber.
Só sei que é o fim da picada,
Por causa dele morrer,
Sabendo que justas políticas,
Poderiam nos socorrer.

O aedes aegypti taí
A dengue está no ar.
Precisamos combater,
A picadura mortal,
E a picaretagem política
Que é nosso maior mal.

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

sexta-feira, 25 de abril de 2008

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Frase do dia
"Comuniquei hoje ao PT que fechei com o Kassab."

Orestes Quércia, presidente do PMDB de São Paulo, a respeito do apoio do seu partido à reeleição do prefeito Gilberto Kassab (DEM)

sexta-feira, 18 de abril de 2008

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Ponte para o amanhã - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Quinta última! Eleições para reitor, na UECe. Nos, jornais, rádio, TV e na Web, debates a reclamar, não insulados, o mundo acadêmico e o sócio-governamental. Na surdina, lado a lado, recíprocos arranhões em torno de sonegado piso, a nos estorvar pactuação. Mas, cedo, a velha frase "Drama social algum é maior que minha dor de dente" me levava ao dentista...

No táxi, o motorista quer saber se, em mim, persistem ainda laços com a educação - mote para que ele vomite queixas de escolas a ruir abandonadas, professores mal preparados e desmotivados, alunos sem ofício e futuro, em meio a propaganda narcísea de nossos governos.

Vácuo do pós-almoço. Eu na secção eleitoral. Lá, visual agressivo, cartazes, adesões, tudo a clamar por uma universidade em harmonia com amplo projeto social no Estado. Ante a urna, identidade de mim exigida. Puxo cartão a comprovar-me "professor titular". Na saída, colegas chegando. E, para meu espanto, em seu rosto, a esperança das relações entre o "fora" e o "dentro" do mundo acadêmico a recobrar-se.

Já em casa, abro os jornais. USP e Unicamp, as únicas brasileiras no rol entre as 200 melhores universidades do mundo, onde, nos 10 primeiros lugares, figuram norte-americanas e britânicas, de acordo com o Times Higher Education Supplement, que se louva na opinião de acadêmicos, companhias que empregam recém formados e de outros países, e das pesquisas realizadas no mundo universitário.

Volto aos anos 80, quando, na UFC, no simpósio "Para onde vai a universidade brasileira?", o "dentro" e o "fora" das IES do País viam a academia, num mundo pós-indústrias de chaminés, como indústria do conhecimento a gerar capital humano. E, aqui, na FIEC , a ter assento embora simbólico... Hora de sanar arranhões a erguer pontes para o amanhã.

Aqui, onde o sol nasce mais cedo!

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Frase do dia
"Vejo cada vez mais a mão da oposição na tese do dossiê para fazer luta política e desestabilizar a ministra Dilma Rousseff."

Henrique Fontana (PT-RS), líder do governo na Câmara dos Deputados

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Colégio São João - Por Bérgson Forta / Fortaleza

Sábado, inverno, começo de noite.

Parei o carro lentamente no estacionamento e quase que de forma mecânica dirigi-me ao supermercado.

O céu anunciava mais chuva que viria a acompanhar o sereno fino já caindo desde o meio-dia.

Fortaleza estava fria, era abril.

Entrei rápido e logo peguei um carrinho. Não demorou encontrei um colega. Perguntou-me pela graduação e faculdade, respondi e soube também um pouco de como ia sua vida.

Depois de alguns minutos de conversa, ele levantou o queixo numa direção como a apontar, olhei rápido e não pude me conter com o que vi.

Acima de um balcão de conveniências, precisamente na parede atrás, estava uma grande foto da entrada do Colégio São João.

Só então me situei. Estava no Pão de Açúcar São João, local do antigo colégio onde na década de 80, havia feito o científico.

Pensei no lugar que ora pisava, quase sagrado para mim. Acho que no passado estaria no que foi a secretaria, atualmente secção de frios e laticínios.

Olhei novamente a foto. Soube pelo amigo que havia sido posta a pedido de um ex-aluno.

Vi a escada de entrada que levava à secretaria, tantas vezes subida por mim, o portão à esquerda, que barrava quem chegasse fora de hora. Foto grande em preto-e-branco, mas de boa qualidade. Como dizem os chineses uma imagem vale mil palavras e como esta frase valia para mim naquele momento.

Após alguns minutos despedi-me, e com uma certa urgência fui abastecer-me.

Ao sair do estacionamento senti-me tomado por uma branda nostalgia.

Às vezes o tempo passa tão rápido que sequer dá trégua para nos acostumarmos com as mudanças, pensei.

Naquela noite sonhei estar no Colégio São João, era intervalo, conversávamos animadamente, enquanto o vento balançava a grande árvore que havia no centro do pátio. De repente o sinal para o início do segundo tempo tocou. Acordei de súbito com o barulho de um forte trovão.

Era só um sonho em uma noite chuvosa e fria.

Deitei-me e procurei conciliar-me novamente com o sono, logo tudo foi apagando, e o som forte dos pingos da chuva foram ficando mais e mais distantes, até finalmente tudo silenciar, inclusive as lembranças que teimosa minha memória luta em preservar.

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Frase do dia
"Se não formos votar mais nada, não tem porque continuar a CPI."

Senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), presidente da CPI Mista do Cartão Corporativo

quarta-feira, 2 de abril de 2008

120 anos depois - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Diz-nos Cristovam Buarque, em artigo recente, que, com o poema "Navio Negreiro", Castro Alves despertou a Nação para a causa abolicionista. E que agora, 120 anos depois, a arte, de novo, voltava a outra abolição: a "educacionista". E isso, quando, no último carnaval, a "Vai Vai", escola-de-samba paulista, desfilara com imensa bandeira nacional a portar o lema "Educação é progresso", em lugar do "Ordem e Progresso".

O novo slogan, mais que bordões ou "temas transversais" em nossa pedagogia, tem forte apelo popular. Tanto assim que, na caudal da "Vai Vai", hoje figuram empresários, artistas e - diz pesquisa - o povão, para os quais educação é "capital social e humano" ou "força criativa".

Dias atrás, no Ceará, geração histórica, ora partida em duas facções políticas, postava-se em auditórios contíguos na FIEC. Num, a discutir o ensino profissional (Centecs e CVTs), alastrando-se hoje por Minas, São Paulo e o País, sob o lema "sem arte e sem ofício, não se é filho de Deus" (Dom Aureliano a Ariosto Holanda). Noutro, os programas históricos de redução da pobreza, no Ceará. Neste, José Serra, a elogiar programas como o das "rezadeiras e parteiras leigas", de Galba Araújo, a alastrar-se pelo País e o mundo. Técnicos de Israel a nos mostrar expressivos índices de tal redução. Eloqüentes depoimentos: a) menino de rua hoje professor universitário; b) ex-favelado ora notório causídico nas causas populares.

Como nos desfiles de carnaval, a educação nutre-se das lições do ensaio-e-erro. Escola de samba, nela desfilam os que, do nascer ao morrer, tangidos pela cumplicidade das arquibancadas, deságuam, afinal, na "praça da dispersão" do ser humano, em sua tríplice face, a atingir o sustentável desenvolvimento, integrada pelo profissional, o cidadão e a pessoa, em novo abolicionismo.

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

terça-feira, 1 de abril de 2008

A Desconhecida - Por Eudismar Mendes
O sol estava a pino, mas de repente começou a chover. Os respingos eram fortes e caíam sobre o telhado de amianto fazendo um barulho ensurdecedor. Fiquei amedrontada, pois o galpão onde me encontrava não oferecia a menor segurança. Caso houvesse um vendaval, com certeza iria tudo de água abaixo.

Fiquei inquieta ante tal situação, tendo em vista que saíra de casa apressada e estava ali presa, não por opção minha, mas por conta daquela chuva inesperada.

Levantei o olhar, vi algo e comentei com Sarah: Você viu como aquela mulher chegou?

- Não, vó, não vi.

Aquilo era um espetáculo à parte. A senhora de mais ou menos sessenta anos, com uma sacola vermelha em uma das mãos, grudara-se à parede do muro em frente tal qual uma lagartixa.

Sarah indagou-me:

- Sabe por que ela está daquele jeito?

Antes que eu dissesse alguma coisa, arremessou:

- Ela não quer se molhar.

De fato, creio que a guria acertara em seu comentário, pois a chuva continuava e a mulher permanecia firme e forte, grudadinha, grudadinha na parede. Parecia-me que não tinha nenhuma pressa em afastar-se dali. Por outro lado nós também não podíamos sair. A melhor alternativa era procurar acalmar-se e esperar. Assim o fiz, porem não despregava o olho da parede onde se encontrava a mulher.

A chuva foi amainando. A sexagenária aos poucos desgrudou-se da parede e lentamente seguiu seu itinerário.

Como surgira, desapareceu cheia de mistério...

Este conto é parte do livro Máscaras da Face, publicado em dezembro de 2007.
A autora participa dos grupos de convivência do TSI/SESC (Criação Literária e Teatro)