quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

As visões da cegueira - Por Nilton Bustamante / Rio de Janeiro


Hoje minha filha vai a campo. É o seu primeiro dia na rua. Não está só. Sua orientadora e a bengala branca serão seus olhos; sua visão. Minha filha é deficiente visual; não enxerga nada.

Fico de longe. Acompanho tudo.

Meu coração está entalado na garganta.

Eu percebo sua insegurança.

- Cuidado, minha filha, o buraco à sua direita na calçada - grito dentro de mim, num sobressalto.
Seus passos desorientados procuram novas rotas, tentam chegar à Índia, China, América, Lua...

Ficam logo depois da curva da próxima esquina.

Uma mão segura a bengala e a outra busca apoio no ar, no espaço vazio; talvez para ela há algo concreto que o ajuda; certamente a mão de um anjo. A bengala movimenta-se para frente e para os lados, quase sincronizada. A orientadora vai um pouco atrás; séria, diria até pesada no andar, na fisionomia.

Ela está indo rápida demais, observo.

Outro dia ela me perguntou como era a cor azul?

Levantei-o com meus braços erguidos em ângulo reto e corri pelo quintal de casa. Disse-lhe depois que a cor azul é a cor do céu, onde os pássaros voam sentindo a mesma sensação de frio na barriga como ela em meus braços a sustentá-la no ar da liberdade.

Hoje pela manhã, antes de vir ao Instituto, tenso, ela me confidenciou que precisava muito do "azul".

Oh! Meu Deus! Ela acaba de cair. Minha lágrima cai junto. Aquela imagem terrível, vendo minha filha no chão tentando se erguer, parte meu coração em milhões de pedaços.

- Levante-se, minha filha, se não vamos ficar juntos caídos - outra vez grito em silêncio.

Ela é perseverante.

Sua imagem, sua fisionomia, fica ainda mais inocente, ainda mais frágil. Não sei como pude tirá-la um dia do meu colo.

Quando eu quero ficar com ela, só com ela e entrar em seu mundo converso com os olhos fechados, ou se noite apago as luzes e passo a "enxergar" as mesmas coisas, parece que o diálogo se torna fácil, pois compreendo melhor o que ela diz nesses momentos.

E lá vai a bengala, sua espada, lutando contra a noite; o escuro que antecede a descoberta da luminosidade. Cada obstáculo desviado, cada passo avante, cada "touché" de sua bengala, um pouco mais de luz para seus olhinhos, diferentes dos meus.

Agora ela está indo bem. Acalmo-me.

Não caiu mais.

A voz orientadora de sua instrutora ecoará em ondas para toda a vida, em seus "labirintos"; a mão de seu anjo o manterá equilibrado. Nas vezes em que caiu, minha filha aprendeu as diferenças entre ser confiantee em pé nos caminhos da vida ou se esparramando em obstáculos professores.

Vejo seu cansaço provocado pelo esforço, mas percebo um arde felicidade indisfarçável.

É interessante conhecer as cores por "dentro". Na escuridão, na ausência de luz, pode parecer imponderável. As cores não são só perceptíveis com o calor, ou ausência, que emitem. São mutantes. Vão criando vida e formas que dão idéia não da pigmentação, mas sim da "vida e movimento" que produzem.

Semanas atrás, minha filha, anjo de Deus que agora "voa por instrumentos", correu de mãos dadas com sua mãe e eu num campo plano e gramado. Corremos, corremos o mais que pudemos. Ríamos todos crianças livrese depois nos abraçamos num abraço triplo e assim permanecemos nos beijando felizes. Minha mulher pegou nas mãos da nossa filha e pousou-as em suas próprias faces e disse-lhe:

- Percebe este calor? Esta agitação? Esta, minha filha, é a cor vermelha que está agora em nossas faces. E assim foi para cada cor, um exemplo cheio de vida e tato. Eles estão voltando, a instrutora, minha filha e seu anjo. Deram a volta ao quarteirão. Foi a primeira vez dela, desta maneira.

Não são somente os olhos que conseguem ver, o meu coração de pai está vendo a minha pequena que se agigantou pela sua vitória particular, silenciosa.

- Eu estou vendo, estou vendo, minha filha está agora toda "azul".

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