terça-feira, 4 de novembro de 2008

A Televizinha seu Mundico e a Lagartixa - Por Dalinha Catunda / Rio de janeiro


Ipueiras além de abrigar seus filhos, sempre foi uma cidade bem hospitaleira recebendo com cordialidade os filhos de outras terras que por lá fixavam residência por algum motivo.

Durante certo tempo morou na pequena Ipueiras, seu Mundico, um senhor simpático, casado com dona Abigail, uma senhora gorda de sorriso largo.

Não sei de onde veio o simpático cidadão, mas sei que ele veio para ocupar uma vaga nos correios.

O que fez por um bom tempo.

Ipueiras era um típico interior sem grandes distrações que se pudesse desfrutar no dia-a-dia.

As conversas nas calçadas ainda predominavam.

E era até muito bonito ver as calçadas cheias.

Enquanto os adultos conversavam, a criançada corria alegre pelas calçadas.

Eram as ditas “tardes fagueiras que tanto me encantavam no interior.

Quando seu Mundico chegou a Ipueiras lá pelo final dos anos sessenta, suponho eu, uma novidade tomava conta da cidade.

A televisão! Não se falava em outra coisa.

Contava-se nos dedos a casa dos poucos privilegiados que possuía esse luxo, a novidade do momento! Com isso surgiu outra novidade: “A TELEVIZINHA.”

Ou seja, ver televisão na casa da vizinha.

Como poucos tinham acesso à televisão, criou-se o hábito de assistir televisão na casa dos vizinhos mais abastados, que compreensivamente viam suas salas lotarem como se fossem salas de cinema, com pessoas que queriam usufruir do inusitado

A reunião era sempre no final da tarde.

Adultos sentados em cadeiras e crianças sentadas no chão.

E todos de olhos arregalados e ouvidos bem abertos.

Muitas vezes, só víamos vultos e um chuvisco brilhoso, e todos ficavam felizes quando feito relâmpagos aparecia alguma imagem.

Pois bem, foi numa tarde dessas que seu Mundico e dona Abigail chegaram para a sessão da tarde na casa da Tia Odete.

Todos estavam sentados, compenetrados, assistindo a programação vespertina.

De repente seu Mundico tira a alpargata de couro, põe o dedo fura bolo na boca, e baixinho diz:__não se mexam!!!

E caminhando cuidadosamente, entre os espectadores vai até a parede e sapeca a alpargata em cima de uma lagartixa que se esfarela toda diante do riso da criançada, do olhar desconsolado da Tia Odete e da descoberta tardia do pobre Mundico que só veio saber, que o pequeno animal que ocupava inofensivamente a parede, nada mais era que um simples bibelô, uma peça de decoração que não resistindo às chineladas transformou-se em pequenos cacos esfarelando-se no chão.

Às vezes um espetáculo ao vivo e a cores tem muito mais graça do que o apresentado via televisão.

Este eu gravei na memória.

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

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