sábado, 31 de março de 2007

Exemplo vivo - Por Beto Costa / Rio de Janeiro
Andando nas nuvens e nadando em flores era o que eu sempre dizia até a semana passada, quando completamos 36 meses de casados. As mãos dadas tornavam as descobertas mais doces. Não havia nada mais fascinante do que o novo. Vê-la sorrir era tudo do que eu precisava. Se me perguntassem o que é felicidade, eu a definiria em poder estar ao lado dela toda vez em que os seus olhos de jabuticaba são abertos pela manhã. Embora eu só tenha lhe levado café-da-manhã na cama enquanto éramos noivos, eu adoro acordá-la. O rosto inchado e o cabelo desgrenhado a fazem mais irresistível. E quando ela colocava a cabeça no meu peito e descansava dizendo ser o melhor lugar no mundo?

Mas de repente as coisas começaram a ficar mais difíceis. As brigas aos poucos começaram a tonificar o preto e branco. Lentamente o indissolúvel foi conquistando individualidade. E aos poucos as mãos começaram a ser desdadas.

Minado, o alicerce daquele recente laço matrimonial começa a deteriorar. O horizonte não é mais a eternidade. O coração sente, mas o orgulho seca as lágrimas mesmo antes de deslizarem pelo rosto. A caminhada rumo à cidade Futuro perde o asfalto. Contudo, o terreno arenoso continua oferecendo direções distintas. Mas será que eu sei pra onde ir? Escolher nem sempre é fácil.

A música "Somewhere over the rainbow" toca no rádio da vizinha chata que lava roupa. O meu silêncio interior me arrebata à sala de estar. Era aqui que dançávamos quase todo dia depois do trabalho. Nossa! Eu nunca havia reparado em como essa casa é grande.

Não sei explicar... Mas o Vazio adquiriu a patente de Incomensurável. Aprendi a sentir saudade das brincadeiras, da correria pela casa, da briga de travesseiro, de quando inventávamos musiquinhas e da gargalhada que embalava os meus passos. É difícil descrever a graciosidade daquela menina-mulher. "Os vizinhos vão pensar que nós temos filhos, mas nós não temos filhos..." era a frase que nos animava mais e mais a continuarmos com as cosquinhas.

Sentado na minha cadeira de balanço, tento encontrar um motivo. Será que foi o meu desemprego? Podem ter sido também os estudos - contrários à minha vontade - para um concurso público. Esse tipo de estabilidade é simplesmente uma questão mercenária. Afinal, pergunte a uma criança o que ela quer ser quando crescer. Duvido que dirá técnico do TRE (Tribunal Regional Eleitoral). Embora eu esteja aproveitando o tempo que tenho para estudar com afinco, sei que se obtiver êxito na prova estarei me prostituindo. A única coisa que sei exercer é a função de jornalista! Admito não ser o melhor, mas é o que tenho vontade de fazer pra toda vida. Não ter o capital de giro mínimo para sustentar a vida a dois só não é pior porque a minha amada tem um emprego. Por muitas vezes fui insensível trocando a noite com ela para ficar na frente do computador. Se me permite um conselho: não leve trabalho pra casa. A família cresce e acabamos nos afastando num piscar de olhos.

Antes de pegar alguns álbuns de retratos na estante, constatei a legítima regra da vida: "Só se dá o verdadeiro valor a algo ou alguém quando não se tem mais posse dele". As fotos do casamento e da lua-de-mel em Porto Seguro me fizeram chorar de soluçar. Um desespero me abraçou. O corpo ficou gélido. Os olhos vermelhos arderam como nunca antes. As pernas tremeram mais do que no dia em que o chefe de reportagem analisou a minha primeira matéria antes de ser encaminhada ao editor. A testa suava mais do que o habitual. Sem ar para respirar e me afogando nas lembranças, não foi difícil a labirintite me jogar ao chão. Senti como se o meu espírito não pertencesse mais ao meu corpo. Naquele momento eu vi um copo de vidro em câmera lenta caindo. Ao avistar um espelho, vi meu rosto cheio de sangue. Duas crianças choravam muito enquanto um papel que aparentemente era uma carta pegava fogo.

Acordei do desmaio com o telefone que não parava de tocar. Não havia mais espaço para tanto recado na secretária. Ao atender o telefone, a vizinha chata pedia para eu descesse imediatamente. O que poderia ser? Será que a cortina que estendi no varal mais cedo caiu no quintal daquela velha? Ainda esbravejando sozinho, lembro que lavar a cortina era o desejo da minha doce esposa: "Será que você poderia pelo menos estender quando a máquina de lavar parar?". Essa frase foi a sua despedida para mais um dia de trabalho. Devido ao clima ainda pesado, nem perguntei se ela havia melhorado do enjôo.

Descendo a escada, vejo alguns vizinhos subindo ao meu encontro. Nunca mais esquecerei aquele segundo andar. Um deles me abraçou forte e disse pra eu ser forte. "O que aconteceu?", foi a minha óbvia indagação. Ninguém me respondeu. Apenas se olharam e me levaram à rua. A minha Maria Eduarda havia sido atropelada em cima do canteiro que dividia o sentido do trânsito. Um adolescente embriagado indo para a festa da faculdade levava a minha esposa aos céus. Uma testemunha disse que enquanto ela esperava para atravessar mexia no celular e nem se deu conta do carro sem controle. É tudo do que me lembro.

Acordei na casa de um amigo e com o médico lhe passando a receita. Sem entender muito bem, pensei ter acordado de um pesadelo. Ainda com a vista embaçada, enxerguei a bolsa que eu tinha lhe dado em comemoração ao nosso primeiro mês de casado. Tudo estava muito confuso. À revelia, fui pra casa. E antes de me jogar na cama a chorar a campanhia toca. Uma menina linda, de cinco anos, toda de rosinha, pergunta se está tudo bem e fala que o papai dela pediu pra entregar. A filha do vizinho de cima era como nós queríamos que fosse a nossa filhinha.

Imaginávamos igualzinha. Branquinha e loirinha puxando a mim e bem bochechudinha e com um nariz de bolinha de gude herdadas da mãe. Ao fechar a porta, prestei atenção no que me havia sido entregue. O celular da minha Neguinha - era assim que eu a chamava -, com uma mensagem de texto a ser enviada. "Meu amor, tenho uma surpresa maravilhosa. Me encontre na frente do prédio e vamos comemorar imediatamente. Eu sou a mulher mais feliz do mundo por tê-lo como marido. Eu te amo". Até hoje não sei se foi bom ou ruim ler aquele recado... Mas qual seria o motivo de tanta felicidade? Nós estávamos brigados. Eu não percebera até então que ela já havia me perdoado. Lembrei-me que ela sempre dizia que o amor conserta e cola tudo como se novo fosse.

Entretanto, só fui perceber o motivo daquela alegria após o enterro. Ao chegar em casa a secretária do consultório médico Life ligou, informando que havia conseguido marcar a primeira consulta do pré-natal com a doutora Martha.

"-Como assim?", perguntei assustado.

"-A sua esposa não lhe contou?

Então pergunte a ela, ok?". Após contar-lhe o ocorrido, o sigilo foi quebrado.

"-Nossa! Sinto muito!", embaraçou-se a secretária. Antes de desligar, ainda fiquei sabendo detalhes daquele dia inesquecível. A minha senhora Maria Eduarda havia ido ao consultório para levar ponto na mão após quebrar um copo. Quando chegou lá, ficou enjoada e vomitou muito. O médico, desconfiando de uma possível gravidez, passou-lhe um exame. Mas o pior ainda estava por vir: após o laudo de óbito, descobri que seriam gêmeos.

No fim do poço, perguntei o que mais poderia acontecer. Desempregado. Sem o amor da minha vida. E sem os filhos com que sempre sonhamos. Porém, o que mais me machucava é que há dias não nos falávamos direito. Há dias eu não dizia que a amava mais do que tudo e o quanto ela é importante pra mim. Há dias sequer dormíamos abraçadinhos. E isso tudo por ela desligou o estabilizador do computador enquanto era feito download de alguns arquivos que eu precisava para fazer um free-lancer. E ela apenas fez isso porque o monitor estava desligado para poupar energia. Ela se enganou! Pensou que eu havia esquecido o estabilizador ligado. Não havia por que proferir palavras tão perversas a ela. Todos nós somos passíveis de enganos. Eu perdi o controle por uma coisa tola... Infelizmente agora não tenho mais tempo!!!

Lembro-me bem da promessa que fiz a Deus no dia do nosso casamento. Eu prometi faze-la sempre rir, e, quando isso não aconteceu, Ele a tirou de mim. Essa é a única explicação. Que Deus é esse? Converti-me ao evangelho por causa dela. Outrora eu era herege. E agora? O que fazer? Após gritar, insultar e esbravejar muito com Deus, o choro acabou me levando ao sono profundo. O sonho me parecia verdadeiro e eu via a mesma situação da vida real, só um anjo aparecia enquanto eu duvidava desse Deus grandioso. E após eu repetir todos os insultos ao atento olhar angelical, ele apenas me retrucou com uma pergunta:

"-O que você quer que eu diga?". Aquela frase ecoou tão forte que acordei subitamente.

Não havia palavras que me confortassem. Não havia pessoa que trouxesse carinho. Não havia situação que me fizesse esquecer. Eu precisava não achar respostas, e sim me encontrar.

Mas como o amor de Deus é tão grande que chega a constranger, percebi o quão é importante cada minuto da vida. O quão é essencial viver sem pesar. E o quão é tênue a distância entre o real e o fim. E o quão é necessário saber viver. Muitas vezes ainda irei errar tentando acertar, mas hoje, dois meses depois, eu amo incansavelmente a tudo e a todos, não deixando nada pendente para o dia seguinte.*PC*

Beto Costa é jornalista

sexta-feira, 30 de março de 2007

quinta-feira, 29 de março de 2007

Frase do dia
"O presidente da Petrobrás não pode dar para quem gosta e não dar para quem não gosta. No bom sentido, é claro..."

Senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) em discurso sobre os subsídios concedidos aos estados pela Petrobrás

quarta-feira, 28 de março de 2007

Os acadêmicos e a política - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Apocalipse, entre os cristãos, tem conotação de "força reveladora". De fim de ciclo, sim, mas do prenúncio do novo. Este, o apelo que nos dão o planeta e a vida política. Reouço Celso Furtado, guru, no Ceará, de toda uma geração do Projeto das Mudanças, ensaio para o País, onde diz ele, os ciclos políticos, nascem, esgotam-se, renascem a cada 15 anos.

Fim do ciclo dos militares. Eduardo Portella, com o "estou" ministro, a tentar dar verbo ao poder. Ao tempo de Lula, Cristovam Buarque, ministro, dava-nos o recado: "Não nos venham com teses acadêmicas. Mas com atos concretos para o Diário Oficial". Tempos depois, por ironia, viria o tapa de Lula na mesa a não mais agüentar ministros acadêmicos: "Queremos resultados. Não teses e conversas"...

Um dia, no PSDB, escutaria: "Passou a vez dos intelectuais. Agora é a dos gestores e políticos". E hoje, no Ceará, voltam críticas a intelectuais que, insensíveis, entre doses de uísque, no ar condicionado, estariam a tachar de clientelismo governamental, distorcidos programas como o bolsa família.

Hoje, caducos os partidos, quer-se amplo contrato social: intelectuais a dar verbo ao tato político e a ação dos gestores em negociado projeto. Nesse clima de refundação, recebo convite. Na reunião, meio "estranho no ninho" tucano, sinto de comunidades do interior e periferias, restrição ao "elitismo de um partido de intelectuais".

Em educação, nós entre os últimos no globo. O professor, chave para a mudança. A UFC vai às urnas. Nos jornais, a crítica ao autismo de seus atores (docentes, alunos, servidores), no desequilibrado tripé ensino-pesquisa-extensão, de fora a sociedade... De lá, em tom de errata, a promessa de uso do histórico capital humano (incluídos os aposentados) nesse diálogo. Em clima de exigida responsabilidade social. Já era tempo! *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

terça-feira, 27 de março de 2007

Frase do dia
"Por pouco [Lula] não mandava Marta Suplicy para a embaixada no Vaticano. Mandou-a para o Turismo, que vem a dar mais ou menos na mesma."

Carlos Heitor Cony na Folha de S. Paulo

sábado, 24 de março de 2007

A Cruz da Grota do Xixá - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro
Em meio ao monte de pedras lá na grota do xixá, de longe se avista uma cruz marcando o lugar de uma antiga tragédia.

Muito se fala sobre a cruz ali fincada. Dizem que esse lugar é assombrado e quem passa por ali, entre outras coisas, escuta o choro de uma criança, é alvejado por pedras que não chegam a cair no chão, bolas de fogo aparecem iluminando a cruz. Quem passa de bicicleta ou a cavalo sente o peso e alguém pular na garupa. Muitas vezes os animais se recusam a atravessar a grota.

Na realidade, é mais uma lenda que corre de boca em boca na cidade de Ipueiras. Contam os antigos que há muitos e muitos anos, lá pras bandas do Pai Mané, uma menina saiu de casa nua e descalça, e se perdeu na mata.

Quando deram pelo sumiço da criança, a família aflita tratou de procurá-la Vasculharam cada palmo daquele chão, sem achar rastro da pobre inocente.

Reza a lenda que, quem se perde na mata nu, fica encantado e jamais poderá ser encontrado com vida, pois se torna invisível aos olhos de quem procura.

A verdade é que, foram muitas noites e muitos dias de procura, sem resultado. Cansados e sem esperança, já voltando para casa, as margens da grota do xixá encontraram a criança sem vida e com os pezinhos cheios de espinhos, confirmando assim a sina de quem se perde nu na mata.

Não são poucos os que dizem que já alcançaram graças recorrendo a menina mártir, e na boca do povo ela já virou santa fazendo seus milagres. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

sexta-feira, 23 de março de 2007

quinta-feira, 22 de março de 2007

Lembranças - Por Leda Maria / Fortaleza
São muitos os amigos do poeta e escritor Gerardo Mello Mourão, lamentando sua partida, último dia 9, no Rio. Para a comunidade acadêmica cearense, é grande a falta que ele fará. Dono de um currículo literário invejável, Mourão em 1979 concorreu e ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Em 1996 recebeu o Troféu Sereia de Ouro. Em 1999 foi agraciado com o Prêmio Jabuti. Para os muitos que conviveram com este literata, resta a saudade e boas lembranças.

GISELDA MEDEIROS - Perdemos um grande valor da literatura, não só cearense, mas nacional e internacional. Um homem de base altamente edificada nos princípios cristãos e solidários. De uma obra farta e engrandecedora da literatura brasileira.

MARLI VASCONCELOS - Era um grande poeta. Um imenso poeta. Um épico.

ÂNGELA GUTIERREZ - Um poeta épico dos melhores da literatura brasileira, além de um intelectual de respeito.

ARTUR EDUARDO BENEVIDES - Um dos maiores poetas que o Brasil já teve. Autor internacionalmente conhecido com grande inspiração e sabedoria . Realizou uma obra imperecível que mereceu os maiores elogios da crítica brasileira.

LINHARES FILHO - Gerardo Mello Mourão foi um grande cearense. Ele uniu a cultura grega à nordestinidade. Foi um criador em termos de poesia e também ficção narrativa. O Ceará está de pêsames pelo seu desaparecimento.

BEATRIZ ALCÂNTARA - Ele foi uma das pessoas mais inteligentes e cultas que conheci. Falava, fluentemente, oito línguas e tinha uma visão incomum da maneira de ser e de estar no mundo.

CARLOS AUGUSTO VIANA - Perdem as letras do País o maior de seus poetas. Os livros "Os peãs"; e "Invenção do mar" não só reconstroem a nossa História como, também, nos levam a refletir acerca do destino humano e da presença neste mundo.

Leda Maria é jornalista

quarta-feira, 21 de março de 2007

Frase do dia
"Certamente o embaixador russo recebeu [a notícia] e certamente mandou para o presidente Putin, e certamente o Putin ficou meio "putin" com o Brasil."

Lula ao contar que frigoríficos brasileiros pagavam suborno aos russos para continuar exportando carne

sexta-feira, 16 de março de 2007

quinta-feira, 15 de março de 2007

O Rôbo do Roberto - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Quando Roberto completou cinco anos ganhou dos pais um Robô. Era um pequeno boneco metálico de cor prateada que caminhava lentamente, piscando luzes e fazendo um som metálico e engraçado, repetindo sempre o mesmo som. Era um brinquedo caro para época e Roberto ficou muito contente com o presente.

O Robô também se alegrou, pois agora não estava mais exposto em uma loja para brinquedos infantis, tinha um lar e um dono que gostava muito dele.

Quando ia dormir, Roberto dava boa-noite ao Robô; quando estudava, o brinquedo estava ao seu lado e, finalmente, nas horas de folga, brincava com o seu belo Robô prateado.

Quando Roberto cresceu e foi para a faculdade, já há muito tempo não brincava mais com o pequeno e já desbotado Robô, mas deixava-o na sua estante de livros sempre à vista - era como um pequeno troféu que ele preservava.

Lá no alto da estante, o Robô tinha saudade dos tempos em que não saía das mãos do garoto, hoje adolescente, mas orgulhava-se dele, afinal um amigo verdadeiro alegra-se pelo sucesso do outro.

Mais tarde, Roberto casou-se e levou para sua nova casa o pequeno brinquedo. Lá, o colocou num lugar seguro e dava prosseguimento à sua vida com a esposa e o pequeno filho que já engatinhava.

Um dia, Roberto resolveu deixar o filho brincar com o Robô. Este, com pilhas novas, começou a repetir o que Roberto quando criança, várias vezes viu e ouviu. O filho alegrou-se e passou a brincar todos os dias com o novo brinquedo até que, com a naturalidade infantil, acabou por quebrá-lo, jogando com força na parede.

O Robô perdeu um dos braços e soltou a cabeça. Roberto correu e pegou o brinquedo com cuidado, olhou zangado para o filho, mas logo parou quando viu nos olhos do pequeno, lágrimas a se formarem. Rapidamente, abraçou o filho e o beijou.

Guardado dentro de uma caixa de sapatos, o Robô, alegre orgulhava-se, afinal não queria que a pequena criança fosse castigada por causa dele, era um brinquedo e logo estaria consertado, pronto novamente para brincar.

Roberto ficou um pouco triste pela quebra do Robô, mas na sua maturidade, entendeu que a alegria do filho era tudo para ele. Teria muito tempo para ensiná-lo a respeitar as coisas que de fato mereciam valor na vida.*PC*

Texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

quarta-feira, 14 de março de 2007

Frase do dia
"Lula me visitou"

ACM, feliz da vida, às vésperas de deixar o Instituto do Coração em São Paulo

sábado, 10 de março de 2007

O Retrato que Dói - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza


Nos jornais cearenses, uma matéria nos chama a atenção, sobretudo por quem a assina: Gerardo Melo Mourão, um mito nacional. Em verdade, em criança, já lhe ouvia os feitos, nos sertões das Ipueiras , decantados em prosa (pelos adultos) e verso (por violeiros). Na escola, o desenho que me fazia a professora primária, Dona Ester, sua mãe, agigantava-me sua figura.

Cearense "longe da terra", Gerardo revisita agora o Ceará, que, no relato de "velhos companheiros de infância, hoje octogenários", lhe dói muito. É que lhe descreveram o mesmo Ceará dos "bacamartes dos mourões", do tacão dos coronéis ou da vontade dos príncipes, supostos carros-chefes da história. Tivesse menos pressa, maior acuidade e melhor ouvisse o povo, perceberia que, a partir dos anos 80, o Ceará rompeu com seu passado, abandonou seu crônico solipsismo e começou a se articular sob a feição coletiva de povo. Nisso, refez o aparelho estatal e o colocou a serviço de um pactuado projeto: sair do secular cativeiro egípcio em busca de uma prometida terra onde, no mínimo, hão de correr dignidade e justiça social. Descobriria que os fantasmas do passado agora cedem lugar a valores como honradez, zelo com a coisa pública, compromisso com o coletivo. E que personalidades como Tasso Jereissati, longe dos adamastores que nos infelicitaram a vida, são, muito ao contrário, a expressão de novos tempos e caminhada.

Em sua crônica, o escritor decerto que foi traído pela amizade. É que ela, de repente, desce de plano, assumindo o tom de manifesto eleitoral em favor de candidatos amigos seus. Um documento que, na semiologia jornalística, carrega notórios indícios de "matéria paga". Compreensível até que se queira tributar honras a personagens que, durante a "longa noite do arbítrio", brandiram sua flamejante retórica contra as "baionetas da intolerância". Mas a história avança em vários capítulos, e os cargos públicos não são condecorações do após-guerra nem o senado é, por exemplo, uma trivial galeria de ex-combatentes. O que está em jogo agora é que a representação da sociedade e do Estado se faça guardando fidedignidade com o projeto coletivo tocado por todos nós. Que se devote tributo a quem fez a história, mas que se escalem os atores que hão de tocar essa história para a frente!

Para mim, entristece-me o fato de um mito meu desde a infância apequenar-se. Mas tenho a certeza de que, Dona Ester, se viva estivesse, chamaria o aluno e filho, e faria como, certa feita, comigo fez. Pedir-Ihe-ia a mão estirada e, palmatória em punho, por sobre ela lhe despejaria uma dúzia de "bolos", com a lição: Amizade alguma tem mais peso do que a honradez ferida de outrem. Sobretudo quando esse "outrem" é ícone do sentimento coletivo de um povo: dos cearenses!

(Transcrito da obra Educação: insistências e mutações - Coletânea de artigos publicados em jornais de Fortaleza ( 1995 a 2001).

Observação: Dias após o artigo, o professor Antônio Mourão Cavalcante, do clã dos "Mourões", telefona-me. Gerardo teria dado boas risadas com a inteligência da crônica, admitindo a mágoa contida de laureado no Pais e no mundo e reconhecimento algum pelas instituições do Ceará. Os "bolos de Dona Ester", nossa professora comum, ele os adorou. Tempos depois, num lançamento de livro, ele me brindaria com afetivo autógrafo, de um aluno para outro de nossa professora comum. E em Brasília, um dia, em reunião dos conselhos de educação, elegeria Dona Ester símbolo das professoras a nos marcar a todos.

Hoje, nossas instituições e entidades governamentais, independentemente da esquerda e da direita tecem merecidas loas a Gerardo Mello Mourão.
*PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza, 26/09/1998.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

sexta-feira, 9 de março de 2007

Charge da semana


Lézio Jr. - Diário da Região (SP)

quinta-feira, 8 de março de 2007

Frase do dia
"Sexo é uma coisa que quase todo mundo gosta e é uma necessidade."

Lula

quarta-feira, 7 de março de 2007

Mulher, invenção de Deus - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Pregam, aos quatros cantos, que a mulher foi feita da costela de Adão. Não sei se para diminuí-la ou ridicularizá-la, o que dá no mesmo. Corre, por aí, uma versão jocosa de que a mulher, na realidade, foi feita do rabo do cachorro.

Dizem que Deus, de posse da costela de Adão, elaborava seu trabalho. Tão entretido estava em sua missão que nem notou a aproximação de um cachorro que, velozmente, arrancou de suas mãos a costela manuseada.

Sem perda de tempo, o todo poderoso correu atrás do cachorro chegando a pegá-lo, mas o mesmo já havia comido o que seria a matéria-prima na elaboração da mulher. Para não voltar de mãos abanando, cortou o rabo do cachorro e, com seu infinito poder, deu continuidade ao se trabalho, criando assim esse ser de importância suprema, a mulher.

Há quem diga que nada disso procede. Que, na verdade, Deus fez Duas criaturas de barro e botou-as ao sol para secar. Depois de alguns dias, voltou ao local para verificar sua obra... Qual não foi sua surpresa! Uma brotou e a outra rachou. E assim foi definido o sexo: o feminino e o masculino. Era tudo tão perfeito que Deus, maravilhado com um sopro divino, deu vida àquelas duas imagens.

De qual matéria fomos feitas exatamente, não importa. O importante é que a formula deu certo. Se não somos uma pequena fração do homem, muito menos seríamos o rabo de um cachorro. Acredito sinceramente que somos resultado das mãos de Deus e do sopro divino. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

terça-feira, 6 de março de 2007

Frase do dia
"Eu não quero problema."

Lula, a respeito da nomeação de Marta Suplicy para o ministério

segunda-feira, 5 de março de 2007

Plantando na água - Por Beto Costa / Rio de Janeiro
Esse cantinho aqui do sítio é o lugar em que eu mais gosto de ficar. Aqui nessa varanda debruço-me sobre o pequeno parapeito e perco o olhar no infinito horizonte. Às vezes, penso em muitas coisas. Convenço-me de algumas decisões. Outras vezes o nada preenche o meu pensamento. Há também momentos como esse agora, em que olho para toda a minha terra. Sensação de papel cumprido. Orgulhoso, oro para que a minha prole dê continuidade a essas maravilhosas plantações.

Oh, terra abençoada! Tudo que se planta dá, já dizia Pêro Vaz de Caminha. Mas será que ele um dia imaginaria que as plantações substituiriam a terra pela água? Acho difícil. No começo até eu relutei contra essa idéia, que me parecia no mínimo descabida. Quem me livrou do preconceito e me convenceu que era possível produzir um produto final de superior qualidade foi o Marquinho, o mais velho dos cinco filhos que tenho.

Aliás, esse é um menino de ouro. Tem amor à terra e ao trabalho! Sempre tem idéias novas. Lembra muito a mim quando jovem. Quem me dera que o João e o Pedro fossem assim. Esses só querem gastar o dinheiro que a hidroponia nos proporciona. Vivem lá na cidade grande. O mais próximo que eles chegam daqui é através do telefone.

Já a Marina, depois que chega da escola, sempre me ajuda a proteger e a limpar as estufas. É preciso que fiquem livres das variações do clima, dos insetos, animais e outros parasitas que normalmente tanto prejudicam as plantações feitas no solo.

A Eduarda se forma no fim do ano em veterinária não vai dormir antes de balancear os nutrientes conforme a necessidade do cultivo. Ela é a responsável por que as plantas recebam durante todo seu ciclo de crescimento as quantidades ideais de nutrientes.

Esse sistema de cultivo, dentro de estufas sem uso do solo, de certa forma, uniu mais a família. Antes as meninas alegavam não se integrarem mais ao trabalho na roça por não gostarem de pisar e de manejar a terra. Além disso, vira e mexe sempre havia reclamações de ter algum inseto preso à roupa ou ao cabelo. Ah, mulheres! Sempre vaidosas.

É impressionante, mas ficar aqui olhando o passado e contemplando o futuro me faz constatar que a letra do hino é verdadeira, "o nosso céu tem mais estrelas, nossos bosques têm mais flores". Somos realmente gigantes pela própria natureza. Mas há quem não perceba. Eu, por exemplo! Não entrava na minha cabeça como os nutrientes que a planta precisa para desenvolvimento e produção pudessem ser fornecidos somente por água potável acrescida de nitrogênio, potássio, fósforo e magnésio em forma de sais.

Hoje em dia é difícil esconder o sorriso ao abrir as estufas e ver os cultivos de alface, melão, morango, feijão-vagem, arroz, tomate, pimentão, berinjela, agrião, brócolis, couve, repolho, salsa e pepino. Todos super saudáveis. Não há ataques de pragas e doenças, tão comuns há tempos atrás.

Não sei se ainda verei esse Cruzeiro do Sul por muito tempo, mas de uma coisa eu tenho certeza: o maior erro que alguém pode cometer é ter medo de plantar. E como ainda não consegui descobrir o que somos sem a natureza e o que nos restaria, continuo aqui plantando e escrevendo minhas memórias. *PC*

Beto Costa é jornalista

sábado, 3 de março de 2007

O parque infantil São José - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Entre 1957 a 1958 exerceu o cargo de prefeito de Ipueiras, sem afastar-se do de vigário da cidade o Padre Francisco Correia Lima.

Dentre as muitas realizações de seu breve mandato, além de obras emergenciais para a cidade como calçamentos de ruas, caixas dágua, chafarizes e outros que muito amenizaram o período de seca que foi o ano de 1958, inaugurou também, ao lado do Arco de Fátima, o primeiro parque infantil permanente para a cidade.

Nas suas memórias escreveu o falecido edil : "No intuito de proporcionar à criançada ipueirense um ponto de reunião e distração para seus folguedos, construí, em pleno centro urbano, um parque infantil."

A obra que recebeu o nome de Parque Infantil São José, ocupava o espaço onde hoje se encontra uma agência bancária, e foi durante quase toda década de 60 um lugar de muita animação.

Era cercado e tinha vários balançadores, escorregadores, sobe-e-desce bem como escada-macacos, alegrando a meninada que tinha nos seus períodos de folga um lugar certo para brincar.

Já no final da década de 60, estava em ruínas a cerca não mais existia, dos vários aparelhos para brincar só restavam as armações enferrujadas e o barro-de-louça fazia nascer muito capim.

O lugar passou a ser o ponto preferido para circos e parques que chegavam e partiam até que, finalmente, na primeira metade da década de 70 se inaugurou a agência do BEC (hoje Bradesco). Ficou para os que muito se divertiram nesse primeiro parque municipal a lembrança de uma época em que o progresso parecia chegar lento e ainda se respirava o ar romântico e inocente característico das cidades interioranas da época. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

sexta-feira, 2 de março de 2007

quinta-feira, 1 de março de 2007

Do Piauí para o Brasil - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Em sua "Carta ao Leitor", a Veja nos chama a atenção para a reportagem "Lição do Piauí". "Escola nota dez", diz-nos a Isto É. Surpresa, o 1º lugar do Instituto Dom Barreto, de Teresina, no Exame Nacional do Ensino Médio, entre as 21 mil escolas (privadas e públicas) do País, a deixar atrás as renomadas e caras do Centro-sul. Isso, num dos estados mais pobres do Nordeste.

O Dom Barreto inspirou-se no pragmatismo da Finlândia e Coréia do Sul, onde educação se orienta rumo aos até hoje olvidados "mundo do trabalho" e "prática social", portos da LDB. Isso, sem "conversa fiada e discurso ideológico" (Cláudio Moura Castro). Mola-mestra de tudo, o professor. Pelo incentivo (capacitação e salário), mas cobrança. Depois, currículos a untar faces do "pensamento complexo", pelo estímulo aos tipos vários da inteligência múltipla (da verbal e emotiva à transcendente) e à multiculturalidade. Isso, pela oferta de campos de estudos desde as linguagens (aí inclusos arte, latim, grego clássico, xadrez) ao esporte. Tudo em tempo integral na escola, os docentes a orquestrar o aprender como troca de saberes (semi-alheio, na expressão de Bakhtin). Nela, leitura mínima orientada de 20 livros, na maior biblioteca do estado. E individualizados computadores, numa Sala do Futuro, a abrir sendas e diálogo pela Web com o planeta. Custo, 1/3 das escolas badaladas e careiras do Centro-Sul.

Paulo Renato, criador do Enem, adverte-nos para o alerta quando o País é dos últimos em educação. De mim, volto ao que, após o Enem, reclamava, em artigo de 13/10/99, como moderna seleção à educação superior: "O vestibular está morto". Com ardor maior agora quando o modelo antigo se fez caduco, e o marketing, enganoso e custoso. Chego até a pensar, como já ocorre no Sul em mediação na causa pelo Ministério Público... *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).