domingo, 31 de dezembro de 2006

Não jogarei flores ao mar - Dalinha Catunda / Rio de Janeiro
Jornais, revistas, tele-jornais e programas de televisão são unânimes em falar do tema, e não poderia ser diferente. Além de repassarem antigas simpatias a serem postas em prática na passagem do ano, se alongam em previsões vindas de diferentes entidades.

Das simpatias, tenho uma simpatia especial por pular sete ondas, fazendo sete pedidos, simplesmente por parecer brincadeira de criança.

Num desse programas matinal de televisão em que a apresentadora falava de previsões, simpatias, mais um assunto entrou em pauta, as cores a serem usadas e seus significados.Azul para proteção e tranqüilidade. Rosa para o amor. Amarelo e dourado prosperidade, e por aí vai...

Mas o Rio de Janeiro, cidade Maravilhosa, reduto de beleza, antecipadamente se vestiu de vermelho fatal num colorido dramático de uma madrugada sangrenta.

Tiros e bombas por toda cidade. Delegacias atacadas. Ônibus incendiados. Mortos e feridos alimentando a fome de violência de nossos algozes.

Custo acreditar, eu que sou otimista, que as chuvas e tempestades e a violência sangrenta que agora assolam o país, sejam prenúncio de bonança.

Pensando assim, Iemanjá que me desculpe, mas esse ano, não jogarei flores ao mar, nem pularei sete ondas, pois tenho medo de ser arrastada por esta onda de violência. Vou me contentar em vestir azul e comer a meia noite doze uvas, fazendo um pedido a cada uva comida e mentalizando saúde, paz, amor, união e prosperidade para que o nosso povo tenha um ano melhor. "Que assim seja" *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

sábado, 30 de dezembro de 2006

Acreditar e Agir - Por Ary Barreto / Rio de Janeiro
Um viajante caminhava pelas margens de um grande lago de águas cristalinas e imaginava uma forma de chegar até o outro lado, onde era seu destino. Suspirou profundamente enquanto tentava fixar o olhar no horizonte.

A voz de um homem de cabelos brancos quebrou o silêncio momentâneo, oferecendo-se para transportá-lo. Era um barqueiro. O pequeno barco envelhecido, no qual a travessia seria realizada, era provido de dois remos de madeira de carvalho. O viajante olhou detidamente e percebeu o que pareciam ser letras em cada remo. Ao colocar os pés empoeirados dentro do barco, observou que eram mesmo duas palavras. Num dos remos estava entalhada a palavra acreditar e no outro agir.

Não podendo conter a curiosidade, perguntou a razão daqueles nomes originais dados aos remos.

O barqueiro pegou o remo, no qual estava escrito acreditar, e remou com toda força. O barco, então, começou a dar voltas sem sair do lugar em que estava. Em seguida, pegou o remo em que estava escrito agir e remou com todo vigor. Novamente o barco girou em sentido oposto, sem ir adiante.

Finalmente, o velho barqueiro, segurando os dois remos, movimentou-os ao mesmo tempo e o barco, impulsionado por ambos os lados, navegou através das águas do lago, chegando calmamente à outra margem.

Então o barqueiro disse ao viajante: Este barco pode ser chamado de autoconfiança. E a margem é a meta que desejamos atingir.

Para que o barco da autoconfiança navegue seguro e alcance a meta pretendida, é preciso que utilizemos os dois remos ao mesmo tempo e com a mesma intensidade: agir e acreditar.

E você? Está remando com firmeza para atingir a meta a que se propôs?

E, antes de movimentar o barco, verifique se os remos não estão corroídos pelo ácido do egoísmo.

Depois de tomar todas essas precauções, siga em frente e boa viagem.

Estamos-nos navegando e precisamos da sua ação, pois desta maneira poderemos juntos ajudar a mudar a face social de nosso País e chegarmos à outra margem do rio. *PC*

Ary Barreto é jornalista

sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Cidade Iluminada - Por Bérgson Frota / Fortaleza


A noite descia em Fortaleza, a cidade iluminava-se com árvores a piscar e enormes edifícios a ostentarem belos e ricos enfeites natalinos.

A luta cheia naquele começo de noite já se mostrava, e o corre-corre de pessoas apressadas e carros a buzinarem riscando pistas levou-me a um pensamento único e reverente. Era Natal.

Longe daquele consumismo em que fomos já há muito tempo tragados nesta época, a noção cristã de amor ao próximo foi me tomando como uma avassaladora corrente de sentimentos.

Cada pessoa que por mim passava, tomava seu rumo como um autônomo seguindo apressadamente carregando suas histórias e seus dramas.

Sim, era Natal, e era a noite de Natal mais bela que eu já tinha visto.

Surgiu um sentimento de comunhão em meu peito. A vontade de expressar o inexprimível, a vontade de desejar a cada um que por mim rapidamente cruzava, um Feliz Natal!

Mas o tempo corria. E elas pareciam ainda mais apressadas.

Novamente fui levado a observar o ambiente.

Os edifícios pareciam cachoeiras de luzes a brilhar, nas árvores as luzes multicoloridas piscavam, músicas natalinas saíam de dentro de lojas e o céu se para cima olhássemos estava cheio de estrelas que também piscavam.

De volta pensei naqueles que muito necessitavam, que naquela noite talvez nada ou pouco tivessem para comemorar. Quantos naquela noite em todo mundo não pedia um só instante de paz, e tive pena de nós homens, que cumulados de tantas riquezas somos prisioneiros de tantas algemas.

Lembrei com fé da figura de Cristo, tal pensamento me trouxe paz e embora estranhamente uma compreensão de que mais do que nunca diante de tanta dor e desassossego ele estava conosco.

Desci rapidamente a calçada e cruzei uma pista em direção à casa.

No céu, naquela noite, como um presente de Deus a todos os homens, a lua estava cheia, iluminando ricos e pobres, iluminando toda a humanidade. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Belas e Burras - Por Mario Serdan / Rio de Janeiro


Uma das generalizações mais enraizadas no inconsciente coletivo é a de que toda mulher bonita é burra. A gente sabe que isso é uma inverdade: está assim de mulher linda e inteligente conquistando o seu espaço por aí. Então por que o estigma perdura?

Porque tem fundamento. É uma verdade politicamente incorreta, mas ainda assim uma verdade: garotas muito bonitas, mas muuuuuuito bonitas, não precisam dar duro para terem o mundo a seus pés. Nossa sociedade valoriza demasiadamente a estética, o par de olhos verdes, o cabelo liso, o corpo de cinema. Sendo assim, uma garota que se encaixe nesse padrão de beleza acostuma-se desde cedo com os elogios, não precisa batalhar para ser notada. Sabe que vai ser tirada para dançar. Os caras fazem fila para namorá-la. Basta que jogue o cabelo para um lado, depois para o outro, e os príncipes caem na rede.

Já as que não se relacionam às mil maravilhas com o espelho namoram menos. É um namorado hoje, outro daqui a 2 anos. Com o tempo livre, fazem o quê? Estudam. Lêem. Vão ao cinema. Viajam pra esquecer. Quando dão por si, estão mais sabidas. Aprendem que beleza não precisa ser congênita, pode ser adquirida com o tempo. Descobrem que os melhores homens não são aqueles que ficam encostados em carros nos postos de gasolina sábado à noite, mas os que trabalham ao seu lado, no escritório. Sim, você tem um emprego, não é um assombro? E você tem um bom papo, deu um jeito no cabelo, fez uma boa terapia e não se queixa mais da vida. Já, já vão tirá-la para dançar.

Inteligência, assim com os músculos, precisa ser exercitada para aparecer. As bonitas nascem com o mesmo número de neurônios das feias, mas são menos exigidas pela sociedade, que se satisfaz com seu papel de bibelô. Cabe a elas mostrar que seu cérebro tem tanto prestígio quanto seu rosto de boneca.

Generalizações costumam ser injustas: Rita Camata, Vera Fischer, Bruna Lombardi, Cristiana Reali e Constanza Pascolato são mulheres tão belas quanto inteligentes. Em contrapartida, há feiosas que não cultivam nada acima do pescoço. O assunto aqui é esforço pessoal. Os cegos têm melhor olfato não por acaso, mas porque necessitam desenvolver um sentido que substitua a visão. Se Regina Casé fosse a cara da Sthephane de Mônaco, talvez a bajulação em torno de sua beleza desestimulasse sua batalha por crescimento profissional e teríamos menos uma mulher brilhante no planeta. Não devemos abandonar o batom e a academia de ginástica, mas é fundamental ler, estudar e trabalhar muito, mesmo que papai do céu tenha nos presenteado com o rostinho da Michelle Pfeifer. Que, aliás, estaria até hoje fazendo comercial de sabonete se não tivesse tutano. *PC*

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Velho Natal - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro
Quando vem surgindo dezembro,
Do meu passado relembro,
Num tempo que tudo era mel.
O presépio que me encantava.
Os presentes que eu ganhava,
Do velho Papai Noel.

O presépio era tão lindo!
Nas palhas Jesus menino,
José e Maria sorrindo,
Cercados por animais.
Os três reis magos contentes,
Seguravam seus presentes,
Ao lado do filho e dos pais.

As árvores de Natal,
Deslumbravam minha visão.
Eram pobres garranchos,
Recobertos com crepom.
No alto uma estrela prateada,
Sobre os galhos algodão.

Eu sonhava com Papai Noel,
Descendo pela chaminé,
Entrando de casa em casa,
Pisando na ponta do pé.
Barbas brancas, saco vermelho,
Como ainda hoje ele é.

O sapatinho embaixo da cama,
Da rede, ou na janela,
Era a mais bela quimera,
Daqueles tempos de outrora.
Lamento a ilusão perdida
Que reina no mundo agora. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Mudaria o Natal ou mudei eu? - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Sinto-me esse homem, do Velho Machado. E me lembro, dos tempos iniciais da Rádio Universitária (FM), quando lançamos, certa feita, uma mensagem de Natal, que dizia: "Neste Natal, lembre-se do aniversariante".
Hoje, vejo lojas voltarem aos presépios. E até cadeias de supermercados e shoppings centers, olhares ávidos sobre os 13º salários nossos, arquivarem estranhos papais-noéis, reeditando os presépios de outrora.
Na estante, acena-me o livro Terapeutas do Deserto - De Fílon de Ale xandria e Francisco de Assis a Graf Dürkheim - de Jean-Yves Leloup e Leonardo Boff, editado pela Editora Vozes. Do Prólogo da obra, extraiamos o que nos conta Pierre Weil, Reitor da Unipaz:
"(...) Eu tinha acabado de conhecer Jean-Yves Leloup. Resolvi convidá-lo para uma conversa com Monique e surgiu daí uma situação muito curiosa. Jean-Yves dizia-se também muito cansado. Dirigia nesta época o Centro Internacional de la Sainte Baulme, no sul da França, o qual tinha todas as características de uma universidade holística.
A Sainte Baulme está edificada sobre uma gruta e reza a tradição que Maria Madalena ao chegar à França, após a morte do Cristo, aí se refugiou. Jean-Yves fez uma escola, e,de uma certa maneira,exercia o seu sacerdócio recuperando pessoas marginalizadas por vícios diversos e "ovelhas" perdidas, como eu mesmo presenciei. Era um trabalho muito bonito, procurando dar à tradição cristã o seu sentido original. Um trabalho semelhante ao que Leonardo Boff vem realizando, há muitos anos, no Brasil.
Reunimo-nos em Paris e Jean-Yves falou assim: "Já que estamos todos cansados, façamos uma coisa maior. Criemos a Universidade Holística Internacional". Fizemos os estatutos, registramos na Prefeitura de Paris e, ainda na Sainte Baulme, realizamos um primeiro seminário intitulado: "A aliança" . Foi realmente um grande encontro, um evento histórico que cul­minou com a colocação do nome Aliança em um monumento da Av. de La Grande Armée em Paris. Nessa ocasião, redigimos também o programa do Curso de Formação Holística de Base. Isto ocorreu há mais de dez anos.
Depois vim para o Brasil e vocês conhecem o resto da estória. O Governador José Aparecido de Oliveira, sonhando com uma instituição como essa, convidou-me para iniciá-la e dirigi-la e, dessa maneira, nasceu a Universidade Holística Internacional em Brasília.
Entre os frutos desta universidade, tivemos este seminário, cujos conferencistas, Jean- Yves Leloup e Leonardo Boff, souberam nos brindar com o melhor de Fílon e seus Terapeutas, Graf Dürckheim e Francisco de Assis."

Francisco, o homem ecológico, o irmão universal (Leonardo Boff)

"(...) Tracei os grandes tópicos da vida de Francisco que serão depois aprofundados. Falaremos, nessa oportunidade, da santa humanidade de Jesus, da recuperação do presépio, da Eucaristia e de tudo o que recorda a passagem de Cristo por este mundo e que Francisco fez questão de lembrar. Ele recupera toda uma tradição que afastou Jesus da sua humanidade, fazendo-o Deus, Senhor, Imperador. Traz de volta Jesus como servo, sofredor, como o irmão de cada pessoa humana. Os textos referem que ele dizia: 'Que beleza termos um Deus que é irmão nosso! Que lindo, que extraordinário que ele nasça, que ele chore, choramingue, que ele mame o leite no peito de sua mãe!'
Francisco não pensa nos dogmas abstratos de Calcedônia ou de Nicéia, na natureza divina, nascendo junto com a natureza humana. Não. Ele pensa na criancinha que chora, que mama, e ele diz: 'Vamos arranjar uns paninhos, porque ele está tremendo de frio'. E assim representa o presépio, cria o presépio tal qual o conhecemos hoje em dia. O presépio é uma invenção de São Francisco, para dar carne à sua identificação. A Via-Sacra também é uma invenção de São Francisco e nela vemos, até hoje, as estações da Paixão do Cristo, novamente em seu processo de identificação.
Além disso, ele se identifica com a natureza e seus elementos como irmãos e irmãs. Ele é irmão da cigarra, da abelha, da lesma, do irmão lobo de Gubbio e até da Irmã Morte. Essa identificação é uma grande trajetória. E por que ela é importante para nós nos dias de hoje? Porque São Francisco não é mais dos franciscanos, não é mais da Igreja, não é mais do Ocidente. Ele é um arquétipo da humanidade. Como todo arquétipo, ele sempre renasce, sempre vive, ganha novas figurações. Transformou-se no arquétipo do homem cordial que raça todos os seres e com eles se identifica.
Na biografia de São Francisco feita por São Boaventura tem uma frase que diz: 'Francisco era tão inocente que nele renasceu o homo matinalis, o homem matinal da primeira manhã da criação'. O homem ecológico, o irmão universal que confraterniza com tudo, que religa todas as coisas, religa as mais distantes às mais próximas. Francisco casa os céus com os abismos, as estrelas com as formigas e faz uma síntese, das mais fascinantes e das mais generosas da humanidade, a partir de dentro. Une a ecologia interior com a ecologia exterior.
No Oriente, japoneses, coreanos, indianos, veneram São Francisco mais do que ao Cristo. Tudo o que é escrito sobre ele traduzido - esse meu livro sobre São Francisco tem mais de dez edições no Japão. Porque São Francisco é mais Zen...
O papa, em 29 de novembro de 1987, de um modo muito inteligente, proclamou-o Patrono da Ecologia. Eu acho que ele é mais do que Patrono da Ecologia. Ele é um dos arquétipos da humanidade reconciliada. Através dele podemos ter esperança o de nos resgatar, de nos reconciliar com todas as coisas e antecipar a utopia do Reino de Deus dentro de nós que rompe para fora como utopia e como realização histórica. Por isso, ele é alguém que fala à subjetividade profunda dos seres humanos, de todos aqueles que estão buscando. Por isso, ele é atual e nós é que somos velhos (...)"
"Pois assim como num só corpo temos muitos membros e os membros não têm todos a mesma função, de modo análogo, nós somos muitos e formamos um só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros. Tendo porém dons diferentes, segundo a graça que nos foi dada, quem tem o dom do serviço, o exerça servindo; quem o do ensino, ensinando; quem o da exortação, exortando. Que o vosso amor seja sem hipocrisia, detestando o mal e apegados ao bem; com amor fraterno, tendo carinho uns para com os outros, cada um considerando o outro como mais digno de estima." (Paulo. Apóstolo, Rm. 2, 4-10, citado por Jean Ives LeLoup)

O SER HUMANO É UM ENTRELAÇAMENTO,UM NÓ DE RELAÇÕES (LEONARDO BOFF)

A mais rica definição do ser humano que encontrei até hoje é a definição de um grande escritor francês, chamado Antoine de Saint-Exupery, em seu romance La Citadelle - A cidadela. Ele diz: L'être humain est un noeud des relations - "O ser humano é um nó de relações" .
O ser humano é um nó de relações, voltado em todas as direções - para cima, para o sonho; para o alto, para Deus; para dentro de si, para o seu coração; para os lados, para os seus irmãos e irmãs; para baixo, para a terra, para a natureza. Relações em todas as direções. E o ser humano só se realiza, se ele agiliza, se ele articula as relações. Se corta as relações, ele empobrece. Então, eu diria que esta antropologia é pan-relacional, é uma antropologia ecológica.
O que é a ecologia? Pierre Weil falou disso recentemente. A ecologia é a relação e não existe nada fora da relação. Porque tudo tem a ver com tudo, em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Não existem as coisas, existem as pontes que fundam as coisas. Não existem os objetos, existem as subjetividades que têm história, que estão abertas umas às outras, as relações que envolvem todo mundo. Então esta antropologia é ecológica, pan-relacional, amarra as realidades.
No âmbito dessa antropologia se move São Francisco. Não é preciso ser só um nó de relações, mas é preciso ser um nó de relações cordiais. A cordialidade é fundamental para São Francisco, em quem tudo é amarrado no coração. Por isso, é carisma, é comoção, é vibração, é entusiasmo, é abraço, é confraternização com todo o mundo em uma antropologia de relação, pan-relacional, de cordialidade para com todos os seres.
Uma antropologia que sabe sentir o coração das coisas. Os textos dizem que Francisco sentia o coração íntimo das coisas. Isso tem um sentido bíblico e um sentido profundamente oriental. As coisas têm coração, porque têm identidade. Então, poder sentir o coração do outro, afinar-se, entrar nesta sintonia com ele, é viver a fraternidade universal. É tomar-se árvore, pedra, oceano, estrela. Não é a estrela estar lá e você estar aqui. É você virar estrela, tomar-se sol, transformar-se em lua. É você ter a união mística (como dizem os antropólogos que estudam esse fenômeno), a fusão mística com essa realidade. Uma experiência de não-dualidade, de identificação. Não gosto da palavra identidade. Gosto de identificação - aquele processo que vai criando a identidade, na medida em que se identifica com o outro. Essa foi a caminhada de Francisco.
O filósofo francês Jacques Maritain e outros viram que, em termos sociais, São Francisco dá origem a uma democracia universal. Dá origem a uma democracia sócio-cósmica e não só a uma democracia onde as pessoas humanas são todas iguais, todos irmãos e irmãs, sem hierarquias, como é o ideal da democracia. Na Igreja oficial, hierárquica nunca houve democracia. Nas ordens mendicantes, tudo é democrático, todos são eleitos, do provincial ao guardião. Tudo é decidido em reuniões que nunca acabam, onde os cabelos são arrancados e os capuzes voam. Mas estão aí, como diz São Francisco, in plano esse, todos no mesmo plano, em seu ideal de fraternidade.
Ele proibia que qualquer frade fosse vigário, bispo e muito menos cardeal. Nada disso. Queria que eles continuassem lá embaixo, como irmãos. ln plano subsistere, subsistindo no plano, no chão, onde todos devem estar. Portanto, é uma democracia social, os seres humanos todos como irmãos e irmãs, igualitários.
Uma democracia cósmica, incluindo nela outros cidadãos: as plantas, os animais, as rochas, as águas, o sol, a lua, as estrelas. Imaginem o que seria da cidade onde moramos se não houvessem as plantas? Se não existissem os passarinhos, as nuvens e uma atmosfera pura para respirarmos? Não seria uma cidade humana. Estes novos cidadãos participam do nosso convívio, devem ser respeitados, têm direito a viver. São Francisco já intuíra as legislações para a defesa dos animais e das plantas.
A democracia cósmica não é uma democracia biocentrada, centrada apenas na vida, porque na natureza existe a morte. A natureza é o equilíbrio vida-morte. Por isso, Francisco inclui em sua democracia todas as formas de vida e também os leprosos, os doentes, nada excluindo, nem mesmo a morte.
"Mudaria o Natal ou mudei eu?" Mudamos nós, o mundo, que se tornou ecológico, numa autêntica "democracia ecológica", centrada na vida em abraço com a morte. Tempos, pois, de se aposentarem os "papais noéis", porque, como diria o apóstolo Paulo, "assim como num só corpo temos muitos membros e os membros não têm todos a mesma função, de modo análogo, nós somos muitos e formamos um só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros."

Feliz Natal! *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

domingo, 24 de dezembro de 2006

Soneto de Natal - Machado de Assis / Marcondes Rosa de Sousa
Um homem, -era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno,
-Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto...
A folha branca Pede-lhe a inspiração;
mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

sábado, 23 de dezembro de 2006

Carta ao Papai Noel - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro
Era uma vez uma menina chamada Maria, que, apesar dos tempos modernos e do turbilhão de informações, ainda acreditava em Papai Noel. E foi pensando assim que ela resolveu escrever uma carta ao tal velhinho.
Querido Papai Noel, eu sei que o senhor é bonzinho e vive agradando as crianças. Meu pedido é um pouco confuso, mas sei que, para um Papai Noel, nada é difícil.
Adorei um pião que meu irmão ganhou em seu aniversário. Passo horas vendo ele girar.
Quero que o senhor me traga, nesse Natal, um presente bem colorido, com muitas listas, que gire que nem o pião do meu irmão, mas tem que ser um brinquedo de menina.
Conto com o senhor meu bom velhinho.
Um abraço da Maria.
Dobrou a carta e entregou a sua mãe, pedindo-lhe que a colocasse no correio. A mãe, comovida com a ingenuidade da filha, guardou a carta com carinho, prometendo a si mesma que faria o possível para realizar o sonho de Maria.
Recorreu então à madrinha da menina, que costumava viajar ao Paraguai com a finalidade de fazer compras, para abastecer sua lojinha de brinquedos. A madrinha emocionou-se com o relato. E querendo alimentar a inocência da afilhada, prontificou-se a ser cúmplice nessa aventura.
-Não se preocupe, comadre. Eu darei um jeito. Nossa menina terá o presente desejado.
Enfim, o grande dia! Véspera de Natal... Maria ajeitou seu sapatinho embaixo da cama. Participou da ceia. Deu uma olhadinha no presépio. Admirou a árvore de Natal. E, em seguida, voltou para o quarto. Queria dormir cedo e acordar mais cedo ainda. Queria saber que surpresa Papai Noel teria preparado para ela. A ansiedade era grande, não maior do que alegria do dia seguinte.
Tava lá, ao lado do seu sapatinho, uma caixa pequena embrulhada num papel colorido e com muitas fitas. Desesperado, ela tenta abrir a caixa de qualquer de qualquer jeito. E, em segundos, consegue retirar, dentro da caixinha, uma linda bailarina.
A boneca era fosforescente, as listas coloridas da roupinha brilhavam tanto que chegavam a doer nos olhinhos da pequena. Correu para mostrar a mãe.
-Olha, mãe, olha! Papai Noel atendeu ao meu pedido. Pena que o brinquedinho não gira... Mas é tão lindo! Tão colorido!
A mãe, vendo que era uma caixinha de música, pediu para ver. Pegou o brinquedo e deu corda. A graciosa bailarina começou a dançar e rodopiar em cima do piano, para a imensa alegria de Maria, sob olhar emocionado de sua mãe.
Ainda vale a pena apostar na inocência de uma criança. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Sou brasileiro e não me envergonho nunca! - Por Beto Costa / Rio de Janeiro
A minha primeira ação efetiva do dia é ler o jornal enquanto tomo o café da manhã. Mas hoje as notícias começaram a me embrulhar o estômago. Não sei se foi o meu previsível mau humor por meu time ter perdido a final do campeonato para um timinho do interior de São Paulo ou se finalmente enxerguei que o jornal está mergulhado no sangue da vaidade. Escândalos políticos, fraudes, crimes policiais, fofocas, tropeço da seleção brasileira de futebol são as manchetes de capa mais usuais. O desafio é trazer o furo de reportagem da modelo Tal beijando o famoso Fulano. Isso vale foto de meia ou até de página inteira! É impressionante como a evolução do ser humano nada mais é do que uma corrida ao desejo imoderado de atrair atenção.Sinceramente, não tenho a pretensão de ser o ditador de valores e costumes, mas algo me incomoda. Talvez seja vergonha por ser brasileiro. E não pergunte por que ainda não me acostumei nem afirme que em toda parte do mundo é assim. Não sou nenhum Papagaio de Pirata tampouco Maria Chuteira. Eu tenho um nome e uma história a preservar.Ao virar a página percebo que até o piloto brazuca da Fórmula 1 tá de saco cheio! No caderno de turismo constato que a nossa fama além mar é devida às belezas naturais. E quem não gosta da mulata de fio dental sambando e rebolando até o chão nas areias de Copacabana? Cartão postal mais belo não há! Mas já pensou se pudéssemos pôr como postal os políticos do mensalão? Talvez o turismo aumentasse. A frase publicitária poderia ser: "Conheça o Brasil e pegue o quanto quiser" ou então "Perca a vergonha você também".Eterna promessa, o verde e amarelo começa a desbotar na bandeira que tremula sem direção. O devaneio poético do Hino Nacional é decorado pelas crianças quando têm escola para ir. E assim o ensino se fundamenta. Aprovado é quem tem maior capacidade de memorizar.Ao virar mais uma página leio que as esferas federais, estaduais e municipais leiloam a incumbência de quem vai assumir o gerenciamento de determinados hospitais. No caderno de economia a notícia de deflação! Deflação? Ah, é! O preço das passagens não sobe há mais de um mês! Talvez tenha sido por causa da desinflação que o trabalhador voltou a sorrir. Comemoremos! Tivemos aumento no salário mínimo! Agora com o troco podemos comprar aquele biscoito recheado que sempre consideramos supérfluo.Numa matéria de página inteira descreve-se que sonegar o imposto de renda pode resultar em prisão. Sem querer justificar essa ação ilícita, me interrogo sobre a ausência de uma matéria sobre os ilusórios incentivos ficais, que, dependendo da empresa - Simples, Micro, Pequena ou Grande, a cada nota fiscal emitida há impostos como ISS, ICM, Confins, Pis, IRPJ dentre outros que podem totalizar 30% do valor do produto. Mas tudo bem! Isso não vende jornal.Viro mais algumas páginas e encontro o caderno cultural. É impressionante! Só há informes publicitários e releases. Onde estão as matérias? As críticas? Os artigos? Ih! Essa comédia teatral vai estrear hoje? Nossa! O preço da entrada não é nada atraente.As páginas policiais desisto de ler. Mais policiais envolvidos em chacinas... Chega! É muita decepção por um dia. Dobro o jornal e chamo a servente. Ela coleciona os selos promocionais. E como sou brasileiro e não me envergonho nunca, vou chamar a secretária com aquele decote saliente. Precisamos conversar. *PC*

Beto Costa é jornalista

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Frase do dia
"Vou vadiar um pouco"

Márcio Thomaz Bastos, sobre o que pretende fazer quando deixar o Ministério da Justiça

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

Lei do Silêncio - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Madrugada. Imposto-me de paciências, ante o temor de, cardíaco, voltar à UTI. E driblo o sono, prescrito por médicos, ante os decibéis da vizinhança. Disque silêncio? Farsa! Na Web, jurista adverte-nos. Não se cumpre. Mas não coisa de agora. Antes de Cristo, na velha Roma, os césares prescreviam: carros de rodas não podiam entrar na cidade. E poeta irônico clamava, séculos depois, contra a velha Roma a lhe ferir, na cama, os ouvidos. Na vetusta Inglaterra, um século após Cristo, Elizabeth I chegou a proibir, para não incomodar os vizinhos, que os maridos, de 10 da noite ao amanhecer, batessem nas mulheres... Somos farisaicos e cartoriais. Leis, as temos: de condomínio e do novo código civil. Mas investimos, de forma caricata, no "ócio produtivo", o turismo como negócio. Isso, à moda tailandesa, que os jovens, mais diretos, traduzem: "no dueto entre gringos e prostitutas". Veja em aeroportos, restaurantes, praias, boates, buffets em tempo integral (full time). Iracema e iracemas a se tornar, de guias, em mercadorias. Sopram novos ventos. Cidadãos, não seremos incomodados a nos retirar. Novo tempo: a vida em novos padrões éticos e estéticos. E os eleitos o foram por essas aragens. De Cid Gomes, sei do tato e do ouvir. De Luizianne, testemunhei sempre dignidades. Ciro Gomes e João Alfredo, conheço-os alunos na UFC. De João, guardo versos que dele recebi nas eleições:"Levo na alma as dores e angústias de nosso povo sofrido. Meu coração carrega palavras vivas, prenhes de crença e esperança. Colho propostas e anseios. Semeio versos, flores, projetos. Sou rio caudaloso a receber sonhos e pelejas que deságuam no mar grande de nossa utopia maior". Que tais águas engrossem o "mar grande da utopia maior" de todos nós. Foi a esperança que depositamos na urna eletrônica! *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Frase do dia
"O problema não é ele ter feito acordos com a direita, é que não tem rumo."

Fernando Henrique Cardoso, sobre as alianças políticas de Lula para o segundo mandato

sábado, 16 de dezembro de 2006

O Brinquedo Inesquecível - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro
Fui uma daquelas crianças que acreditou cegamente em Papai-Noel. Só com o passar do tempo percebi que o bom velhinho era mais generoso com uns, do que com outros, mas nada disso chegou a afetar meu relacionamento com ele.
É lógico que ganhávamos os presentes conforme os sapatos que colocávamos debaixo da cama ou da rede. Nas camas e nos bons sapatos, os melhores presentes.Nas redes e sandálias, os arremedos de brinquedos ou simples lembrancinhas.
Nunca ganhei uma boneca loura de olhos azuis. O Papai-Noel pelas minhas bandas era mais humilde. Mas também nunca tive inveja de quem as ganhou, pois as pobrezinhas viviam mais dentro das caixas do que no colo de suas respectivas donas, motivo, brinquedo caro, quebra! Contudo posso garantir que ninguém foi mais feliz do que eu com minha boneca inquebrável. Inquebrável sim, pois era toda de pano, com roupinha colorida, cabelo das caboclas do sertão e, fantástica aos meus olhos.
A noite de Natal era mágica, Mas o dia seguinte não ficava atrás. As calçadas ficavam repletas. Crianças madrugavam no intuito de exibir seus brinquedos. Meninos, meninas, bolas, bonecas apitos e cornetas, e uma algazarra maior quebrando a rotina infantil.
E foi exatamente num dia assim que me vi cercada de crianças curiosas querendo ver o brinquedinho exibido por mim. Imaginem, era uma galinha! Pequeniiiiiina, mas cheia de graça. Parece que estou vendo... amarela, com bico, pés e crista de cor vermelha. Mas, não era só isso, ela botava ovos. Só três, mas botava! tinha uma abertura com uma tampinha camuflada no alto entre as asas, era só apertar em cima que ela se agachava, e a cada apertada botava um ovinho que em seguida eram recolocados dentro da galinha. Esse com certeza foi meu brinquedo inesquecível.
Fui muito feliz com meus humildes brinquedos. Hoje sinto até uma pontinha de tristeza em saber que, em alguns lugares o Papai-Noel nem chegou a passar. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Charge da semana

Sinfrônio - Diário do Nordeste (CE)

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

A Rainha do Ignoto - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Publicado em 1899, A Rainha do Ignoto foi descoberta há pouco tempo pelo pesquisador e crítico Otacílio Colares, que prefaciou a segunda edição do romance em 1980. A obra de características fantásticas entre o mundo sertanejo e o cotidiano regional, tem a sua trama enriquecida com os costumes e tradições do interior cearense da época. O fantástico se apresenta de forma natural e é aos poucos aceito pelo leitor atento, que dificilmente não se deixa envolver pelo cativante enredo da rama. A Rainha do Ignoto é uma mulher vestida de branco que num barco desce à noite pelo rio Jaguaribe, e não deixa de ser uma fantástica aparição pelos seres bizarros e mágicos com que se deixa acompanhar. Conhecida por muitos como "Funesta" e por outros "Fada do Arerê", ela mexe com a imaginação e curiosidade de um rico moço recém-formado, vindo de Recife. Desde a primeira vez que a vê, Dr. Edmundo passa a tê-la quase como uma obsessão em sua vida. Saber quem é, o que quer e o que faz passam a ser as razões da vida deste personagem coadjuvante da trama. Governa esta aparição um mundo dominado por mulheres "as paladinas" que juntas distribuem aos humildes e necessitados os benefícios de que tanto carecem. Fundindo o imaginário fantástico às necessidades sociais e as opressões patriarcais que já tanto afligiam a nossa população. Quando já no fim do romance decide morrer. A protagonista deixa-se conhecer sem antes discursar, cantar e tocar. Todos os traços presentes em contos fantásticos parecem estar presentes neste trecho, é como se estas artes fossem um elo entre a fantasia e as durezas da vida real. O que mais impressiona no livro, são as metamorfoses dos seres que de humanos vão ganhando traços animalescos e por isso repelentes. Como metáfora da fantasia quando perdida o seu encanto. Natural de Aracati, Emília de Freitas viveu entre 1855 a 1908, com o falecimento do pai em 1869 transferiu-se com a família para Fortaleza. Estudando Francês, Inglês, Aritmética e Geografia numa conceituada escola particular, daí se deduz a grande ifluência ao realismo fantástico de contos e novelas européias da época. As fantásticas criaturas e a figura feminina que incorpora a personagem principal, fazem da obra A Rainha do Ignoto, um trabalho de rara preciosidade, não só para o período em que foi escrito, como pelo tema que não deixa de ser tão atual ao universo literário latino-americano e finalmente por ter sido escrito por uma mulher, escritora de rara verve narrativa. Emília de Freitas com esta obra, hoje apontada como pioneira do realismo fantástico no Brasil, entra para a lista das grandes escritoras de acurada sensibilidade do real e imaginário dentro da literatura brasileira. *PC*
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Frase do dia
"Eu sou mais velho do que ele, e sou da esquerda."

Marco Aurélio Garcia, presidente do PT, a propósito do que disse Lula a respeito de idade e tendência política

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Arroz e borboletas - Por Mário Serdan / Rio de Janeiro


Li uma notinha no jornal, muito pequena, que dizia que, na Austrália, o costume de jogar arroz nos noivos, quando eles saem da igreja após se casar, foi substituído por outro tipo de arremesso: agora os convidados jogam borboletas no casal. Vivas, eu espero.É um fato irrelevante e nem sei se é verdadeiro, talvez tenha acontecido uma única vez e já estejam dizendo que virou moda lá para os lados da Oceania, mas gostei da notícia, por todas as suas implicações.Arroz é comida, comida lembra fogão, fogão fica dentro de casa: tudo muitoprosaico. Arroz cru é duro, machuca. Sua cor é branco sujo, não deslumbra. E o mais grave: arroz não voa.Borboleta é o símbolo da transformação, é liberdade e cor. Borboleta não morde,não pica, não zumbe, não tem veneno, não transmite doença, não pousa em cima da nossa comida. Borboleta é mais bicho-grilo que o grilo, deveria ser a legítima representante da paz e amor.Arroz alimenta o corpo, a borboleta alimenta o espírito. O que é mais importante em um casamento?A gente sabe que as pessoas não casam apenas porque estão apaixonadas. Casam também para unir as rendas, dividir despesas e ter filhos, formando uma equipe hipoteticamente mais preparada para sobreviver. Não parece tão romântico.Quem dera casamento fosse mais leve, com menos comprometimento e mais fascínio,menos regras a seguir e mais espaço e liberdade para ser o que se é. Uma confraternização diária, uma troca de experiências e sensações individuais, uma colaboração espontânea entre duas pessoas, sem a obrigação da eternidade. Um acordo de estar junto na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, mas não necessariamente em todos os domingos, em todos os bares, em todos os cômodos dacasa, em todos os assuntos, em todas as situações, em todos os minutos, em todos os desejos, em todos os silêncios.Borboletas, com sua delicadeza e aparições raras, despertam o lúdico em nós. Já arroz é trivial e só é bom quando soltinho. *PC*

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Salada de Frutas - Por Beto Costa / Rio de Janeiro
Há uma semana aceitei o desafio de escrever um livro infantil sobre as frutas. O meu objetivo é passar para as crianças que, além da beleza e do sabor, há nelas um poder medicinal capaz de curar ou prevenir muitas doenças. Seria muito bom que a minha mãe tivesse me dado maçãs frescas raladas ou até o suco durante a fase aguda da faringite que tive aos treze anos de idade. Em vez disso, tomei um remédio horrível. Não sei se era antibiótico ou xarope, mas ainda faço careta só de me lembrar do gosto. Entretanto, as folhas a minha frente permanecem mudas. Não consigo escrever nada! Cada linha que consigo chegar ao fim é um alívio. Mas logo releio e nada faz sentido. Mais uma folha pro lixo. Já tentei fazer das frutas personagens, como numa historinha em quadrinhos. Mas logo descubro a diferença entre estórias e história.Uma chata dor de cabeça começou a me acompanhar. Talvez seja apenas um resfriado.Os dias vão passando e ainda não consigo fazer um capítulo sequer. Busco um atrativo. Um livro que seduza crianças e adultos. Já pensei até em montar um livro jogo, uma espécie de RPG, mas a editora não me disponibiliza tanto tempo assim. Aliás, o recado deixado há pouco na secretária eletrônica foi do propenso revisor do livro querendo saber uma previsão de entrega. Nada mais do que uma forma de pressão! Preciso de um suco de maracujá. Calmante melhor não há. Misturado com mel então... Que delícia! Contudo, se eu o beber agora, acho que irei dormir e isso não quero e nem posso. Nessas horas percebo como o tempo é precioso e cruel ao me negar a concessão de mais algumas horas.A verdade é que estou cansado. Por três vezes minha cabeça pesou pra frente, só parando ao bater no teclado. Foi quando esfreguei as mãos com força no rosto. Espreguicei todo o corpo e fui tomar um banho gelado. Algo havia mudado. Eu precisava escrever e pronto. Estalei os dedos. Me ajeitei na cadeira. E comecei a escrever. Consegui fechar o segundo capítulo dizendo que, embora muitos não saibam, o limão é uma fruta. E o seu suco evita a acne, a amigdalite, a asma, a faringite e a gripe. Tanta vitamina na pequena bolinha verde que Pedrinho fazia de malabares num sinal de trânsito para levar um dinheirinho extra para casa.Mas antes de começar o terceiro capítulo o sono foi mais forte. Cheguei o laptop pro lado e me rendi. Foi quando começou a minha viagem. A mais insólita de todas que já vivi. Caí numa espécie de País das Maravilhas. Todos eram frutas, menos eu. Entretanto, para continuar respirando naquele mundo, eu precisava me transformar numa fruta. Pelo menos foi o que disse o espevitado Morango, que antes de sair correndo me deu um beijo na boca. Naquele momento eu estava tonto e com um objetivo: me transformar numa fruta. Mas qual? E como?Admito ter me sentido sozinho. Tudo era muito louco. Comecei a andar. No começo pensei presenciar um forte outono, pois o caminho estava coberto por folhas secas. Mas com o andar percebi que era a Natureza me dando as boas vindas.Antes da primeira curva encontrei a Melancia chorando. Perguntei o porquê de tanta tristeza. Com a voz embargada e muito assustada com a minha presença, disse que não queria mais ser tão grande, pois era sempre a primeira a ser encontrada no esconde-esconde.
"- Ah, que isso! Você não é tão grande assim. O seu tamanho é proporcional às suas utilidades médicas".
"- Como assim?", ela perguntou enquanto enxugava as lágrimas.
"- Olha só, com o seu suco se combate a febre. Você ainda é muito proveitosa no combate a distúrbios no metabolismo do ácido úrico e a dores produzidas por ferimentos. Isso sem falar no reumatismo, que você tanto ameniza".A Melancia então reencontrou o sorriso. Às vezes, precisamos lembrar o quanto somos importantes para os outros.Ela então me desejou sorte e disse não me acompanhar por estar esperando o caminhão que iria leva-la à feira. Todavia, indicou-me um atalho.A estrada proporcionava um grande prazer, embora eu estivesse correndo contra o tempo. Tudo era fascinante. Muito ar puro e aquele cheirinho maravilhoso de natureza. O que mais me incomodava era não saber pra onde eu estava indo. Por isso, tanto fazia virar a próxima direita ou esquerda. Mas como é para frente que se anda, segui na reta.De repente, um susto. A Laranja havia espirrado. Olhei para o lado e antes que eu lhe fizesse alguma pergunta ela falou:
"- Não se assuste, jovem. Esse meu espirro é por causa dos agrotóxicos que vocês usam. Sabe, se um dia vocês entenderem que Deus nos fez perfeitos e não precisamos mascarar a nossa aparência, vocês humanos aprenderão o que é viver".O meu olhar espantado para a dona Laranja logo se transformou em admiração, apesar de tudo ser muito louco para a minha compreensão. De trás do laranjal aparece o viril Banana, mais conhecido como Fê, por ser rico em ferro. Na minha frente estavam as duas espécies mais procuradas e apreciadas pelos humanos. E o mais irracional era o papo deles. Pareciam velhos amigos.Quando o silêncio se fez presente, perguntei como eu apareci ali e ainda fui obrigado a aceitar uma missão. Diante dessas inquietantes indagações, a dona Laranja falou não entender o meu espanto, pois assim é a vida. Nesse momento, me senti curado do resfriado. A dor de cabeça passara. Enxerguei o meu íntimo medo.Mais confiante, as celebridades pediram que eu procurasse o professor Mamão ou a matriarca de todas as frutas, a rainha Maçã.Durante o caminho fiz algumas amizades e descobri que era mentira que eu precisava me transformar numa fruta para continuar vivo. Não devemos acreditar em tudo que nos dizem. Foi a lição que a doce Nêspera, muito indicada contra angina, me ensinou.Cansado, mas sem desistir, encontrei o professor Mamão. Talvez ele tenha esse status por ser uma das melhores frutas do mundo, tanto pelo seu valor nutritivo como pelo seu poder medicinal. Todas as frutas admiram os seus efeitos benéficos sobre os tecidos vivos.
"- Professor, me disseram que o senhor pode me ajudar a voltar pra casa. É verdade?". Não obtive resposta. Refiz a pergunta por mais quatro vezes e nada. Finalmente, um sinal. Andou em minha direção. Parou e perguntou:
"- Pra que tanta pressa de chegar, meu jovem?".
"- Olha, eu já estou cansado de nunca encontrar respostas. Eu quero apenas voltar pra casa e terminar o meu trabalho".O sério professor sorriu e com o ar sereno que lhe era peculiar falou que a minha ansiedade ainda iria me atrapalhar muito. Então, ele abriu uma porta e pediu para que eu entrasse.Com cinco passos a frente a porta se fechou. A sala tinha um trono vazio e um espelho que cercava todo o aposento circular. De dentro de um baú sai a matriarca Maçã.
"- É, menino, você já andou um bocado até chegar aqui, hein? Mas eu sabia que você chegaria. Sabe, você mudou muito desde a vez que caí sobre a sua cabeça enquanto passava férias na casa do seu avô. Naquela ocasião, você estava adormecido de tanto cansaço e fome, depois de inúmeras tentativas frustradas de tentar tirar algumas maçãs do pé, e não me comeu. Você me levou para casa para que a sua avó me cozinhasse bem picadinha e, ao misturar mel, desse o caldo quente para curar o catarro pulmonar da sua irmã. Hoje em dia você está muito objetivo e sucinto ao mundo. Eu quis trazê-lo aqui para lhe dar uma licença do real. Sinta-se. E perceba que o mundo é bem menos complicado do que você gostaria".Sem saber o que falar e fazer, apenas ouvi. Foi quando... Trim! Trim! Trim! O telefone me despertou. Que sonho mais real! No outro lado da linha, o diretor executivo da editora marcava uma reunião para fecharmos os próximos livros.Aceitei mais esse desafio por acreditar mais ainda em mim. Dizem que a natureza tem sempre a nos ensinar. E talvez seja por isso que a chamemos de Mãe Natureza. Ainda não sei bem, mas agora estou cheio de novas idéias para desenvolver os capítulos restantes. Afinal, é a minha assinatura que vai delimitar a fronteira entre o desejo e o devir. Mas antes irei fazer uma salada de frutas para o café da manhã. *PC*

Beto Costa é jornalista

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Frase do dia
"A sobrevivência de Waldir Pires no Ministério da Defesa é a prova definitiva de que, no governo Lula, niguém cai por incompetência."

Deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA)

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Iracema, o postal - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Ouço, em papo, os filhos e amigos seus, aqui em férias, alguns do exterior. Em pauta, a indignação com a Praia de Iracema: "Uma decadência, habitada por gringos e prostitutas", diz-me um deles. Alheio às noites, a frase me assusta. Quero ir lá! Draulio Araújo, professor da USP, deixando-me ao computador, em fotos, o registro das cenas de abandono, poupa o sogro de eventuais violências.
Com as fotos, invade-me um sentimento. Não a nostalgia da canção: "praia dos amores que o mar carregou". Nem o moralismo insano de condenar o apelo do amor, a seduzir o turismo. Mas a aversão ao insustentável "turismo à moda tailandesa". De repente, a "virgem dos lábios de mel", de Ale ncar, arquétipo da alma e hospitalidade dos cearenses, torna-se, ela própria, mercadoria a vender-se. E aí por toda parte, os sinais: nos saguões do aeroporto, nos halls dos hotéis, no relato dos taxistas. Iracema (o romance) bem que poderia ser cartilha de nosso turismo. Ali, o celebrar da paz, com a quebra da flecha, entre a "virgem" e o visitante "guerreiro branco", e o correr-guia de Iracema, pelas matas a partir do Ipu, por entre serras, litorais e sertões, mostrando a produção de nossa gente.
Reações já se esboçam a esse praticado turismo. No Ceará, "Iracema e iracemas" (diz-me uma aluna) já dele se envergonham. E, no Rio, hotéis já pactuam vender outro "postal carioca" que não o rebolar de suas mulatas: "relevos outros, mais relevantes, de sua paisagem".
Partilhei dos sonhos dos que, aqui, tentavam plantar o "Portal do Turismo Nacional", fazendo, do sol e da diversificada paisagem (natural e cultural), indústria a distribuir, com nossa gente, trabalho, renda e dignidade. Mas, se "habitado por gringos e prostitutas", será esse, um triste portal, de danosos "efeitos colaterais". Tal quadro há que mudar. Eleições já se avistam. O ambiente é propício! *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

terça-feira, 5 de dezembro de 2006

Frase do dia
"Cágado, animal duplamente prevenido contra a prosódia e o sistema de habitação. Traz consigo o acento e a casa de morada. E, finalmente: Filantropo - é aquele que fila o que é nosso para dar aos outros."

Neno Cavalcante, jornalista

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Festa da Padroeira - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Dia 29 de novembro Ipueiras se engalana para a festa da padroeira que tem seu final dia 08 de dezembro, dia consagrado a Nossa Senhora da Conceição.
Nove dias bate o sino chamando a população, tem bandinha, dobrados, marchinhas e muita animação.
O foguetório ecoa pelos quatro cantos da cidade. São os devotos pagando suas promessas. Entre rezas e ex-votos ofertados, os fiéis vão cumprindo o prometido, finalizando o ritual com o estouro repetido dos foguetes que em Ipueiras é tradição.
Após cada novena uma residência é contemplada com a visita da santa. Os mais fervorosos seguem o cortejo com seus cânticos em homenagem a Virgem Imaculada. Enquanto outros aproveitam as barraquinhas montadas para desfrutarem do que lhes oferece a animada quermesse.
Nessa época Ipueiras é visitada por parques e circos que chegam à cidade atraídos pela movimentação temporária.
É difícil participar desses eventos sem evocar o passado. Nunca vou esquecer o vendedor de pirulitos. Talvez eu me encantasse muito mais com a figura do vendedor carregando aquela tábua furada com os pirulitos encaixados do que com o próprio pirulito.
E mais, era sagrado. Toda garota tinha que exibir um vestido novo na última novena e outro no dia da festa. E se não tivesse? Era choro de moça, na certa!
O ponto alto da festa sempre foi a última novena. Uma imensa procissão tomava conta da cidade, o leilão enchia a praça com a figura marcante do leiloeiro oficial Mariano, que era mestre no ofício, e encantava a população com sua graça oferecendo as prendas.
É lógico que com o passar dos tempos as coisas mudam. Mas reconheço que Ipueiras, cidade centenária, faz jus a sua padroeira, Nossa Senhora da Conceição, fazendo sempre uma linda festa com grande participação de sua população essencialmente católica. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006