quinta-feira, 30 de novembro de 2006

O Comunicado - Por Beto Costa / Rio de Janeiro
Farol de milha, rodas cromadas e vidros negros contrastavam com o azul escuro de linhas elegantes do meu primeiro carro. Opala era sinônimo de conforto, espaço e desempenho. Ter um carro desse ostentava status. Todos queriam. Arrepios ainda sinto sempre que lembro da transmissão manual de cinco velocidades overdrive para o motor de seis cilindros. Eu era o maioral nos pegas de rua. Ninguém me vencia. O adesivo do vidro dizia: "O lado bom de comer poeira é poder ler esse adesivo". Porém, por fim nem tinha mais graça. Todos apostavam em mim. Não havia mais adversários. Atravessar a linha de chegada na frente só era bom por arrancar os suspiros das garotas. Eu nem ganhava mais tanto dinheiro! Tudo era muito amador. Tempo bom! Às vezes, sou dominado pela aflição de não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos.É, meu amigo! Se lembra do cuidado que eu tinha com você? Sentar no capô nem pensar. Eu passava tardes inteiras encerando, limpando e fazendo a manutenção geral para o fim de semana. Nós éramos uma dupla em tanto. Só existente na ficção. Havia até quem te chamasse de batmóvel! Eu odiava, mas para não dar asas à brincadeira eu ria e fingia que gostava.Quantas aventuras curtimos juntos. Esse pequeno amassado perto do farol dianteiro foi quando perseguimos o único ladrão que apareceu na cidade. Chegamos antes da polícia. Legal era quando tinha jogo do Mengão e não passava na televisão. Era só ligar o seu rádio que a galera logo chegava. Quando dava por mim já estava rolando o maior churrasco. Dá pra contar nos dedos da mão esquerda que garotas não conheceram o seu estofamento de couro. Quem poderia prever que um dia eu me casaria, hein? Quanto mais com a menina que sempre me chamou de exibido e nem olhava pra mim. Você nos levou à lua-de-mel. Foi a primeira vez que viajei para fora do estado. Conhecer o Rio de Janeiro foi incrível. Ninguém me tira da cabeça que foi na Floresta da Tijuca, enquanto esperávamos a chuva passar e ao som do toca fita novo, que Eduarda, minha primeira filha, foi germinada.Meu filho caçula perguntou uma vez de onde vem tanta devoção. Respondi que não precisava sentir ciúmes e o abracei forte. Mas quer saber? Acho que a minha paixão - melhor, o meu amor, pois paixão nenhuma dura tanto assim - começou no dia 22 de abril de 1979, quando meu pai me levou ao autódromo de Tarumã, no Rio Grande do Sul, para assistir à primeira prova do Campeonato Brasileiro de Stock Car. Fiquei completamente fascinado com os pilotos, os carros, o glamour... Tudo era perfeito. Eu respirava o ar de sofisticação e desempenho. Antes dos carros partirem para a volta de apresentação os pilotos acenaram ao público. Tenho certeza que o sinal de positivo do número 16 foi pra mim. Um menininho loirinho de dez anos de idade, esperto e muito curioso. Era assim que muitos me conheciam. Naquele dia cheguei em casa e pedi ao meu avô, o Coronel do vilarejo onde morávamos, um Opala. "- Vô, eu quero ser igual ao Ingo Hoffmann e ao Affonso Giaffone Júnior". Com um sorriso sereno ele riu e me pediu calma. Perguntou o porquê de tanta aflição e passou a tarde contando histórias. Acabei esquecendo de ser piloto, mas o meu sonho de consumo nunca deixou de ser o carro que refletia o próprio desenvolvimento da indústria automobilística brasileira. Caramba! A sua geração foi demais! Em 23 anos de vida a família Opala virou sinônimo de um conceito que atendia as necessidades do consumidor cada vez mais exigente. Você foi chamado de bonito por dentro e por fora, possante, silencioso, espaçoso, seguro, forte e clássico. Ao volante me sentia avassalador. A minha virilidade se convencia ser a mais audaz, bastava acelerar. Aos poucos você se tornou uma extensão da minha personalidade. Acessórios e os novos equipamentos tinham a minha cara. Deixei de pagar a conta de luz e água para comprar esse novo cano de descarga. Todos o conheciam pelo ronco do motor.Nossa, quanta loucura! Talvez não haja dito popular mais verossímil do que "recordar é viver". Acordei cedo hoje. Vim para a garagem e perdi a hora. Sabe, meu amigo, estou chateado. Você sabe que amanhã nesse horário nós iríamos viajar, né? Toda a família reunida rumo ao nordeste. Seriam horas na estrada. Voltar a experimentar aquela sensação de liberdade era tudo o que eu precisava. Não me olhe assim. Eu sei que tenho andado muito estressado. Casamento, três filhos e trabalho têm sido o motivo dos meus cabelos brancos. Que bom seria se eles fossem como a sua pintura. Entretanto, o filho do meio, aquele que nasceu aí dentro, ficou de recuperação mais uma vez. Esse é o motivo por não tirá-lo da garagem para uma nova aventura. Espero que entenda. *PC*

Beto Costa é jornalista

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Frase do dia
"Estou com a corda no pescoço. O senhor quer que eu simplesmente estique a corda?"

Gedimar Pereira Passos, um dos que tentou comprar o dossiê contra o PSDB.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

O Grilo Maestro - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Amadeus era um grilo pequeno e magro que vivia de lago em lago até que vinha a seca e então se mudava para outra região mais úmida.Tinha a voz fininha e por mais que se esforçasse pouco barulho fazia e quando à noite o coaxar dos sapos começava, fazendo toda a floresta parecer tão viva quanto o dia, ninguém mais o escutava.Mas os sons dos sapos não passavam de barulho sem ritmoAmadeus achava que aqueles sons podiam ser harmoniosos e queria ser o maestro desta nova melodia. Isso mesmo, queria ser maestro de canto de sapos e procurava gritar mais alto para ser notado.Um dia conheceu uma rã que lhe mostrou como fazer para emitir sons mais altos e ensinou-lhe a estranha língua universal dos sapos.Depois de muito treinar, Amadeus foi aprovado pela sábia rã e apresentou a ela suas composições.A rã ficou muito admirada e começou a divulgar o talento do grilo Amadeus pelas lagoas.Então, numa noite enluarada de céu repleto de estrelas piscando, acompanhado de dez sapos separados numa lagoa, Amadeus começou sua carreira como maestro, primeiro testando as notas, depois começaram a cantar o hino à lua.Todos os insetos aproximaram para olhar e admirar o talento daquele grilo chamado Amadeus.A rã estava orgulhosa e depois de muitas e muitas noites apresentando várias composições que fazia toda a lagoa aplaudir, o grilo Amadeus recebeu do mais velho sapo da região o título de maestro dos lagos.Amadeus agradeceu, mas sem esquecer a rã que o ajudou, fez dela sua assistente.E assim por muitos anos os sapos tiveram como maestro um grilo, que com suas composições fazia das noites na lagoa um lugar de muita alegria.E o tempo passou e passou e a obra do grilo Amadeus continuou na lembrança dos sapos que vieram quando ele se foi, assim, graças ao grilo compositor, os sons dos sapos ficaram mais belos e ricos. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Frase do dia
"As pessoas o respeitam, mas ao mesmo tempo querem que o PT fique preservado."

Arlindo Chinaglia, sobre o possível retorno de Berzoíne à presidencia do PT

sábado, 25 de novembro de 2006

A dor do jornal - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Entre as "Frases da Semana", lá estava, naquele domingo, em O POVO, uma de artigo meu, Greve dos Professores: "Observo troféus, medalhas, produção intelectual. Após a maior comenda educacional do Estado, aluna me joga em rosto, na classe: aprendi com o senhor, como não ser professor!". Nem pude vê-la. Dor física inesperada levou-me à UTI. Em minha rua, programada palestra sobre carros de som virara demonstração, estuprando-nos ouvidos e direito dos cidadãos. Madrugada, evoquei a lei do silêncio. Jovens, já inebriados por coquetéis de arrogâncias e fortes doses etílicas (no mínimo), me levam ao deboche. Proclamam que a rua é do povo, sem atentar para o tributo pago pelos que ali moram (IPTU, iluminação pública, segurança dita pública e privada). No hospital, de paciente impaciente, senti-me gente. Profissionais ali haviam passado, de alguma forma, por mim. Julguei até alucinação, mas, na UTI, enfermeira me pôs ao ouvido seu celular, onde voz amiga me falava, da Europa, de proteção pelas "forças do alto". Isso, em meio à permuta de fotos de cá e de lá. Ao voltar para casa, um médico me fala de amigo importante a me proteger: Deus! Brinco: "ele me deixou em recuperação, para que eu corrija meus erros". Vou a uma igreja. O evangelho do dia fala de fim dos tempos. O frade traduz: aviso para o repensar de nossas relações com Deus, a natureza e o próximo. A UTI me devolvera solidariedade e sorriso. Professores (sobretudo aposentados) me convidam para que, com eles, repense tais relações. Em casa, volto a CD de Celso Furtado, nos Encontros Culturais da UFC (UFC/ O POVO, 1983), quando abraçamos aqui o verbo 'mudar'. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Frase do dia
"Se essa notícia não for melhor esclarecida até semana que vem serei obrigado a vir aqui e dizer olhando no seu olho (senador Suplicy) que o presidente Lula é um mentiroso, é um farsante, é uma das maiores farsas que este País já teve, e está fazendo, na história do Ceará, com o povo do Ceará, uma montagem e uma mentira que um homem público não poderia fazer nunca neste País."

Do presidente do PSDB, Tasso Jereissati (CE), revoltado com um suposto cancelamento da construção de uma siderúgica da Petrobrás no Ceará.

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

Evocações da feira antiga - Por Walmir Rosa / Fortaleza


Voltei à Ipueiras antiga, com sua "reportagem" sobre a feira de Ipueiras, querida Musa Dalinha .Revi o calçamento de pedra marron, desigual, do quarteirão defronte ao mercado, no ficavam, do lado esquerdo da Rua Padre Angelim, o Armazém do Seu Sebastião Matos, chefe político da UDN, a loja de tecidos do Seu Edmundo Medeiros; a Farmácia do Seu Idálio, a loja A Pernambucana (depois loja do Zé Morais, a Farmácia do Nilson, o Armazém do Seu Pedro Aragão, chefe político do PTB, e o armazém do Seu Raimundo Aragão, pai deste último). Do outro lado, no Mercado, dentre outros, os estabelecimentos comerciais, de Aquiles Lima, Moacir Mourão, Antônio Luciano...
Passeei, como fazia em menino, por entre surrões, sacos e jacás de gêneros alimentícios e frutas diversas, comi pitombas, chupei pirulito, comi manzape. A propósito do manzape, só não senti mais saudade do gosto porque, recentemente, em conversa com um grande amigo, Basílio, das bandas do Crateús, sobrinho do Pedro Basílio, grande jogador do Fortaleza em outros tempos, ligado aquele a Ipueiras por seu descendente de Antônio Severo e José Severo, disse-lhe que tinha muita vontade de experimentar novamente o gosto do manzape, do meu tempo de menino.
Prestimoso, em viagem a Crateús, sua terra, trouxe-me um pedaço de manzape, com as devidas desculpas de que tinha reservado para si o pedaço maior, porque nele, também, as audades das comidas de criança eram muitas. Resgatei o manzape, que para estrangeiros é o mesmo pé-de-moleque, com a variação coco-da-Bahia para coco-babaçu.
Realmente, a feira antiga dava ênfase aos produtos locais. De estranho, mesmo, só os retratistas, que montavam seu equipamento fotográfico lambe-lambe próximo à parede lateral do Armazém do Seu Sebastião Matos e documentavam a fisionomia dos fregueses, habilitando-os à cidadania, seja com a obtenção de um título eleitoral, uma "Carteira do Ministério", (Carteira Profissional ou hoje, Carteira de Trabalho). Nesse tempo era incomum alguém da cidade possuir Carteira de Identidade, que só se "tirava" na Capital. Nunca vi uma, até sair de Ipueiras.
A feira, hoje, perdeu suas origens. Em todo lugar, é uma mesmice. São confecção, bordados, sapatos, sandálias, ferramentas, disco pirata de CD e DVD, artefatos de moda. Enfim, consome-se muito, mas come-se pouco. Só frango de granja, frutos e verduras das Centrais de Abastecimento (até uva e maçã tem, que a gente só conhecia de nome, nem de retrato). *PC*

terça-feira, 21 de novembro de 2006

Frase do dia
"Se depender do governo, o fim da reeleição deve ser discutido. A posição do governo é que é oportuno discurtir o fim da reeleição."

Do ministro das relações institucionais, Tarso Genro

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

O cupido e a pombinha - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Contam que, certo dia, de noite escura e vento frio, apareceu no céu uma linda estrela de brilho intenso. Era tão reluzente, tão luminosa e piscava aceleradamente encantando admiradores, que, de boca aberta e olhos erguidos, presenciavam a chuva de gotas prateadas escorrendo a cada piscada, feito uma cascata bordando o infinito. Foi quando um senhor de idade avançada, ouvindo as indagações e a admiração diante de tanto encantamento, respondeu:
- Isto é um fenômeno que acontece de tempos em tempos nessa aldeia.
Reza a lenda que, há muitos e muitos anos que, aqui neste mesmo lugar, era apenas uma floresta. Onde árvores e pássaros de muitas espécies ainda existiam, aconteceu um caso inusitado, que comoveu seus habitantes.
Uma linda pombinha, branca como as nuvens lá do céu, apaixonou-se por um belo cupido de penas negras aveludadas. O casal atraía e encantava a todos com seu bailado no ar.
A família da pombinha não entendeu aquele amor e engaiolou a pobrezinha para o desespero do cupido. Triste na gaiola, a pombinha, deixou de comer e beber, e acabou por morrer. Não demorou muito tempo e o cupido teve o mesmo trágico fim.
Nunca mais se avistou no céu o vôo em preto e branco em promessa da miscigenação. Mas, no ar, permaneceu a história de um grande amor, marcado pelo racismo e pela incompreensão animal.
E foi assim que a mãe-da-mata duende, que preside aos destinos da fauna e da flora, uniu para sempre o casal. Transformou o cupido na noite negra. E a pombinha, em estrela brilhante, chorando em cascata no céu. Chorando de alegria, por ter de volta o seu amor. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Se meu fusquinha falasse - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


Hoje acordei com uma sensação gostosa, uma cosquinha na barriga, como se eu pudesse ser melhor em tudo. Percebi o quanto sou livre e que nem por isso enxergo as cores que me cercam. Abri a janela bem devagar para não acordar a minha esposa e disse: "Seja bem-vindo, sábado". Por alguns instantes brinquei de fazer desenhos em nuvens. É inexplicável, mas a minha vontade era voar. Desci as escadas de pijama e fui direto à garagem. Acendi as luzes e o vi. Amigo de todas as horas, 1300cc me esperando. No capô improviso um espelho. Meu cabelo não precisa mais estar arrepiado. O couro da forração interna era o carinho que eu precisava. Ponho as mãos no volante. Ensaio uma curva. Ajeito o retrovisor e fixo o olhar. É como se eu conseguisse enxergar o meu passado. Sem saber como a hipnose acaba. Olho pelo pára-brisa, não há reflexo. Nossa! Ainda tenho muito o que desbravar.Giro a chave. O motor responde. Acelero e o ronco me obriga a esquecer as dores do mundo. A caixa de direção lubrificada com graxa me encoraja a pisar na embreagem e a passar a primeira.Eu preciso estar só com o meu amigo. Eu preciso desse momento só nosso. Piso fundo. Quando o portão automático sobe, um suspiro toma o meu corpo emprestado. É como se eu não precisasse de mais nada.Quinhentos metros depois a primeira dúvida, um cruzamento. Qual caminho escolher? Difícil quando não se sabe pra onde ir.Sigo o vento. O meu amigo lembra que só posso ir até a quarta. Não há motivos pra correr. No semáforo vermelho vejo como demorei para compreender que tudo tem a sua hora. Atenção! Luz verde. Foi dada a largada. Mas há pessoas na faixa de pedestre. Dane-se! Eu não as conheço. Um pombo me envia um presente pelo teto solar. Nossa, como somos egoístas!Acelero com raiva. Não costumo olhar pra trás, mas pelo vidro traseiro os outros são somente pontos coloridos. Foi quando procurei no porta luvas uma fita k7. Encontrei um papel amarelado com a escalação do time de futebol da rua no campeonato de bairro. Ganhamos por dois a zero o primeiro jogo. Mas e a volta? Estávamos a 20km de casa. E só eu de carro. A euforia era tanta que todos entraram aqui. Até hoje não sei como. Parecíamos loucos gritando e buzinando por toda o trajeto.Por que será que o passado é sempre melhor do que o presente?De repente uma freada. Precisei usar os freios dianteiros a disco. Uma criança atrás do papagaio. É preciso muito cuidado no trânsito. A moça bonita que passava na calçada olha assustada e sorri aliviada. Ah, o meu primeiro amor! Época de grandes indecisões. A faculdade parecia não ser o meu maior desejo. Mas a carona de volta pra casa era o que me motivava. Uma vez ela disse que gostaria de alguém que a cuidasse assim como eu cuido de você, amigo. Lembra-se? Tenho certeza de que as batidas do meu coração soaram mais alto do que a sua dupla carburação. Aquele foi o meu primeiro beijo. Você acredita que ainda sou capaz de senti-lo? Quantas coisas já passamos juntos. Nós éramos os reis dos pegas do subúrbio. Na curva do Diabo nem desacelerávamos. Acho que eu poderia escrever um livro.Passado o susto, continuo. Não passarei dos 50km/h. Quero apenas curtir o momento. Olho pro lado e sinto falta da mata nativa dali. Nos outdoors a oratória é pela ganância. Época de eleição. Poxa! É fim de semana e mesmo assim todos correm. Pra que tanta pressa? Há coisas que nunca mudam.Olha que coincidência. A placa desse carro é bem o ano do nascimento da minha primeira filha, Vitória. Viro à esquerda. Lembrei que o seu pisca dianteiro não está funcionando. Preciso lhe dar mais atenção. Admito estar meio ausente. Mas com certeza você ainda se lembra do grito de guerra que toda a turma dava após os luais de reencontro: "Um amigo é exatamente como o sol. Não precisamos vê-lo todos os dias para saber que ele ainda existe".Ficamos sozinhos nessa reta. Sabe, depois das histórias acesas descobri o quanto é artificial o paraíso. Tudo e todos são só fantasias da crua realidade. Desço o vidro do carona como se fosse possível desdar as voltas da vida.Antes de passar a terceira, um ímpeto e tudo pára. O motor não responde. No painel tudo apagado. O silêncio me apresentou à insegurança. Rua deserta mesmo de dia é perigoso. O único orelhão estava quebrado. Volto para o carro e bato com a cabeça no volante tipo cálice. Quanta loucura! Não preciso ficar tentando achar explicação pra tudo. A vida não é tão complicada quanto gostaríamos.Levanto a cabeça e meio desacreditado giro mais uma vez a chave. Tudo volta ao normal. O sorriso incontido dá lugar a uma gargalhada espalhafatosa. Aprendo a sorrir sozinho. Oh, meu amigo! Sempre você, hein?Perco alguns instantes olhando para todo o seu interior. Detalhes dos quais eu nem me lembrava. Em meio à contemplação perguntei-lhe se tinha idéia do que eu desejaria se me fosse concedido um pedido. O silêncio ainda era a trilha sonora. E, antes que eu passasse a primeira marcha, serenamente respondi que pediria qualquer coisa menos uma, que ele pudesse falar. Há coisas na vida que são para ser sentidas.Acelero, volto a andar. É hora de dar meia volta. Vamos voltar pra casa, meu amigo Besourão? Hoje à tarde temos um encontro no Fusca Clube. *PC*

Beto Costa é jornalista

terça-feira, 14 de novembro de 2006

Frase do dia
"Quando fui a Caracas (em 2003) e vi a televisão, voltei ao Brasil dizendo a mim mesmo que jamais havia visto meios de comunicação agredindo um presidente da República como você foi agredido. Jamais imaginei que isso poderia ocorrer no Brasil e ocorreu o mesmo, querido companheiro."

Lula

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

A Descoberta de "O Sertão" - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Há exatamente noventa anos, era impresso em Ipueiras pelo futuro historiador e imortal da Academia Cearense de Letras, Hugo Catunda Fontenele, o pequeno jornal "O Sertão". Na época Hugo Catunda tinha então dezessete anos incompletos, mas mesmo adolescente, já mostrava seu grande talento para o pioneirismo e a notável capacidade intelectual que lhe acompanhou até a morte, ocorrida em 7 de março de 1980, em Ipueiras. Impresso durante a I Guerra Mundial, há um artigo intitulado "A Guerra", no qual o autor, utilizando dados de Francisco Lins, escritor fluminense, mostrava os altos custos humanos e financeiros do terrível conflito. "É a triste verdade, e no entanto vivemos quase indiferentes a tantos horrores que de um certo modo nos afectam". Comentário tão atual nos dias hodiernos. Outros assuntos de "O Sertão" abordavam a vida social da cidade e notícias curtas, mas abrangentes do resto do País. Na última folha, os anúncios dominavam. As lojas locais como A Libertadora e a Loja do Povo tinham destaque, entre os menores um interessante: "Raul Catunda - Prepara com a máxima pontualidade retratos a crayon em ponto grande, (em letras menores), Preços Módicos". O jornal anunciava que era impresso três vezes por mês, custando a assinatura por trimestre 3.$.000. Cartas ao mesmo deveriam ser endereçadas ao "director". Estes dados foram retirados da primeira edição de "O Sertão", jornal de que não se sabe se teve outras edições. Encontrado nas ruínas da casa do historiador há cinco anos, pouco se descobriu da existência de outros números. O tempo que separa as gerações encarregou-se de silenciar esta pergunta, porém deixou claro para os ipueirenses que com merecimento Hugo Catunda ocupou nº 36 da Academia Cearense de Letras, cujo patrono é o Senador Pompeu. Apresentando um talento precoce, foi valorizado por Raimundo Girão no livro Apresentando um talento precoce, foi valorizado por Raimundo Girão no livro "A Academia de 1894" que o enalteceu dizendo ser seu estilo de aristocrático aticismo, e outras vezes de sabor euclidiano. Carlos D'Alge no livro "O Exílio Imaginário" relatou: Nertan Macedo encontrou um brilhante colaborador, e dessa amizade resultou a trilogia: O Clã dos Inhamuns, O Clã de Santa Quitéria e O Bacamarte dos Mourões. Citações de louvor ao notável historiador foram feitas por Raimundo de Menezes no seu "Dicionário Literário Brasileiro" e no "Dicionário de Literatura Cearense". A descoberta de "O Sertão" foi então para os ipueirenses e para a comunidade literária cearense um presente, talvez possa ser considerado a primeira obra impressa de um homem que em vida foi conhecido como escritor de punho seguro e detentor de uma linguagem concisa e sazonada pela técnica. (A primeira edição de "O Sertão" data de 17 de março de 1916) *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

sábado, 11 de novembro de 2006

Saudades do interior - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Sair do interior e enfrentar a cidade grande é uma missão quase impossível. Foi uma peleja danada.
Acenos e apitos de trem ainda martelam em minha cabeça num eterno revirar de saudades
Cidade grande, vida nova, novos e estranhos costumes.
Cama de solteiro afugentando-me o sono. A lembrança saudosa da rede, o pé na parede e o balançado a me embalar noite à dentro. A labareda da lamparina acesa atentando minha memória, ardendo em meu pensamento. Faltava a cantiga de grilo, o zum-zum-zum da muriçoca e o cantar repetido do galo.
Um pão diferente que em nada lembrava o pão do Vicente. (O Vicente, que era mudo, e depois falou, quando Nossa senhora em sua peregrinação passou por Ipueiras fazendo seus milagres.)
Se bem que, lá, o próprio pão, era artigo de luxo, pois muitas vezes escapei, com jerimum com leite, batata doce com leite, cuscuz com leite ou tapioca com manteiga da terra. Escapei no modo de dizer, pois eu achava mesmo era bom.
De vez em quando alguém mangava de mim. A nordestinidade denunciada na voz, era o motivo da mangação. Derramar, frouxo, acochado, bulir, eu tive que tirar do meu repertório. O Vixe eu tentei, mas era só me assustar que saia , Vixe Maria!!!!! Desisti...
Ainda bem que não fiz como uma amiga que perguntou onde era o monturo pra rebolar o lixo no mato.
Mas certamente dei outras mancadas.
A única coisa que realmente me deixou feliz foi deixar o penico pra trás. Aquilo era uma esculhambação, eu nuca acertava uma, e foi assim cheguei a conclusão que mijar fora do penico era minha sina.
E a Sentina? pense!!! Era ao mesmo tempo sentina e banheiro. No final do muro, ou seja, nos fundos do quintal. No meio aquele bojo quadrado com um buraco no meio. Vamos ser sinceros, até que a posição facilitava o serviço. Num canto, reservado ao banho, uma taxa, que era um grande depósito de água, feito de barro, com uma cuia boiando, cuia esta, que servia para rebolar água no corpo, um sabão feito em casa e uma bucha de pepino, e o kit banho tava completo.
Lembro-me como se fosse hoje dos remédios: Pra catarro nos peito, mastruz com leite. Pra inflamação de mulher, garrafada de malva ou casca de aroeira. Quando as crianças tinham febre era um chazinho de folhas de laranja com melhoral e sempre tinha um bolachinha para adular. O que eu não me conformava era com os purgantes que de tempos em tempos éramos obrigados a tomar, Chá de cidreira eu gostava, e também de erva-doce que era feito para os bebês.
E os carões? Meninos deixem de chafurdo! Olha esse furdunço aí! Essas tampas não deixam de me atentar, depois partiam para os bofetes e puxões de orelhas, e muitas vezes terminava em pisas.
Hoje eu posso dizer que aprendi muito na cidade grande, principalmente a sentir saudades do meu interior. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

sexta-feira, 10 de novembro de 2006

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Frase do dia
"Imagine se o Brasil não tivesse, na democracia, neste momento, um líder que tivesse a capacidade de diálogo que ele [Lula] tem."

Cláudio Lembo, governador de São Paulo

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Os dois brasis - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Observo, na TV, os debates eleitorais. Vaidades, arrogâncias, o eu e sufocar o nós. Cacoetes de outrora. Cenas de adolescente no sul, onde aprendi: vaidade (de vanus) é o oco. Humildade nasce de húmus (chão). No debate, quer-se Maquiavel, nos limites da ética. Mas o príncipe, vejo-o a descer a planície para entender o povo, e assim poder ser príncipe. Na TV, a Confederação do Equador: o perigo dos "dois brasis", a avenida paulista em closeup.
Intervalo. Vou ao computador. E-mail do Centro Internacional Celso Furtado, guru de toda uma geração, que, nos anos 80, trouxemos para seminário sobre perspectivas para o desenvolvimento do Nordeste (UFC, O POVO, Centro Industrial do Ceará). Tópicos a nos reacender crenças: "(...) Devemos a Furtado a compreensão da especificidade do subdesenvolvimento e o entendimento de uma questão central: os países da periferia do capitalismo estão condenados a "inventar" suas estratégias de desenvolvimento. Caso contrário, entregarão seu destino aos processos de reiteração e reprodução das condições que geram a dependência e o atraso". "(...) o homem tem meios para transformar o mundo, construir um mundo melhor, e de que esses meios estão ordenados pela ciência, decorrem do avanço formidável do conhecimento científico. Quando eu descobri a idéia de planejamento social, fiquei maravilhado e disse: é aqui que está o caminho, temos que sair por aqui. Para ordenar sua cidade, tem que ter um plano; então me pus a estudar planejamento." (Celso)
"Canudos (...) é um compromisso com a revolta moral e social, diante da miséria e da opressão..." ( André Haguette ) Antonios Conselheiros de outrora, hoje mais solidários e plurais, poderemos reeditar, de forma pacífica, com as armas da educação e do trabalho, a revolução social dos novos tempos. Esperamos! *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Frase do dia
"Antigamente era proibido falar contra o governo. Agora é proibido falar a favor."

Lula

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

A Cacimba da Irena - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro
Contam que lá pras bandas do Coité, no interior das Ipueiras, existe uma velha cacimba assombrada. É a cacimba da Irena.
Irena conhecida como mulher ranzinza, egoísta e muito estranha, nos tempos das águas escassas, cavou uma cacimba, onde todos os dias ia apanhar água para o consumo de sua casa.
O veio era muito bom, água transparente, saborosa e abundante. Mas Irena em sua truculência não permitia que ninguém se aproximasse da cacimba para usufruir a fartura das águas ali existente.
O tempo passou. Irena que não nascera para semente, certo dia veio a falecer. Com sua morte, os moradores da região não viam mais impedimento e tentaram apoderar-se da cacimba da falecida. Mas ninguém conseguiu levar uma só gota do precioso liquido.
Aqueles que se aventuravam a tal proeza, de lá saiam correndo apavorados deixando: latas, potes, cabaças e rodilhas. Pois, cada vez que alguém tentava se aproximar da tal cacimba era ameaçado por uma mulher de aspecto estranho que gargalhava estridentemente, acompanhada por uma cobra gigante que dava voltas e mais volta ao redor da cacimba.
Reza a lenda que a cacimba assombrada nunca secou, porém, ninguém jamais conseguiu retirar uma só gota de água da cacimba da Irena.Pois a cada tentativa eram intimidados pelos dois terríveis guardiões que dia e noite vigiavam o recanto da Irena. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

domingo, 5 de novembro de 2006

Frase do dia
"Na Bolívia, há libertinagem de imprensa"

Evo Morales

sábado, 4 de novembro de 2006

Saudades do Cine Azteca de Ipueiras - Por Bérgson Frota / Fortaleza
As cidades mais antigas do interior do Ceará em sua maioria tiveram no passado e hoje poucas têm, um cinema que em alguma época levou as fantásticas histórias da sétima arte para embalar a vida de seus habitantes. Ipueiras teve um cinema que deixou muitas saudades. Era o Cine Azteca. Muitos filmes foram passados na pequena e sempre cheia sala de projeção deste cinema interiorano. Havia matinês com os seriados americanos em preto-e-branco que sempre deixavam um gancho para continuação, sem falar nos famosos filmes de Tarzan que traziam para a garotada a imagem exótica e artificial da África e seus nativos. Fazia também a alegria da meninada os pequenos trechos de celulóide que sempre eram cortados das fitas e catados com avidez por eles, para depois fazerem seus próprios filmes. Era costume na década de 60 em Ipueiras ir ao cinema sábado à noite e também aos domingos. No Azteca muitos namoros nasceram e deles saíram vários casamentos. Na época em que a televisão era só uma novidade ainda distante o cinema levou para os ipueirenses filmes célebres e noticiários quase sempre de futebol do famoso Canal 100. Assim foi o Azteca durante quase toda a década de 60, porém antes mesmo de começar os anos setenta o cinema já não mais existia. A televisão que havia chegado na cidade, primeiro com o televisor público acabou com a magia da sala escura. Nesta época cinemas de outras cidades também fecharam, a rede de distribuição de filmes que muito lucrara restringiu-se às grandes cidades, finalizando um ciclo cultural que enquanto durou, beneficiou a muitos municípios. Hoje Ipueiras é uma cidade antenada com o mundo, porém o cinema não foi ainda plantado no seu atual desenvolvimento. Só o nome do primeiro e mais duradouro cinema ficou, e restou aos mais antigos a lembrança da tela branca do Azteca, que se enchia de cores e movimentos, sempre que as luzes eram apagadas, fazendo a fantasia dos filmes trabalhar a emoção na alma de seus inúmeros espectadores. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

quinta-feira, 2 de novembro de 2006

Frase do dia
"Se eu tivesse passado oito anos roubando aqui no Congresso Nacional, sendo cúmplice da roubalheira do Presidente Lula, sendo base de bajulação do Governo passado ou chafurdando na pocilga com os porcos da política, teria tido mais chance de ser eleita."

De Heloísa Helena do PSOL

quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Amor, autor de crimes perfeitos - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


O crime perfeito não é a tortura policial realizada aqui no Brasil. Não é a hiperinflação. Não é o filme hollywoodiano protagonizado por Michael Douglas e Gwyneth Paltrow em 1998. Também não faz parte de nenhum suspense de Alfred Hitchcock. E muito menos se baseia na falta de um vilão com nome e endereço. O crime perfeito está em abandonar a vítima no silêncio e em fazer da saudade um lugar para querer estar preso. Para tamanha destreza e sangue frio eu só conheço uma personificação capaz de crimes perfeitos, a nossa projeção no outro. E assim somos traídos, atingidos e condenados. Essas linhas tortuosas são narradas pelo autor Amor.
Aliás, quem nunca teve um amor? E o que pensar quando ele vai embora? Sentimento mais egoísta não há. Não deixa ao menos uma pista de como continuar. Cara-de-pau! Se foi por assim ir. Sem hesitar ou dar explicações. Como se tudo fosse normal. Quanta falta de consideração! Não se preocupou em como o cônjuge ficaria.
Que sentimento desalmado é esse que até ontem conjugava todos os verbos em apenas dois pronomes: eu e ela. Que sentimento mais nômade é esse que me presenteia com a indagação: será que alguma coisa minha nela ficou guardada? Dúvidas e questionamentos passam a dominar os pensamentos das vítimas.
Dissimulado, esse tal de Amor consegue cúmplices. Faz com que o Pretérito assalte o Presente em plena luz do dia. Tudo em prol de mais um passear pelo túnel do tempo. Aliás, é nesse momento que devolvemos os sentidos às palavras e tornamos possível pôr os pingos nos devidos is. Entretanto, viver dias em que nada faz sentido é mais normal do que se imagina, revela a pesquisa Desabafo.
Impune, o possessivo Amor não se preocupa com o tempo e muito menos com a intensidade de como dominará a próxima vítima. Dono de mil e um disfarces, faz-se de eterno amigo, compreensível e sensível. Apresenta um mundo de ilusão, onde se pinta o país das maravilhas. Não há escrúpulo para se conseguir mais uma presa. Ele seduz. Faz com que fiquemos cegos. Mas não esqueça: a sua missão é caçar. E na selva vence o mais forte.
Ditador, o seu golpe fulminante não nos concede o direito de reivindicar. Há quem relute. Não acredite. Há até aquele que quando se entrega já é tarde demais. Essa vítima, por sinal, é a que o astuto Amor mais gosta. Mobiliza e despreza. É quando ele caça apenas por se divertir.
É impressionante o arrojo do Amor! Aparece quando menos se espera e onde nem se imagina. O engraçado é que ele se considera charmoso por ser imprevisível. E isso mexe com o imaginário, principalmente das mulheres. O que as transforma em presas com pouca resistência.
O manipulador amor nos faz acreditar que a então cara-metade é a coisa mais próxima do paraíso a que chegaremos. Nos tira a força de voltar para casa. E transforma cada segundo em eterna guerra íntima.
Dominador de mentes, ele transforma um momento em verdades das nossas próprias mentiras.
Não há quem o defina. Poetas, escritores, historiadores já tentaram. Todavia, palavras precisariam ser inventadas.
Enigmático, ditador, manipulador, possessivo, dissimulado... Não importa como designar esse andarilho ancestral. No fundo ele sempre responderá ao crime de latrocínio. Afinal, ele rouba os nossos lindos planos. E isso tudo por quê? Para nos fazer chorar? Não! Ele não seria tão previsível. Ele nos obriga a conhecer a vida. Nos apresenta a Solidão e nos ensina que após um conto de fadas somente resta fechar o livro.
Porém, foi com o olhar perdido ao horizonte que compreendi a razão dos crimes. Entendi que ele quer que nos redescubramos a cada instante. Enxerguei a sua misericórdia, pois é Amor que cura todas as feridas e não o Tempo como muitos acreditam. Além disso, ele abriga todos os corações órfãos espalhados pela cidade. Nesse momento a lágrima incontida obrigou-me a perceber que talvez a culpa seja nossa. De querer ficar preso ao passado. De não admitir que tudo está em movimento. Talvez a culpa seja do Medo que nos faz ficar largados no sofá da sala com a tevê contando histórias aos quatro cantos. Talvez a culpa seja do Pensamento que nos ilude com a convicção de que há verdades absolutas. Ou talvez a culpa seja dos Devaneios que nos silenciam a certeza de que o Amor é evasivo.
Tudo bem! Não irei ficar tecendo justificativas. Não sou tão bom advogado assim. Contudo, de uma coisa eu sei: o Amor é onipresente. Por esse motivo, enquanto houver vida, seremos sempre alvos do seu olhar. Mas somente quando ele lhe der as costas por ter cometido mais um crime perfeito você entenderá limpidamente a pergunta que foi pichada nas paredes do crime: "Será que ela ainda pensa em mim?" *PC*

Beto Costa é jornalista