terça-feira, 31 de outubro de 2006

Frase do dia
"Dialogar faz parte da política. Não se corta o diálogo com ninguém. Mas isso não é abrir a porta para cooptação. Vamos fazer a mesma oposição que fizemos no primeiro mandato, uma oposição dura, enérgica, sem deixar de votar o que for fundamental para o País."

Do presidente do PSDB, Tasso Jereissati (CE)

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Choque Térmico - Por Mario Serdan / Rio de Janeiro
Uma pessoa fica duas horas jogando frescobol na beira da praia sob um sol africano: 38 graus. Terminada a partida, joga as raquetes para o alto e corre para um mar de temperatura siberiana, bem ao gosto dos pingüins. Resultado: choque térmico. Você não precisa fazer a experiência: quem já teve um grande amor e perdeu de um dia para o outro sabe como é. Você passa meses, talvez anos ao lado de alguém que aquece suas noites, que a faz queimar, derreter. Não é um forno de microondas: é seu namorado, que não precisa apertar botão nenhum para fazê-la arder, basta tocar no seu braço e temos um incêndio no quarteirão. Tudo é quente entre vocês: os olhares, os beijos e o resto, principalmente o resto. Vocês são pólvora, querosene, gasolina. Altamente inflamáveis. Imagine anos e anos nesse fogaréu, até que um dia ele telefona e diz que conheceu outra pessoa, que continua a gostar de você, mas como amiga. Choque térmico. Você, que vivia de camiseta regata e minissaia, passa a usar blusa de gola rulê, casacão e luvas, e mesmo assim não pára de tremer. Foi-se o calor. Você nunca o viu tão frio. Ele cruza com você numa festa e a cumprimenta com ar de quem já lhe viu em algum lugar, mas não lembra onde. Você liga para a casa dele e a ex-sogrinha querida diz que está sozinha em casa. Ao fundo você escuta Aerosmith a todo volume. Ou sua sogra está resgatando a adolescência perdida ou o cretino mandou dizer que não está. Você o espera na saída do trabalho. Você impõe sua presença. Você toca distraidamente no seu braço para ver se aciona a chama, mas entre ele e uma pedra de gelo, você colocaria ele num copo de uísque. Você ameaça se matar, marca hora e local, e fica sabendo que ele reagiu bem: disse que mandaria rezar uma missa. Abominável homem das neves. Choque térmico. Você perde o seu amor, e com ele as labaredas, as faíscas, a transpiração que a fazia tomar três banhos por dia. Agora resta a solidão, o frigorífico, as águas do Pacífico. Você se sente nua em pleno Alaska. Você planeja fazer cinco horas de aeróbica e depois se atirar de um barco num lago congelado, um suícídio mais que simbólico. Mas eis que surge um salva-vidas de 1 metro e noventa e a cara do Leonardo di Caprio quando for adulto. Ele convida para um vinho. Oferece um cobertor. Bota lenha na fogueira. Choque térmico à vista, outra vez. Olhe pra você, já começou a suar. *PC*

domingo, 29 de outubro de 2006

Voto como direito - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza


Em pouco, iremos às urnas.O clima agora é bem outro. Política é !"coisa suja", a nos despertar asco e absenteísmo. Em vão, a Justiça Eleitoral põe em close up o voto como direito. Os partidários do voto como protesto e "recado" retraem-se. E a maioria busca os "menos corruptos", ante o quadro do "farinha do mesmo saco". Em casa, folhetos me pedem o voto, com a desculpa da invasão de meu lar. E, em público, candidato amigo me deixa, sem jeito, "santinho" seu... Afasto-me da TV e dos jornais. Mergulho em leitura. Nisso, Cláudio Ferreira Lima, por e-mail me envia "Um projeto para o Brasil: a força da unidade na diversidade", proposta do Cofecon, para debate, nesta eleição, com vistas à construção de um projeto assentado no desenvolvimento sustentável: "um crescimento econômico eficiente e racional, que respeita as pessoas e os limites da natureza". Em tudo, do prólogo ao fecho, com vistas ao debate das grandes questões nacionais, sob a pauta do "retornamos a Celso Furtado: O valor do trabalho de um economista, como de resto de qualquer pesquisador, resulta da combinação de dois ingredientes: imaginação e coragem para arriscar na busca do incerto". Tal porto, nos versos de Eduardo Galeano citados: "Onde se recebe renda per capita? Tem morto de fome querendo saber. Em nossas terras, os numerinhos têm melhor sorte que as pessoas. Quantos vão bem quando a economia vai bem? Quantos se desenvolvem com o desenvolvimento?" Por fim, o legado de Celso, em suas proféticas palavras: "Os países da periferia do capitalismo estão condenados a 'inventar' suas estratégias de desenvolvimento. Caso contrário, entregarão seu destino aos processos de reiteração das condições que geram a dependência e o atraso". E "dependência e atraso", não é, sem dúvida, o destino ..."deste País"! *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

sábado, 28 de outubro de 2006

Tempo de caju - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Num passeio de duas semanas, encontrei Ipueiras supercolorida e com um cheirinho especial de caju invadindo toda a cidade. Impossível não voltar aos velhos tempos e as boas recordações onde castanhas e meninos davam o tom às brincadeiras.A fartura das castanhas, assadas em pedaços de flandres furados, fazia a alegria da meninada, que participava de todas as etapas daquele ritual, sendo que a mais importante era a hora de saboreá-las.Ainda tenho presentes, em minha lembrança, os litros transparentes, cheios de cachaça, com um caju que boiava magicamente em meio ao liquido, deixando-me fascinada e, ao mesmo tempo, intrigada com o feito, por não entender, na época, exatamente, como a fruta entrara ali.Contudo, a melhor recordação, era o jogo de castanhas, que acontecia assim: uma dupla com seus saquinhos de castanhas. Um colocava um torno, (que era uma castanha grande) e o outro começava o jogo, que nada mais era que se atirarem castanhas alternadamente tentando acertar o torno. O primeiro que acertasse enchia a mão levando todas as castanhas atiradas.Se as recordações do passado ainda me encantam, o presente não deixa por menos. Cajueiros mais exibidos do que nunca apresentam hoje espetáculo maravilhoso que só mesmo a natureza seria capaz de produzir. Em pleno calor de outubro, o sertão com sua paisagem já amarelada passando a um marrom acinzentado, típico dos tempos secos, aparecem os verdes cajueiros a fazer contraste com a fartura de árvores ressequidas.Aos meus olhos que sempre se encantam com as coisas do sertão, o cajueiral em sua pujança mais parecia grandes árvores de natal, fora de época, com suas bolas multicores atraindo pássaros das mais variadas espécies dando um colorido fascinante ao show patrocinado unicamente pela natureza em sua peculiaridade.A feira também se encheu de cor, pelo chão, cajus, amarelos, vermelhos, alaranjados, pequenos, grandes compridos. O colorido, o cheiro e o preço baixo pela larga oferta eram um convite. Difícil não sair carregando sacolas e mais sacolas da fruta da época.Era comum chegar à casa de amigos e ser agraciada com latinhas de doce e refrescar a garganta com o suco do momento e até levar uma garrafa de cachaça com caju da safra passada. O nordestino, principalmente o do interior, é dado a essas gentilezas.Se o jogo de castanhas se perdeu no tempo, o doce de caju, o suco, a cajuína, a castanha assada, a cachaça com caju estão aí a nos dizer que sempre será tempo de caju em nosso querido Nordeste. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

sexta-feira, 27 de outubro de 2006

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Frase do dia
"E o taxista curioso: "Doutor, será que desta o Lula se Freud"? "

Raimundo Nonato

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Dia do Cirurgião-Dentista - Por Ivan Fontenele Meira / Ipueiras


Dr. Francisco Dias - PSF Ipueiras

Outubro é, sem dúvida nenhuma, um mês muito especial para todos nós.
O dia 25 de outubro é dedicado ao Cirurgião-Dentista e na oportunidade queremos prestar homenagem à classe odontológica do município de Ipueiras com a certeza de que não temos muito o que comemorar.
Nesta data, em 1884, foi assinado o decreto nº 9.311 que criou os primeiros cursos de graduação de odontologia do Brasil, no Rio de Janeiro e na Bahia. E, por meio de uma portaria, o Conselho Federal de Odontologia tornou a data oficial para a comemoração do Dia do Cirurgião-Dentista brasileiro. Profissão regulamentada na Lei nº 5.081 de 24/08/1966.
Nestes 122 anos de historia muitas coisa mudaram. As técnicas, e principalmente as tecnologias, revolucionaram o modo de se fazer odontologia e os nossos profissionais ganharam destaque mundialmente por sua qualidade. Contudo, algo continua semelhante desde a época do império: A desigualdade no acesso e o nível baixo de utilização dos serviços odontológicos.
A criação de mais de 150 faculdades de Odontologia não resolveu esse problema histórico. O numero de faculdades no Brasil é tão exagerado que supera a soma das faculdades dos Estados Unidos, Canadá e México. A crise pela qual passamos é resultado de uma visão política míope do Estado em relação à Odontologia, que é muito pouco representada politicamente. Deste modo, o Estado transfere o problema de levar a saúde bucal para os Cirurgiões-Dentistas, pela incapacidade do Estado de cumprir com o seu dever de garantir a todos o direito à saúde.
Contudo a Odontologia, da qual tanto nos orgulhamos florescerá num cenário mais promissor e neste dia quero deixar minhas mais eloqüentes palavras aos novos colegas que aqui aportaram, palavras de estimulo, palavras de confiança num futuro de paz, harmonia e muita perseverança.
Por uma feliz coincidência data de aniversario do município que completa 123 anos de emancipação. Parabéns ao município e principalmente aos colegas que aqui trabalham.*PC*

Dr. Ivan Fontenele Meira é especialista em Saúde Pública
Decano dos Cirurgiões - Dentista do Município de Ipueiras

terça-feira, 24 de outubro de 2006

O Poeta das Ipueiras - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Em 28 de julho de 1926 nascia em Ipueiras um dos seus mais célebres filhos , Jeremias Catunda Malaquias, filho de Luís Malaquias e Maria Catunda.
Sendo o primogênito de uma família de cinco filhos este poeta, cronista e escritor dedicou toda a sua vida a divulgar sua terra com um ardor tão raro nos dias de hoje que poderia chamar-se quase uma obsessão.
Jeremias Catunda é membro da ACI(Associação Cearense de Imprensa) tendo sido distinguido com o "Chevron" de ouro pelos seus 40 anos de atividade jornalísticas sendo sócio fundador da Associação Cearense de Jornalistas do Interior, escolhido e premiado em seis congressos da classe como um dos mais atuantes membros.
Sócio correspondente da Academia Sobralense de Estudos e Letras, foi correspondente dos : Diários e Rádios Associados, O Povo, Diário do Povo, Gazeta de Notícias, O Estado, Correio da Semana, Gazeta do Centro-Oeste, Folha Regional, Revista Itaitera do Crato, Almanaque da Parnaíba, Ceará Rádio Clube, Dragão do Mar, Radio Tupinambá, Iracema e Rádio Vale do Rio Poty de Crateús.
Vereador em três legislaturas seguidas 1947/56, sendo até hoje o mais novo representante do povo na Câmara, eleito em 1947 com 21(vinte um) anos obtendo em 1954 mais de 10% dos votos apurados.
Por ocasião do Primeiro Centenário do Município, ocorrido em 1983, publicou "Ipueiras, uma síntese histórica" e em 1985 na Primeira Semana Cultural de Ipueiras lançou o seu livro poético : Versos Versus Minha Vontade.
Foi escrivão e coletor da Coletoria Estadual de Ipueiras, escriturário do DAER (hoje DERT) e inspetor de linhas telegráficas do DCT.
Jeremias Catunda Malaquias é hoje uma figura das mais valiosas no campo cultural de Ipueiras, seu trabalho fruto de um grande amor pela terra natal rendeu no último aniversário da cidade em 25 de outubro passado, uma detalhada e rica homenagem de Francisco de Assis Lima (Fury), que no alvorecer do aniversário de emancipação política de Ipueiras narrou pela já lendária rádio "Vale do Jatobá" o seu trabalho intitulado "O Fascínio das Palavras".
No ano em que o grande poeta, jornalista e contista comemora 80 anos, Ipueiras se queda em gratidão a mais um filho que fez da vida um grande discurso de amor inconteste à terra natal. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

Frase do dia
"O Brasil é mesmo um país alegre. O São João ficou longe, mais a quadrilha continua."

Raimundo Nonato

sábado, 21 de outubro de 2006

Voto, o senhor das armas! - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


Eder - A Charge Online


Até as eleições de 2006, eu, sinceramente, acreditava que política poderia coexistir com idealização, ou seja, eu cria na possibilidade de projetar, planear, planejar, programar... A minha ingenuidade era tamanha que até a apuração de todas as urnas no dia 2 de outubro eu visionava um sonho em verde e amarelo. Mas acho que ninguém mais sabe o significado das cores da bandeira brasileira. Talvez tenha virado lenda! Assim como o hino nacional, que alguns jogadores de futebol lembram de cantar antes das partidas oficiais.
Com a aprovação popular de alguns candidatos como: Clodovil Hernandes e Frank Aguiar para nossos representantes, percebi que o voto é a maior das armas brancas inventada pela tal Democracia. Aliás, que Democracia é essa que nos obriga a votar? Ah! Talvez seja por isso que alguns candidatos eleitos nem saibam qual é a função do deputado federal. A maior preocupação é saber de qual cor será a mesa e quantos dias se é obrigado a bater o cartão de presença.
Acreditem! O meu sorriso, ao virar a página do jornal, foi de nervosismo. A liberdade do ato eleitoral está me apavorando. Antes de começar a leitura da página seguinte, um amigo toca o interfone. Eufórico, ele diz pra eu descer. Um abraço caloroso foi a minha recepção. Extravasando uma felicidade presenciada somente quando o Flamengo foi campeão brasileiro, ele desvela o motivo de tanta alegria: o candidato que fez o churrascão aqui na comunidade havia sido eleito. Logo, o novo emprego estava garantido. Perguntei sobre o candidato da coligação que havia empenhado a palavra em construir a linha do metrô passando por debaixo d'água pra nos ligar à cidade vizinha. "- Sim! Ele também entrou!", gritava o amigo, dizendo ser um milagre dos céus. Naquele instante, entendi como os votos são comprados e como a moeda promessa é forte.
Ao retornar à minha rede na varanda, volto às páginas que soltam tinta. As comparo com o nosso sistema legislativo cada vez mais desbotado. Mas fitando os olhos sobre as linhas, uma surpresa! Oito acusados de ligação com mensalão são eleitos deputados. Forcei a minha vista! João Paulo Cunha (PT-SP), José Mentor (PT-SP), Vadão Gomes (PP-SP), Sandro Mabel (PL-GO), Pedro Henry (PP-MT), Paulo Rocha (PT-PA), Valdemar da Costa Neto (PL-ES) e José Genoíno (PT-SP). Eu não acreditava no que estava lendo. Paulo Rocha e Valdemar Costa Neto renunciaram aos respectivos mandatos no ano passado para evitar processo de cassação. Não! Só pode ser uma pegadinha! E o José Genoíno? Deputado federal? Será que é verdade quando dizem que o povo não tem memória? Lembro que a minha mãe sempre dizia que a alimentação balanceada é um dos pré-requisitos importantes para se ter uma boa memória. Mas fazer o quê? A mãe gentil da população está cada vez mais prostituída de valores.
A indignação, de alguma maneira, me obriga a continuar a leitura. É quando arregalo os olhos com a notícia: "Eleito senador, Collor sinaliza apoio ao ex-adversário Lula". Não é possível! Algum colega trocou o meu jornal na portaria do prédio. Senti-me na obrigação de fechar o jornal. Incrédulo, liguei o rádio no noticiário. E a boa notícia foi que os candidatos esdrúxulos fracassam nas urnas. Nomes como Super Zefa, Super Moura e Katielly, o transformista, não constituirão o Congresso Nacional. Essa reposta popular traz a esperança de que ainda não perdemos por completo o discernimento de que os nossos governantes não têm apenas a função de servirem como chacota.
Entretanto, o meu contentamento não dura muito... O locutor diz a hora. Caramba! Daqui a pouco tenho que pegar as crianças na escola. Estar de férias me traz outras responsabilidades. Mas antes decido ir ao bar da esquina beber um refrigerante para amenizar o calor provocado pelo caos.
Ao chegar, o balconista já vai dizendo: "- O seu guaraná tá super gelado. Vai?". Após confirmar com a cabeça, ouço um grupo de jovens discutindo a eleição do Paulo Maluf. Um dos meninos se exalta na defesa do ex-prefeito de São Paulo e grita: "- Ninguém aqui tá discutindo o quanto ele roubou. Eu estou falando que, roubando ou não, pelo menos ele fez muita coisa para a população! Meu pai sempre me fala o quanto pior era o trânsito da cidade antes das obras que ele fez." Enquanto os ânimos se exaltavam, eu enchia o segundo copo e me perguntava se o meio justifica o fim.
Antes de deixar o dinheiro em cima do balcão e me despedir do pessoal, ouvi uma velhinha conversando com a outra que o presidente poderia contar o voto dela novamente. Afinal, ela não queria perder a bolsa família. A minha vontade era de compará-la com um porco, o qual troca tudo por um prato de lavagem... Nesse momento, descobri mais uma maneira de comprar votos.
Antes de voltar pro carro, vejo colado na parede o slogan "O Brasil é tão bom quanto o seu voto". Mexer com o ego dos pouco mais de 125 milhões de eleitores continua sendo o mais forte argumento da íntegra Justiça Eleitoral.
Já no caminho de volta, nem a bagunça das crianças no banco traseiro me tira do transe... Questionam-me sobre o que mais oferece senso crítico à população. Seriam os jornalistas, ou os políticos, ou a classe artística que vire e mexe pousa sem calcinha, ou os intitulados músicos intelectuais que afirmam que política é assim mesmo que formam opiniões? De que adiantou divulgar e apurar mensalão, sanguessugas, cuecão, CPI dos Correios dentre outros? Foi quando lembrei que na escola só aprendemos a manipular resultados. Olho pelo retrovisor e vejo o meu filho dizendo que quem não cola não sai da escola. Às vezes, sair do transe é doloroso! Ver o meu próprio filho corrompido quase me transformou em mais um sonâmbulo pessimista.
Ao chegar em casa, meus filhos perguntam se estava tudo bem. Respondo que sim. Os chamo pra perto de mim e saio correndo em direção ao elevador, dizendo que quem chegar por último será a mulher do padre.... Após a gritaria e a constatação de quem havia perdido o pique, ditei quais seriam as regras: tomar banho. Almoçar. Tirar a sonequinha de uma hora. Fazer os trabalhos do colégio. E brincar.Enquanto as minhas esperanças de renovações dormiam, decidi que a partir de hoje sempre haveria uma conversa sobre consciência política. É preciso que desde cedo saibamos diferenciar direitos de deveres. Quando isso acontecer, o voto não será mais uma bala perdida que mata os nossos sonhos de governar e legislar, como reza o regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição eqüitativa do poder, a Democracia.

Beto Costa é jornalista

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Frase do dia
"Ele (Alckmin) demonstra um outro lado, que é mais perigoso, que é o lado Pinochet. Essa ameaça de dizer que um governo não vai começar, um governo que será eleito democraticamente pela população, revela um lado mais Opus Dei do que um lado republicano."

Do ministro das Relações Institucionais Tarso Genro

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Eleições, reta final - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Eleições em reta final. Aos poucos, a nação parece acordar. Os papos revelam. De forma embora tímida, um horizonte se busca para o Brasil, para além do jogo fantasioso dos números esfacelados, a nos descrever líder entre as nações. Primeiro ímpeto, nos vermos "brasis" divididos: o das regiões ricas, a sustentar as mais pobres com seus pesados tributos e esmolas; e o dos pobres, a viver do imposto das ricas. Entre os pobres, o sentimento religioso revela-se nas romarias. Em Canindé, Francisco de Assis acolhe os menores. Ali, fala-se até na "ecclesia lascatorum" (a igreja dos lascados). Em Juazeiro do Norte, o "Padim Ciço" deixou entre os romeiros a dignidade do trabalho. Ali, todos têm sua arte, como Dona Ciça do Barro Cru. Os economistas vêem o Brasil, em produtiva pluralidade. Esse, o projeto articulado pelo Conselho Federal de Economia, onde "a força da unidade" reside "na diversidade". Projeto lastreado no "desenvolvimento sustentável": um "crescimento econômico eficiente e racional, que respeita as pessoas e os limites e potencialidades da natureza". Projeto assim há de resultar de pacto de toda a nação. E, nas pegadas de Celso Furtado, dar "prioridade à efetiva melhoria das condições de vida da população", o crescimento a se metamorfosear em desenvolvimento". Metamorfose que "não se dá espontaneamente" mas "fruto da realização de (...) expressão de uma vontade política". Que o marketing político e a mídia não nos iludam. Segundos não nos levam a projeto, mas a chavões. Vontade política nos tem a nós, cidadãos, como atores. Nenhum político é deus, líder do mundo, a tudo conjugar na primeira pessoa do singular. Política não se faz com o bloco do eu sozinho. Retomemos o nós e o coletivo. Só assim, partícipes, faremos da política algo mais que asco e ... "coisa suja"! *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

terça-feira, 17 de outubro de 2006

Frase do dia
"O que falamos do nosso adversário é o histórico da vida do PSDB. Não falamos nada a mais do que a imprensa brasileira constatou durante todo o mandato do presidente FHC e do mandato do governo Alckmin, que privatizou quase tudo que tinha em São Paulo e no Brasil."

Lula

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

"O mito gera a lenda e a lenda gera a história" - Gerardo Mello Mourão / Rio de Janeiro
Nesta parte da entrevista, Gerardo Mello Mourão fala de sua religiosidade e, citando Passolini, diz que "sem milagres o ser humano estaria privado da esperança e do sentido da vida"
- O que esse livro representadentro do conjunto da obra do senhor?
Gerardo -Creio que este livro é uma espécie de eco das palavras que compõem toda a minha aventura de escritor e poeta. Trocaria tudo o que sei e tudo o que escrevi pela sabedoria do pequeno alfaiate de aldeia que conversava com Deus e os anjos em sua aldeia dos Apeninos.
-O senhor é uma pessoa religiosa?
Gerardo - É claro. Até porque aprendi com Léon Bloy que a única tristeza que aflige a medula da vida humana é não ser santo. Eu não sou santo.
- De que maneira o fato do senhor ser cearense influiu nessa fé e, mais especificamente, nessa admiração por São Gerardo?
Gerardo -Acho que manter a fidelidade ao meu padroeiro é uma coisa da tradição familiar e religiosa do Ceará de meu tempo de menino. Meu avô se chamava José. Era o Capitão José Ribeiro Mello. Todos os anos, no dia de seu patrono S. José, promovia uma festa de arromba nas Ipueiras, e toda a tribo de Mellos e Mourões descia a Serra de São Gonçalo e da Canabrava, belo nome secular mudado hoje para Ararendá por algum político imbecil, e invadia o forró glorioso da casa do capitão. A propósito: a mania de mudar nomes de cidades e ruas no Ceará é uma praga cultivada pela ignorância de administradores e a vaidade ridícula dos bestalhões estaduais e municipais. Destroem a memória regional do povo e seu próprio patrimônio histórico. Estive recentemente nas Ipueiras. Vi, envergonhado, que mudaram o nome da rua em que nasci e onde moravam meu avô e alguns dos homens que fundaram a vida cívica e política da cidade. Tiraram da rua o nome original - rua Padre Feitosa - como tiraram o nome do General Sampaio de uma outra. Sampaio e Feitosa são dois nomes mitológicos de nossa história regional: o general de Tuiuiti e o antigo vigário de Ipueiras, senador estadual e representante do clã dos Inhamuns.
-Na apresentação do livro, osenhor escreve que o homem inocente cria a lenda, a lenda cria o mito e o mito cria a história, que não se tece apenas com os fatos provados. Nesse sentido, é possível comparar São Gerardo Majella com nomes como Padre Cícero a quem a crença popular também atribui uma crônica caudalosa de milagres?
Gerardo -É assim mesmo: o mito gera a lenda e a lenda gera a história.
-Noutro momento, o senhorafirma que "o mundo precisa voltar a acreditar de novo nos santos e nos milagres". Sobre isso eu queria perguntar duas coisas. Primeiro: em que ponto da história da humanidade o senhor acha que o homem deixou de acreditar em santos e milagres?
Gerardo -Léon Daudet chamou o século 19 de "o século estúpido", mas a estupidez começou mesmo foi no século 18, quando o racionalismo dos chamados "iluministas" passou a rejeitar tudo que não podia ser renovado. Na esteira dos iluministas veio o materialismo histórico do marxismo rococó, hoje em extinção na consciência cultural dos povos. Eles pediram provas da existência de Deus, mas nunca arranjaram uma prova de que Deus não existe. No fundo da alma, as pessoas e os povos continuaram a esperar em Deus e em seus santos e em seus milagres, como o próprio materialista histórico Pasolini, gênio poético do cinema de nossos dias. Para ele, sem milagres o ser humano estaria privado da esperança e do sentido da vida. É o que ele diz numa famosa entrevista ao jornalista Jean Duflot, do Le Monde.
-Segundo: de que maneira aretomada dessas crenças pode ajudar o homem moderno?
Gerardo -Dando ao ser humano aquilo que pode sustentar em sua incerta navegação: a esperança. Os jornais do mundo inteiro publicaram uma fotografia patética de Moscou no dia da queda do regime comunista: à frente da multidão, uns padres ortodoxos barbudos, com seus paramentos bizantinos, invadem o Kremlin. Um deles, empunhando uma imagem do Cristo crucificado, encosta o deus morto na cara de Gorbachev e exclama: "Ele venceu, Maxim Gorbachev!" A esperança, planta nativa no coração do homem, vence sempre os desesperos da história.
-Como é a relação do senhor,hoje, com o Ceará?
Gerardo -"Para onde vai o cão que não leve a sua sarna?", costumava dizer minha avó, a velha e sábia matrona dona Úrsula. A doce e sagrada sarna do Ceará é a presença mais constante do meu coração e do meu espírito. Como a Espanha doía a Unamumo, o Ceará me dói. Foi dessa dor que tirei forças para a aventura de viver.
-O que o senhor poderia nos adiantar sobre os seus próximos projetos?
Gerardo -Meu projeto é sempre e apenas reinventar o dia de amanhã. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Árvore ferida - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Quando precisou de sombra,
Minha copa lhe abrigou.
Agarrado ao meu tronco,
Da tempestade escapou.

Comeu da minha fruta.
Cheirou a minha flor,
Mas de posse de um machado
Sem piedade me acertou.

Aos golpes de tal machado,
Indefesa fui ao chão,
Porém ficaram as raízes,
Que por certo brotarão.

Um dia quando seu corpo
Inerte também tombar,
Minha madeira cortada
Seu invólucro então será. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Frase do dia
"Esses quatro anos do Lula criaram as condições para uma volta ao crescimento descente, com mais justiça social, com mais emprego."

Delfim Neto, ex-deputado, cotado para ministro em um eventual segundo mandato de Lula

terça-feira, 10 de outubro de 2006

Tributo à Neci - Por Jean Kleber / Brasília
Janeiro de 1953. Início da revoada. Nós havíamos recém comprado as passagens de trem para Fortaleza. Íamos de vez. Viajaríamos no dia seguinte eu, meu pai Neném Matos e minha mãe D. Mundita. Tão logo conseguíssemos casa para alugar em Fortaleza, passaríamos um telegrama que acionaria o esquema. Um caminhão, certamente o do Matinho, partiria de Ipueiras levando a mudança, enquanto minha avó D. Luizinha, seguiria de trem com sua criada Maria José. No caminhão estariam o Zaca, filho de "seu Gustavo" e o Assis, filho de "seu" José Fernandes. O Zaca estava indo inscrever-se como aspirante na Marinha do Brasil e o Assis tentaria o noviciado na Ordem dos Padres Paulinos.
À noite, meus pais ainda estavam arrumando as malas quando duas moças chegaram. Uma delas chamava-se Neci. Moravam para os lados do açude. Neci fez um pedido inesperado. Queria ir conosco. Perguntou à minha mãe se ela tinha empregada em Fortaleza Não tinha. Ofereceu-se então para o serviço. Uma rápida conversa de minha mãe com meu pai e a moça estava empregada. Seguiria conosco no dia seguinte. Crescia desta forma a nossa "equipe ipueirense de arribação". Na manhã seguinte, a passagem de Neci foi comprada na hora da partida.
Nos primeiros dias em Fortaleza ficamos hospedados na Pensão do Norte, à Rua Barão do Rio Branco, perto do Passeio Público. Saíamos todos os dias em busca de casa para alugar. Para nós e para minha avó. Numa delas, na Praia de Iracema, Neci acidentou-se numa cerca de arame farpado. Culpa minha. Mania de criança de fazer "pique pega" por nada. Ao escapar-me no jogo, Neci não viu o fio solto e cortou o peito do pé. Tomou injeção. Antitetânica A marca do acidente remanesceria indelével. Menos mal que no pé.
Neci era simpática, doce e silenciosa. Índole boa. Se o Zaca fora meu grande companheiro em Ipueiras e Maria José a criada exemplar, Neci seria meu anjo em Fortaleza.
Quando não estava ajudando minha mãe nos afazeres domésticos, acompanhava-me nas brincadeiras próprias de meus oito anos: soldadinhos de chumbo, águas coloridas, "bila" (bola de gude) e "trisca" (pique-pega).
Uma vez instalados no bairro Joaquim Távora, um telegrama acionou Ipueiras e o caminhão de lá partiu. Acomodados numa única "carrada", estavam nossos móveis e dois gatos: o "Pucí" (corruptela de "Pussy") e o Bambí. Pucí era rajado, marrom-claro, meio assustado e "sistemático". O Bambí era preto e brincalhão, talvez por ser mais novo.
Poucos dias após sua chegada em Fortaleza, Pucí assustou-se com os latidos de um cãozinho pequinês preto que o encarava e fugiu, não mais retornando. Bambí teve outra atitude. Pregou um tapa certeiro no focinho do bicho que fugiu ganindo. Ficou em casa. Viveu conosco algum tempo até que, não se sabe como, foi contaminado pelo vírus da raiva, vindo a morrer, não sem antes arranhar meu braço e morder a perna de Neci.
Fomos então companheiros, eu e Neci, no tratamento ambulatorial do Instituto José Frota, onde nos aplicaram uma série da famosa vacina anti-rábica. Enfermeiro Wilson aplicava. Gente boa. Lembro-me bem dele.
Meu pai tinha alergia à casa. Nem bem chegava do serviço e começava a espirrar. O banheiro era externo, nos baixos de uma caixa d'água. Parecia coletivo, do tipo que serve a duas casas. Na época se comprava, em barras grandes, um sabonete verde translúcido com aroma de eucalipto. Perfumadíssimo e barato. O banho matinal era animado. Lembrava os banhos de chuva em Ipueiras. No Carnaval, que se daria logo em seguida à nossa chegada, dominava a música "Você Pensa Que Cachaça é Água?"
Neci revezava com o Zaca o apanhar-me na escola ao meio dia. Providência de minha mãe, até que eu, vindo do interior, aprendesse a lidar com o intenso tráfego da rua Visconde do Rio Branco. Na escola, eu integrava uma turma especial do terceiro ano primário. Era no Colégio Cearense, dos irmãos maristas. Pela manhã eu ia a pé com meu pai, que me deixava à porta da escola e daí seguia para o escritório.
Quando era dia do Zaca me apanhar, ele trazia um garrafão de três litros de capacidade, para apanhar água. Sorte, o colégio fundara-se sobre uma fonte de água mineral gaseificada, a qual jorrava de todos os bebedouros. Em casa, formulávamos com ela o suco de uva concentrado comprado na mercearia. Tínhamos então um refrigerante caseiro delicioso e naturalmente gaseificado.
Mudaríamos de casa ainda duas vezes pelo menos. Primeiro para a rua Rodrigues Júnior, depois para a rua Heráclito Graça. Neci estaria conosco todo esse tempo, ou sejam, seis anos mais ou menos. Ela era baixinha, "cheinha", de tez clara e macia, um tanto sardenta. Cabelo bem liso, em quase nada lembrava a mãe, que era morena e magra. Eu ouvira dizer que ela sofria da coluna, que era excêntrica, seqüela atribuída a uma queda da mãe quando grávida. Confesso que jamais consegui ver qualquer excentricidade ou defeito naquela doce criatura. Eu a achava linda. Os adultos não. Padrões pré-estabelecidos e assimilados. Como explicar então o encanto de Neci? Sem padrões previamente assimilados a criança cria seus próprios padrões. As crianças vêem a alma e a alma ocupa todos os espaços: sejam intercelulares, intracelulares, atômicos ou sub-atômicos. Assim, a conformação corpórea também se apresenta harmoniosa e bela, tal como a alma. Um amigo de Fortaleza que eu conheceria mais tarde, Padre Tarcísio, assistente de JEC, me diria nos anos sessenta que as crianças e as mulheres são os seres verdadeiramente metafísicos. Assimilaria na época, naquele mundo polarizado, que nós, os homens, sofríamos de indigência espiritual.
Em nossa cultura costuma-se comentar a amizade entre o filho do patrão e a empregada com um sorriso malicioso. Tal não se aplicava ali. Não fosse por meus poucos anos vividos, o seria pela estrada religiosa onde, àquela época, trafegava minha existência.
Hábito ipueirense, tínhamos um pote com água na cozinha. A tampa era um quadrado de madeira. Uma noite, Neci estava lavando os pratos. Após enxaguar cada um, colocava-os sobre a tampa do pote, até formar uma pilha. Naquele dia, a tampa do pote não estava devidamente ajustada e adernou com o peso. Todos os pratos caíram e quebraram. Acorremos à cozinha e logo percebemos que, para almoçarmos no dia seguinte, teríamos que compara pratos novos. Eu estava excitado com a idéia de pratos novos. Criança gosta de novidade. Mas o que mais me encantou foi ver que meus pais estavam dando gargalhadas diante daquela pequena tragédia. Ou nos tornáramos todos crianças ou estava evidenciada a impossibilidade de se ter raiva de Neci.
Mas um dia Neci partiu. Soube que para casar-se.Vi-a ainda uma ou duas vezes quando nos visitou já em sua nova vida de dona de casa. Na ultima vez de que me lembro, percebi que o tempo já começava a marcar suas feições. Sorriu animada ao ver-me, quase esfuziante. Abraçou-me com carinho, como alguém que reencontra um filho ou um irmão mais novo. Naquele momento foi-me dado ver, em quase todo o seu esplendor, a beleza de Neci. *PC*

Jean Kleber Mattos é Engenheiro Agrônomo pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Doutor em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Professor Adjunto da Universidade de Brasília.

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Frase do dia
"Se o Bush tivesse o bom senso que eu tenho não teria havido a guerra do Iraque. Bush pensou como você [Alckmin] e fez uma barbárie dessas."

Lula no debate de ontem

sábado, 7 de outubro de 2006

O Reino do Arco-Íris - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Conta uma lenda antiga que numa terra distante havia um príncipe solitário. Vivia triste, pois não havia encontrado uma bela moça para casar e com ele reinar no vasto e longínquo principado.
Disseram-lhe então que procurasse na Floresta das Esmeraldas uma feia criatura que por todos era chamado de Anão Amarelo, pois apesar de feio era mágico e poderia ajudá-lo. Com certeza este lhe diria onde encontrar a sua futura princesa.
O Príncipe procurou na Floresta das Esmeraldas mas nada encontrou, nem vestígios do Anão Amarelo.
Desanimado, voltou para o castelo. O reino compartilhava da tristeza e solidão do príncipe. Logo, todas as coisas começaram a definhar. Os rios e cachoeiras secaram, as florestas murcharam e as colheitas já não mais produziam o esperado.
Cavalgando um dia pela desolada estrada que levava ao que foi a antiga Floresta das Esmeraldas, o príncipe encontrou um pequeno ancião, deu-lhe algumas moedas e o velho disse-lhe então que não desanimasse, pois sua busca estava chegando ao fim.
O príncipe descobriu, na sua esperteza, que era o Anão Amarelo quem lhe falava e logo disse:
- Anão Amarelo, onde eu poderia mais procurar, se já vasculhei tudo e todas as redondezas até as fronteiras de meu reino ?
O Anão Amarelo apontou para o céu e disse :
- Sua princesa virá de lá, se chamará princesa Íris e descerá num arco de mil cores chamado arco-íris.
Depois, como mágica, o anão sumiu. Então o príncipe ficou maravilhado com o que começou a acontecer. Do céu, um enorme arco-íris de mil cores se formou, fazendo um tapete até o chão. Através dele, uma pequena criatura veio descendo. Era a mais bela de todas as moças que o príncipe havia visto. Cheio de alegria, ele a segurou pela terna mão e a levou para o seu castelo.
Contam então que sempre depois de uma forte chuva surgia no céu do reino um arco-íris que a todos encantava.
O reino prosperou e tudo voltou a ser alegria. Muitos vinham de outros reinos para conhecer o Reino do Arco-Íris, onde o céu parecia sempre colorido, iluminando a terra e o povo do príncipe e da princesa Íris. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

sexta-feira, 6 de outubro de 2006

quinta-feira, 5 de outubro de 2006

Acerca do divórcio - Por Beto Costa / Rio de Janeiro
Há algum tempo não tem sido os altos juros ou a curiosidade de saber o destino do CPMF ou do ICMA cobrados nas contas de luz e telefone que têm me perturbado. Hoje, a minha insônia é pelo meu casamento de cinco anos. Já somam dois meses que convivo com uma recente estranha sobre o mesmo teto. É essa a sensação que herdo pela falta de carinho, diálogo e respeito.Todo relacionamento requer muito jogo de cintura. Muitas vezes somente agradar não é o suficiente. É preciso sentir a reciprocidade. Mas o que fazer quando a cara metade começa a querer andar sozinha? "Se você não quiser ir, eu vou", esbravejou a minha doce Madalena. O mais intrigante é que a minha autoridade de marido, não sei como, perdeu a liderança. Assim, não adianta dizer não, pois quando o desejo já está no coração não há o que fazer. Não há saída! Se disser não, a minha esposa diz que depois do casamento não pôde fazer mais nada. E com o passar do tempo isso vai minando o relacionamento. Contudo, se digo que sim sou eu quem me sinto amputado.Nunca imaginei que a diferença de 15 anos entre nós pudesse acarretar tantos problemas. Não tenho mais prazer de ir a discotecas, aliás, nunca tive. Sempre preferi prazeres mais culturais. Adoro cinemas, teatros, restaurantes, viagens... E o que dizer de um bom papo num barzinho e violão com a família e os amigos?. Entretanto, não me importo nenhum pouco de freqüentar lugares mais jovens para agradá-la. Mas em plena quinta-feira ir ao forró depois de 10 horas de trabalho. Não dá! Então, o casal começa a se dividir. Não tem nada a ver. É a resposta que todos dão. Hipocrisia! Pois a base começa a se desestruturar nos pequenos detalhes e a mágoa floresce e se solidifica rapidamente. Por várias vezes perguntei o que estaria acontecendo. Embora eu não perceba, é certo que também tenho culpa. Todavia, ser transparente requer maturidade para absolver as críticas. Talvez por esse motivo o silêncio e o fingimento de que nada mudou continuem sendo a resposta que paira pela casa. Sempre trouxe comigo a certeza de que a vida de solteiro não coexiste com a de casado. Por isso, até então nunca havia procurado relacionamentos duradouros. Evidente que não há donos da verdade. Porém o que peço é discernimento de que as responsabilidades mudaram.A constatação de que as coisas não iam bem me obrigou a abrir a bíblia. Fitei os olhos sobre o livro dos salmos e uma frase me chamou atenção "(...) amareis a vaidade e buscareis a mentira". Em fração de segundos involuntariamente fui jogado às memórias que ainda me fazem feliz. Alguns pensamentos atordoaram a minha cabeça. A enxaqueca teimou e perpetuou por toda a noite, e eu sozinho na cama que escolhemos juntos. Ah, como foi divertida a compra! Deitamos e até pulamos com o pretexto de testá-la. Entretanto, o sorriso incontido se cerra à constante idéia de divórcio. Seria justo manter um casamento somente por causa dos filhos? Não era essa a minha idéia quando jurei honrá-la até que a morte nos separasse.Uma vez um amigo de infância me falou que a nossa missão aqui na Terra é sermos felizes. Esse pensamento me presenteia com a sensação de que tudo é válido, que as pessoas nunca erram, que tudo é simples, que basta querer e dane-se o mundo. Talvez ele tenha esse pensamento pela pregação corriqueira das novelas. Talvez seja culpa dos jornais que tanto evidenciam as "marias-chuteiras". Aliás, quem é a ilustre desconhecida capa da Playboy desse mês? Ou talvez a culpa seja dos programas de fofocas líderes do IBOPE no rádio. Somos influenciados pelo meio em que vivemos. Viver imerso na tentação, além de prazeroso, é muito mais fácil do que dizer não. Porém, uma coisa ninguém me rouba: o meu livre-arbítrio. Por isso, irei dar mais uma chance ao meu laço de família. *PC*

Beto é jornalista

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Frase do dia
"Uma amiga me disse que o PT parece um arrastão: não dá pra saber se o garoto que pegou sua sandália recebia ordens do chefe."

Caetano Veloso em entrevista ao Blog do Moreno

terça-feira, 3 de outubro de 2006

Seu Abílio - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza


Heron Domingues

Uma das que costumava contar "Seu Wencery", meu pai:
Anos 40, o mundo entrando na 2ª. Grande Guerra Mundial. Em Ipueiras, em torno do rádio, sintonizado em ondas curtas, na Rádio Nacional, em busca das últimas. De repente, a característica musical do famoso "Repórter Esso" e a voz de Heron Domingues: "... e atenção, o Repórter Esso em edição extraordinária!" Todos atentos: "O Brasil acaba de declarar guerra ao Eixo..."
Silêncio. Todos pasmos. Ninguém sabia ou ousava algo dizer. De repente, alguém quebra o incômodo silêncio: "Sei não! A coisa está preta. Mas vou dizer uma coisa. Se a Bahia entrar nessa guerra..."
"Seu Abílio" não agüentou. Levantou-se e foi se retirando: "Não agüento tanta ignorância. Caboclo bucho, deixa de tanta asneira!" E se foi, a roda inteira, com a cena, aliviada um pouco do impacto da notícia.
Hoje, associada à folclórica expressão "Oropa, França e Bahia", incorporei, entre meus ditos, em alusão à cena de "Seu Abílio", o refrão: "Sei não, mas se a Bahia entrar nessa guerra..." (Marcondes do "Seu Wencery")

"Caboclo Bucho"

Você retratou bem o Seu Abílio com a expressão "caboclo bucho" - sua marca registrada. Quanto o alguém que disse sobre a Bahia entrar na guerra vai ser motivo para nossas fofocas em julho próximo na casa da Dalinha e vamos descobrir quem foi (Tadeu Fontenele). *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Frase do dia
"Faltou um pouquinho"

Tarso Genro, ministro das Relações Institucionais

domingo, 1 de outubro de 2006

Voto: desejo, recado! - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Alecrim - A Charge Online

Amigos, neste domingo, cada um de nós, de alguma forma, estará depositando nas urnas seu voto, que, mais que obrigação, é desejo, recado. Que escolhamos, cada um, o direito de expressar nosso desejo: nos melhores, a nosso ver, da melhor farinha do saco, em branco, nulo, não "neles mas nela", de protesto que o seja...
De minha parte, gostaria (tentando colher, ao meu redor, o que vai no "inconsciente coletivo de nosso povo"), de transcrever, para a reflexão, neste momento, texto que extraio de Leonardo Boff, em seminário realizado em Brasília:
Segunda categoria: irmão menor, frater minor. Menor, porque, naquela divisão social burguesa de maiores e menores, ele ficou com os menores. Este é o sentido social de menor. Sua ordem é a dos frades menores e se escreve, abreviando, O.F.M, Ordem dos Frades Menores. Além desta ordem tem a Ordem dos Mínimos, menores ainda que os menores, mais radicais ainda. E hoje nós inventamos mais uma ordem, a dos lascados. Há todo um movimento nordestino dos frades, para a criação da Ordem franciscana dos lascados, da Ecclesia Lascatoram, da ordem dos lascados.
Imaginem vocês que, lá no Ceará, São Francisco é nordestino, não é de Assis, é São Francisco do Canindé*. É o maior santuário franciscano do mundo e passam por lá milhares e milhares de pessoas. Estive lá, várias vezes. O povo acha que os frades escondem São Francisco dentro daquele convento enorme. Estão o povo vai à Igreja de São Francisco, paga as promessas, desfila diante do convento, olha-o com curiosidade para ver se ele está lá dentro. E dizem uns aos outros: "São Francisco está lá dentro, escondido. Eu o vi. Estes padres alemães são maus, escondem São Francisco". Isto porque a mentalidade mítica popular não é diacrônica. Ela é sincrônica. Moisés, Jesus, João XXIII vivem todos num mesmo tempo. Não é o São Francisco Medieval. É o São Francisco de hoje, que está em Canindé, e não é de Assis.
São Francisco, portanto, é frade menor.
Leonardo Boff, extraído da obra Terapeutas do Deserto: do Deserto: de Fílon de Ale xandria e Francisco de Assis a Graf Dürcheim (Petrópolis, Vozes, 2004), a partir de Seminário com Jean Yves Leloup e Leonardo Boff.
Pensemos, todos, em de fato harmonizar crescimento econômico com o desenvolvimento sustentável, como queria Francisco de Assis (o medieval e o mítico de agora), voltado para os "menores" e, agora, o ecológico, (potencialidades e limites da natureza), criação divina, Irmão Sol, Irmã Lua, de onde, adões e evas, brotados do chão animados pelo "sopro divino", nascemos todos... *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).