sábado, 30 de setembro de 2006

Tranferencia de Poder - Por Mario Serdan / Rio de Janeiro
Por mais que o catolicismo nos instrua a agradecer mais do que a pedir, a gente pede. Em silêncio, antes de dormir, a gente pede. No momento da raiva, a gente pede. No auge da carência afetiva, a gente pede. E pede coisas grandes: que alguém volte a nos amar, que tenhamos sucesso instantâneo, que a dieta dê certo.
Desejos legítimos, mas que, ao serem realizados, não garantirão um pingo de felicidade. A volta de um amor pode nos impedir de amadurecer e resgatar a auto-estima. O sucesso meteórico pode nos distanciar de princípios básicos. E os sacrifícios para ter um corpo delgado podem nos tornar irritadiços.
Os deuses entregam a mercadoria, mas costumam cobrar uma gorjeta e tanto. Todo pedido é uma transferência de poder. Você quer que alguém, ou algo, uma entidade cósmica qualquer, tome conta dos seus dias. Não fique devendo esse favor para os céus. Cancele a encomenda e meta você mesmo a mão na massa.
Seja mais legal com seus irmãos, tome banho de chuva, dê um beijo surpresa em quem você ama, cuide dos seus dentes, aproveite sua juventude, viaje de trem, ande de bicicleta, responda os e-mails recebidos e passe horas dentro do mar. Trate de fazer as pazes com o espelho, de se espreguiçar, de dizer bom-dia pro porteiro e de dançar sozinho no meio da sala. Comece a correr atrás dos seus sonhos, a valorizar as coisas simples e a zelar pelo o que só você tem: sua vida. Aos deuses, peça apenas que não interfiram. *PC*

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Frase do dia
"Espero não ver a vitória do banditismo político nem no primeiro nem no segundo turno."

Heloisa Helena, candidata do PSOL a presidente da República

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

A Magia do Rádio - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Quando ele entrou em minha vida, eu era apenas uma criança. Mas sua voz, seu canto, suas informações invadiram minha cabeça povoando-me de sonhos e ilusões.
Quem não se apaixonou pela voz de um locutor? Quem não ouviu as canções de amor que marcaram antigos romances? E, quem não enviou e recebeu mensagens "tipo assim": "Essa mensagem vai para alguém, que outro alguém oferece com muito amor e carinho. Não diz o nome para não dar confusão".
Falo do rádio. Veículo de comunicação que não perde a majestade. Falo principalmente do radio do interior, aquele que, cinco horas da manhã fazia coro junto aos galos e pássaros que "teciam as manhãs" da minha pequena Ipueiras. Do rádio que reunia famílias às seis horas, hora da Ave Maria... Rádio que reunia senhores nos alpendres e calçadas com o intuito de ouvir e comentar a voz do Brasil.
Eu que viajo, e sou cigana pelos cantos e recantos do meu sertão, tenho o privilégio de acordar muito cedo em sítios, lugarejos, escutando os velhos sucessos de Luis Gonzaga, que continua seu reinado de legítimo representante do povo nordestino.
O rádio ganhou roupa nova nessa era digital, se alastrou, consegui adaptar-se ao progresso sem que abafassem sua voz Hoje você acessa o rádio via internet.
As igrejas evangélicas invadiram suas ondas... contudo, o rádio é um rio onde todos os seguimentos têm opção de navegar.
O rádio me encanta em todas as suas vertentes. Mas, o rádio do interior é minha maior paixão. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

terça-feira, 26 de setembro de 2006

Frase do dia
"O presidente da República se comparou a Cristo e errou porque Cristo nunca foi beijar Judas, nunca foi chamar Judas de companheiro."

Fernando Henrique Cardoso, o recém convertido

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

As esquecidas estações - Por Bérgson Frota / Fortaleza


No início do século vinte a estrada de ferro representava o progresso. Cidades e mais cidades interioranas disputavam a honra de serem cortadas pelos trilhos que deitados em fortes dormentes traziam o futuro mais rápido.
No Ceará a rede de transportes ferroviários passou por sua fase áurea e encontrou no descaso e surgimento de outros meios de tarnsporte o triste ocaso em que até hoje agoniza.
Infelizmente o transporte ferroviário foi relegado a segundo ou melhor dizendo, terceiro plano, se é que se pode este termo utilizar.
Na prática as estradas asfaltadas que se multiplicaram a partir da década de 70 foram em muito responsáveis para pôr-se de lado as viagens por linhas férreas. Vistas então como uma opção de ransporte ultrapassado.
A estação de Ipueiras que foi inaugurada em 01 de maio de 1910, apesar de necessitar de reparos, guarda exteriormente a clássica e simples arquitetura da época. Sofrendo portanto o mínimo que se poderia comparar ao prédio já em ruínas do distrito próximo, Eng. João Tomé (Charito).
Prédios belos e bem construídos sendo ruídos pelo descaso com o passado. Muitos figuram na lista de obras a serem demolidas pelas prefeituras. Há a possibilidade e realidade de transformá-los em escolas ou museus. Até mesmo das próprias cidades cearenses de um ou outro centro citado.
Nosso País é definido também como um país sem memória. A definição concretiza-se pelos fatos expostos diariamente diante da impassividade dos governantes ante a destruição e o desgaste dos prédios históricos tombados ou não pelo patrimônio nacional.
Outro fato que mostra o pouco caso feito aos monumentos históricos é a desvirtuação de seus espaços. Quando se fazem construções não vinculadas ao monumento mesmo com a defesa da tecnologia, se fere uma paisagem, correndo infelizmente o risco do monumento ser obliterado pela construção mais recente.
Vivemos num período de rápidas e grandes transformações, mas a história nos mostra que nenhum ganho trouxe a uma população a construção de obras sobre os escombros doutras de valor histórico inestimável, o oposto se mostrou mais positivo.
E neste caso pode-se aplicar muito bem o ato de conservação e nova utilização das já tão esquecidas estações ferroviárias.
O caminho para se chegar a um futuro onde as gerações possam de fato trocar contribuições e com isso se enriquecerem passa pela preservação de monumentos que são um verdadeiro elo ligando o passado ao presente para o forjamento de um futuro melhor. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

sexta-feira, 22 de setembro de 2006

quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Registro pessoal - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


Arrumar o armário sempre nos traz alguma surpresa. Encontramos objetos que nem lembrávamos mais, fotos que nos credenciam a viajar pelo tempo e diários como esse que seguro. Ler as suas páginas amarelas traduz um pouco do que eu fui. Sonhos e aspirações hoje concretizados ou que não fazem mais a menor diferença.
Contudo, uma página me fez lacrimejar. Tratava-se de um texto intitulado "Última homenagem". A partir desse título, eu já sabia do que se tratava e o quanto seria doloroso começar a leitura. Mas por algum motivo os meus olhos vermelhos continuaram a fitar as linhas seguintes... No cabeçalho: "Rio de Janeiro, 29 de setembro" e um borrão azul devido às lágrimas de outrora manchando o ano que ainda tenho guardado na memória. Este foi o dia que herdei o medo de somente poder lembrar. Foi quando respirei fundo e fiz do fôlego um escudo protetor para continuar a leitura.
Não posso mais encontrá-la, embora o amor ainda esteja por toda a casa. Tento aproximar-me ouvindo as suas músicas prediletas. Porém, não há o que eu possa fazer para tocá-la, para ouvi-la por mais uma vez dizendo meu filho.
Não tenho mais a proteção que ficava na janela acenando e orando pela minha volta. Era assim até que eu virasse a esquina. Porém, foi ela quem não me esperou! Descobri não quanto é frágil a vida, e sim como tenho pouca fé. Afinal, não consegui ressuscitá-la. E como desejei! Nos meus braços as lágrimas que rasgavam os olhos tentavam aquecer o corpo gélido. Tudo em vão. A minha febre de amor não foi o suficiente.
Agora estou tentando me achar. Tenho que aprender a andar sozinho. Não tenho mais colo e ninguém para pedir a benção.
Tento distrair a verdade enganando-me que foi melhor assim. E de que ela está melhor do que qualquer um aqui na Terra. Não consigo consolar-me com alguns argumentos. Talvez eu seja egoísta demais. Contudo, o que eu mais queria realmente era fazê-la rir com as minhas bobeiras. Nossa! Como sinto falta do seu abraço. Como dormir em paz se nunca mais irei ouvir o doce!"Deus te abençoe, filho. Boa Noite".
Não tenho mais a verdade escrita na poesia dos seus olhos de que dias melhores virão.
Se eu encontrasse uma fada que me concedesse qualquer desejo, eu não pediria a paz mundial. Ou o amor entre os homens. Ou comida e saúde para todos. Não tenho a pretensão de mudar o livre-arbítrio do mundo. Eu pediria apenas para vê-la sorrindo.
Nessa parte do texto ficou difícil continuar. Preferi parar. O desfecho dessa história eu já conheço há alguns anos. Porém, se eu fosse mudar esse escrito, em vez de ficar procurando respostas ou devaneando sobre um possível "Se...", eu apenas agradeceria por tudo.
Relendo esse texto descobri que a saudade de alguma maneira pode nos fazer crescer. E não importa que seja saudade dos parentes que moram longe. Saudade da mamãe. Saudade da praça onde passei toda infância. Saudade do gosto da fruta que não se encontra mais. Saudade do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade da turminha que parecia inseparável. Saudade das travessuras colegiais. Saudade dos amores que na verdade não passavam de paixões. Não interessa! A saudade sempre nos lembra o quanto mudamos.
Ao fechar o diário fiquei com o olhar perdido por algum tempo. O transe só acabou com o meu filho gritando e me chamando para brincar. Ao ver a alegria dele aprendi que o passado não é o melhor momento da vida. A maior lição está em fazer da vida uma perene estação da felicidade. *PC*

Beto Costa é jornalista

quarta-feira, 20 de setembro de 2006

Frase do dia
"Daqui por diante não haverá um minuto de paz para o governo até que se esclareça a origem do dinheiro para a compra do dossiê. E até que sejam apontados todos os culpados."

Do senador Tasso Jereissati, presidente nacional do PSDB

terça-feira, 19 de setembro de 2006

Idade Avançada - Por Mario Serdan / Rio de Janeiro
Quase todos me pedem uma opinião sobre seus impasses amorosos. Explico que não posso ajudar, que sou apenas um escritor, mas... às vezes não me controlo. Principalmente quando recebo mensagens de uma garotada de 14, 15, 16 anos, dizendo que nunca mais irão amar como amaram o ex-namorado, ou revelando seu profundo desgosto com a vida, um "nada dá certo pra mim" que pesa feito uma cruz a ser carregada vida afora.
Já tive 16 anos. Tive 18. Tive 20. Sofri por amor. Achei que nunca mais iria amar de novo. Achei, também, que a vida era ingrata, difícil, que as portas tinham a mania de se fechar bem na hora que eu ia entrar. Qual foi a solução? Fazer 25 anos. Depois 27. Depois 34. E, então, 39, que é onde me encontro: numa idade avançada.
Idade avançada é uma expressão pejorativa. Dizer que alguém está em idade avançada é uma maneira educada de dizer que ele é um matusalém. Nada disso, caríssimos. Avançada tem outras conotações, nem todas vinculadas ao túmulo.
Avançar envolve progresso. Avança-se não só em relação ao tempo, mas também em relação ao meio em que se vive, aos conceitos que nos são impostos. Avançando, nossa percepção do mundo é ampliada, nossa história de vida acaba se justificando e nos preparando para o que vem mais adiante. Daqui, deste posto avançado em que me encontro, posso dizer que a gente ama muitas vezes e que a vida têm mais portas do que parece. Nem todas chaveadas. Algumas, inclusive, entreabertas.
Idéias avançadas, pessoas avançadas, costumes avançados: tudo isso sugere modernidade. Gente que já superou a fase do dramalhão está se divertindo com as opções encontradas. É maravilhoso ter 14, 16, 19 anos. Portanto, não desperdice essa idade de ouro sofrendo como se tivesse 80. Sofra como quem está apenas na segunda dezena da vida e tendo milhões de dias pela frente para aprender a ser jovem. *PC*

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

Frase do dia
"De vez em quando um pequeno grupo de tucanos sai do Parque Nacional e pára na Granja do Torto. Sabe para quê? Eles param lá para comer os ovos e os filhotes dos passarinhos nos ninhos. Eles param lá porque são predadores, apesar daquela beleza."

Lula

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Frase do dia
"Eu não tenho a perder com FHC (Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso)".

Lula sobre a carta de FHC

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Pega ladrão - Por Jean Kleber Mattos / Brasília
A alcunha do larápio era "Bolinha". Arrombador de residências. Marginal fichado na polícia de Fortaleza como perigoso. Arma branca.
Sabe-se lá por qual motivo, resolveu deixar a capital e fazer incursões pelo interior do Ceará. Caminhos tortuosos o trouxeram a Ipueiras, no fim dos anos quarenta, século vinte.
Na primeira noite de atividade arrombou três residências, uma delas o Educandário, onde morávamos eu, meus pais Neném Matos e D. Mundita, minha avó Luizinha, a criada Maria José e um aluno interno, o Antônio Brandão.
No dia seguinte ao assalto, o Antônio, que dormia numa rede na principal sala de aula, deu por falta do par de alpargatas que deixara no chão sob a rede. Uma porta forçada forneceu a pista. Alguém entrara sem ser convidado.
A notícia logo se espalhou. Quase certo que era alguém que vinha de longe, pois aquele tipo de crime não figurava em nossa lista de ocorrências.
O contingente policial era pequeno. Comandava-os o sargento Almeida. Logo, pacatos cidadãos da cidade ofereceram-se para compor uma patrulha de vigilantes que auxiliariam a polícia na captura do ladrão.
Minha avó narrou-nos então sua experiência da noite do assalto. Sono leve, acordou em meio à madrugada com um lampejo dentro de casa. Acendeu uma vela. Nada aconteceu. Apagou a vela, por fim. Daí a pouco, outro lampejo. Luz forte. Acendeu novamente a vela e ficou atenta. Nenhum barulho. Não mais lampejos. Naquela época, rolava a crença de que lampejos inexplicáveis dentro de casa durante a madrugada, eram um sinal do além, avisando que estava próxima a "passagem" de alguém. Desencarne. Ela havia ficado meio preocupada. Diante, porém, dos novos fatos que agitavam a cidade, entendeu que os lampejos poderiam ser da lanterna do ladrão.
Neste dia a cidade dormiu em sobressalto. Noite escura como breu. A patrulha era pequena mas nuclearia em sua passagem eventuais dorminhocos, aos gritos, se houvesse necessidade.
De repente, um alarme no meio da noite: aqui!
Alguém percebera o que poderia ser o facínora esgueirando-se de uma casa. A guarda e a patrulha cidadã acorreram. Lembro-me de Manoel Dias, o dentista, como um dos nucleados. Tática de guerrilha, o grupo espalhou-se em leque para fechar os flancos, até que, de um quintal, um grito denunciou a presença do fugitivo. Sem chance para ele. Foi finalmente capturado.
No dia seguinte, fila de gente à porta da cadeia para ver a presa. Objetos recuperados eram entregues aos donos. As alpargatas do Antônio Brandão estavam lá. Uma das tiras fora parcialmente cortada à faca para acomodar o pé do ladrão, que era maior. Mesmo assim, Antônio qui-la de volta.
Lembro-me de minha avó toda arrumada, pronta para ir à cadeia visitar o detento. Comentou mais tarde sobre o diálogo com ele travado. Coletara a impressão do marginal ao descobrir que adentrara uma escola: !"só tinha carteira..." Sobre a coleta ínfima com a insignificante subtração das alpargatas do adormecido Antônio: "para não sair de mãos abanando..." Também sobre a boa qualidade da luz da lanterna: "a senhora gostou?" No mais, apenas comentários sobre leveza de sono e sinais do além: "credo...!"
O sucesso da caçada abriu espaço para lendas e bravatas nos dias que se seguiram. Comentava-se que um dos policiais "voara" mais de três metros ao precipitar-se sobre o fugitivo, imobilizando-o.
Como não poderia deixar de ser, também circulavam as fofocas sobre quem tinha amarelado.
E assim, o famoso "Bolinha" entrou, por vias tortas, na história da velha Ipueiras.
Ah! Minha avó anotou a marca da lanterna! *PC*


Jean Kleber Mattos é Engenheiro Agrônomo pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Doutor em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Professor Adjunto da Universidade de Brasília.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Frase do dia
"Porque o governante que hoje está no Ceará só tem força pra comprar consciência, pra distribuir dinheiro pra politiqueiro filho da puta".

Ciro Gomes partindo para cima do governador do Ceará, Lúcio Alcântara, do PSDB.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

O presente de Anita - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Anita era uma garotinha triste e insegura. Não brincava com as colegas e pouco sorria. Não saía com as amiguinhas e sentia pouca vontade de estudar. Nem no seu computador ela brincava.Um dia, não quis mais ir para a escola, nem mais sair do quarto.A avó, que gostava muito dela, começou a investigar os motivos do comportamento de Anita e descobriu que a garota se achava uma verdadeira verruga murcha.O que fazer para ajudar a neta - ela se perguntava.
Sabia que Anita tinha um cabelinho ruim e sardas no nariz, bem como usava um óculos de grau muito forte, mas tudo isso iria mudar quando ela fosse crescendo.Certa noite, conversando com ela, contou que quando pequena, ela se sentia a menina mais feia do mundo. Queria se trancar dentro de um baú e ser esquecida por todos. Porém, aconteceu uma coisa que ela jamais poderia esperar. Quando abriu um baú encontrou uma pequena caixa com um anel de metal. Na caixa estava escrito que o anel era mágico e transformava qualquer pessoa na mais bela e confiante criatura. Assim, ela colocou o anel no dedo, e daquele dia em diante foi ficando cada vez mais alegre e confiante, e se sentindo mais sabida e bela. Um dia, encontrou o rapaz mais bonito e bondoso da sua cidade que pediu-lhe em casamento e este veio a ser o avô dela.Anita ouvia interessada. A avó, percebendo que a tinha tocado, levantou-se da cadeira e tirou de dentro de um pequeno baú um anel de metal que havia mandado fazer sob medida para o dedo da neta.
- Tome, é seu ! Tenho certeza que fará por você o mesmo que fez por mim - disse a avó.
Anita não cabia em si de tanta alegria. Colocou o anel e já começou a se sentir melhor. Os dias foram passando e os anos também, e a garota, já moça, foi ficando cada vez mais bela e feliz, até que um dia perdeu o anel mágico dado pela avó. Mas ela não se abateu, pois já tinha ganhado autoconfiança e sua vida agora era somente de realizações.Quanto ao anel, este nunca foi mágico. Mágica foi a idéia que teve a avó, fruto do conhecimento que só a maturidade traz. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

sexta-feira, 8 de setembro de 2006

quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Sete de Setembro Antigo - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Saudades da solenidade,
do sete de setembro vivido,
Em minha pequena cidade.
A bandinha e a alvorada,
Mais tarde a solene parada
E nossa cívica felicidade.

A cidade movimentada
muita festa e animação.
Estudantes animados
Entravam em prontidão.
Ao bumbo repetidor,
A marcha pela nação.

O hino era cantado
Com respeito e emoção
Bandeira hasteada
Batidas de coração.
Era o respeito à pátria,
No peito do cidadão.

Hoje procuro e não vejo,
Nem sombra do que passou.
Será que nós mudamos,
Ou nossa pátria mudou?
Já não choro ao som do hino,
Nem me arrepia o tambor.

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Frase do dia
"O Brasil, vamos a falar a verdade, não tem partidos políticos dignos desse nome".

Geraldo Alckmin

terça-feira, 5 de setembro de 2006

Ouvir estrelas - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza
Vejo o País, buscando entender-lhe os contrastes. Os indicadores eufóricos falam de crescimento. E a pobreza inclui-se à mesa e na escola. Os diplomas, porém, resvalam sem fundos, sem qualidade, perdidos do porto do emprego. A expectativa de vida se amplia. Mas se afoga na depressão dos aposentos. A liberdade se escancara nas fronteiras e ruas. Mas para o crime organizado, os cidadãos, por trás das grades e cercas, reclusos nos lares, trabalho e lazer. Política se associa a corrupção. E a maioria descrê de seu sentido (69%, diz o Ibope).
O cosmo, desde Galileu, se move em órbita. Astros nascem, morrem e se transformam. E o pensamento hoje se diz complexo, unindo ciência e religião, dos rituais primitivos ao zen-budismo. O homem, de inteligência múltipla (que inclui espiritualidade e afeto), vê-se um todo de corpo e alma. Judeus, islamitas e cristãos se dão as mãos. E a era se diz "simbólica" - o mítico e o lógico em diálogo. O apocalipse retoma o sentido de "revelação", em linguagem surrealista, de "fim de um ciclo", mas de prenúncio de nova ordem: a holística, do caleidoscópio, da tensão produtiva entre o império da maioria e o direito das minorias e diferentes.
Com os astrônomos, aprendemos que plutão é asteróide menor, persistindo, porém, no horóscopo. Reis magos, guiados por um astro, voltamos à manjedoura de uma estrebaria, onde o verbo se fez carne, prenúncio do ecológico depois retomado por Francisco, o "de Assis", depois "das Chagas" - hoje o das romarias de um francisco de agora: "o de Canindé", no agreste nordestino.
Tempo de reler Bilac e ouvir estrelas. Conversar com elas e retomar o sentido primário da caridade. Não a humilhação da esmola, mas o amor-doação. "Só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas". Este, o não-dito, esperança latente! *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

segunda-feira, 4 de setembro de 2006

Frase do dia
"No primeiro ano, embalado por uma vitória muito expressiva, o presidente Lula vai querer impor ao Congresso Nacional a sua vontade. Espero que isso seja para o bem."

Marcos Coimbra, diretor do Vox Populi

sábado, 2 de setembro de 2006

O passeio - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


Hoje decretei feriado. Tudo por causa da meteorologia que afirmou céu azul, sem nuvens e temperatura máxima de 40ºC. O despertador só pára quando o derrubo do criado mudo. "Ah! Deixa eu dormir". Dez minutos mais tarde levanto como se tivesse perdido a hora do trabalho. Angustiado, pulo da cama e abro a janela. O sol me lembra que é feriado, o meu. Com as batidas do coração normalizadas, traço um programa. Hoje serei turista na minha própria cidade. Apreciarei aquilo para o que a pressa do dia-a-dia me faz fechar os olhos.
Meu primeiro ato é desligar o celular e guardá-lo na gaveta do armário. Ninguém será capaz de atrapalhar o meu dia perfeito.
É verdade que sou admirador da beleza. Mas hoje não quero ir à praia e ficar tecendo versos ao mar ou ao vento. Não irei olhar pra cima e reverenciar o Cristo Redentor. Também não imaginarei como o homem amarrou cabos de aço entre dois morros e fez o bondinho do Pão de Açúcar. Pode acreditar, mas eu não ficarei atônito ao espelho da Lagoa Rodrigo de Freitas. Só por hoje eu não vou esquecer que sou feliz.
Começo o meu descobrir pelo calçadão que beira toda a orla. Vejo pessoas com bicicletas, patins, skates, ou apenas correndo ou caminhando, como eu. Não importa o físico. Não é desfile de moda e sim de desfrute da vida.
Antes do almoço fiz uma visita ao Jardim Botânico. Bastou sentir o ar puro e a tranqüilidade da natureza para revigorar a alma para a semana inteira. Tomado por uma coragem avassaladora que me empurrava a desbravar cada vez mais, deixo o carro no estacionamento e prossigo o passeio a pé. Nossa! Como a arquitetura é efêmera! Pego o ônibus que me leva ao Parque do Flamengo, 1.200.000m² de área verde à beira-mar. No quiosque compro um coco gelado e um sanduíche natural. Faço um piquenique solitário. Antes que as formigas me fizessem levantar bruscamente observo de longe a mãe que segura a mão do filho desequilibrado. Os primeiros passos são os mais difíceis. De repente o menininho cai. Em vez de choro um sorriso contagiante. Acho que foi por isso que nem xinguei as tanajuras carnívoras. Enquanto tentava me livrar delas um jovem de olhos vermelhos e fala desconjuntada disse:"Que dança maneira véio! Você é muito louco!". Foi quando percebi que precisava conversar. Todo carioca adora um bom papo. Antecedendo ao táxi que peguei ao Centro fui ao bar da esquina. Pessoas falavam como se a verdade fosse absoluta. Esquecem que a mentira é uma verdade. E nisso concordamos. Todos os políticos prometem mais o que podem cumprir. Contudo, o carioca não é avesso a promessas não cumpridas.
Ao entardecer chego na Lapa, núcleo da boemia. Os bares já estão começando a encher. Agradeço o taxista que não tinha troco. Prossigo andando. O Largo da Carioca é o ponto de encontro dos artistas populares. Tem mágicos ganhando dinheiro fácil. Capoeiristas fazendo acrobacias que desafiam a lei da gravidade. Além de comediantes, cantores e pessoas pregando a palavra da salvação. Em comum, a autenticidade.
Olhando para todos os lados atravesso a rua e vou conhecendo o Rio Antigo e as suas invasões futuristas. O corre-corre da cidade chega a ser engraçado. A menina de salto alto quase caiu. Constato como tem mulher bonita. Os decotes, as calças justas ou até os terninhos modelando o corpo me fazem aceitar que não há nada mais doce. Acho que foi nessa hora que perdi as chaves de casa. Mas tudo bem. Não irei voltar agora. Ainda tenho muito a observar. A noite ainda nem começou. *PC*

Beto Costa é jornalista

sexta-feira, 1 de setembro de 2006