quinta-feira, 31 de agosto de 2006

A farinhada - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Julho transcorria com seus dias claros de temperatura amena, num sertão ainda verde pela fartura das águas abençoadas que caíram sem modéstia nesse ano de 2006.
As noites frias e estreladas exibindo uma lua cheia, de graça incomparável, que, sem sombra de dúvidas, faz jus ao nosso tão cantado "Luar do Sertão", foi o cenário perfeito onde tive a felicidade de vivenciar, agora na fase adulta, o que tanto me encantou na meninice. E isso, no sitio Pai Mané, no município de Ipueiras: a farinhada. Ah! a farinhada!...
O ritual, o mesmo de antigamente. Durante o dia a algazarra de meninos descascando macaxeira, mulheres fazendo o mesmo serviço e entoando velhas cantigas, homens limpando o forno, trazendo mandioca numa carroça, todo esse movimento e animação antecediam o momento mágico que estava por vir. A grande noite.
E a noite, nesse dia, não se fez de rogada. Vestiu-se de beleza impar como a presentear-me. A negritude que forrava o céu aos poucos ia sendo salpicada de estrelas e, em breve tempo, o céu era um tapete mágico, reluzente, prateado à espera da rainha da noite, que não tardou a aparecer. Linda, majestosa soberana surgiu deslumbrante por detrás da serra grande, dando um ar de conto de fadas àquela noite sublime, na casa de farinha.
Enfim a lua e a tão esperada noite. As mulheres banhadas e cheirosas, apenas serviam café entre beijus e tapiocas, enquanto dos homens, eram as tarefas mais pesadas, como preparar a massa e mexer a farinha no forno. O cheirinho de farinha torrada invadia o ar. A cada nova fornada, multiplicava-se a animação. Entre gracejos e piadas, transcorria a farra da farinha.
Vivo na Cidade Maravilhosa, onde as luzes coloridas e a magnífica geografia fazem do Rio o mais belo cartão postal. Porém, tenho orgulho em dizer que minha alma sertaneja se encanta com a beleza e a magia de luas e lamparinas.*PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Frase do dia
"Não há mal que sempre dure e nem bem que nunca se acabe. É com esperança e confiança que nós vamos para o segundo turno para ganhar a eleição".

Geraldo Alckmin

terça-feira, 29 de agosto de 2006

Onde nasce o rio Jatobá - Por Bérgson Frota / Fortaleza
No livro Terra dos Clones e outras estórias o escritor ipueirense Frota Neto inicia o conto Mariazinha do Poço, assim escrevendo: "O Jatobá é um rio de areia que só se enche d'água uma vez, no inverno, e quando enche, de ano em ano. Ele não banha, corta Macambira ...", nome fictício este, com o qual o escritor se refere à Ipueiras. Em Versos versus minha Vontade, livro poético de Jeremias Catunda se lê no trabalho "Minha Terra", precisamente na segunda quadra : "Charmoso corre o velho Jatobá ... / Sereno às vezes, às vezes violento / Como se Tritão raivoso, ciumento, /A ninguém mais deixasse se banhar."
Tanta importância ao tão citado rio talvez se dê pelo fato único deste nascer em Ipueiras, precisamente no coração do município. Os dois trechos sobre o rio Jatobá mostram o quanto o rio ipueirense, embora passe mais tempo seco do que cheio, visto ser sazonal, toca com profundidade a verve poética e a prosa dos filhos da terra.
Quando o rio do Engenho, barrento, revolto, vindo dos sertões e várzeas cruza a ponte que leva ao bairro Vamos-Ver, junta-se a um outro, o rio Pai Mané, de águas límpidas e ácidas vindas da azulada Ibiapaba. É desta união que surge o Jatobá, descendo então com águas mornas e barulhentas às vezes barrentas outras silenciosas e cristalinas. Fazendo um trajeto sinuoso corta a ponte do Idálio e desce trazendo nas primeiras levas de chuva, bolas de juá, fruta lodosa e farta, misturada a mutambas negras que vão se espairar nas areientas e outras vezes barrentas margens das Crôas e das terras do Lamarão quando mais embaixo chega.
Serpenteando pelo município o rio mais além de que antes entrava no Acaraú, quando cheio hoje já deságua no açude Araras, marcando neste trajeto em épocas invernosas as rotas de piaus e curimatãns carregadas de ovas, prateadas branquinhas que rio acima se lançam em direção às cabeceiras do mesmo. Assim é o Jatobá, o rio de Ipueiras. Seco na maior parte do ano, mas quando cheio, um espetáculo borbulhante e roncador, fazendo grandes redemoinhos no seu "desfilar" como se nesse percurso afirmasse com mais força seu renascimento a cada nova estação chuvosa. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Frase do dia
"Essa é a expressão melhor, o povo está triste com o governo brasileiro. Triste pelos escândalos ".

Geraldo Alckmin

sexta-feira, 25 de agosto de 2006

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

Ipueiras perdeu um mestre - Por Renato Medeiros / Fortaleza


Edmundo Bezerra de Medeiros de todos conhecido, simplesmente, por Edmundo Medeiros, filho mais velho do casal Cesário de Sousa Medeiros e de Maria de Paiva Bezerra, nasceu a 27 de março de 1914 e que veio a falecer, a 12 de maio de 2005, aos 91 anos de idade. Ainda em tenra idade e agindo diferentemente dos jovens da época, migrou do campo para a cidade, na ânsia de estudar e, em decorrência, vislumbrar novos horizontes e melhores dias para sua vida. Demonstrou, ao longo de sua existência, talento e obstinação, a ponto de, ainda jovem, tornar-se escrevente do 1º Cartório de Nova Russas entre os anos 1932 a 1934. O seu apego a Ipueiras, seu inesquecível torrão natal, era tamanho que o fez a ela retomar definitivamente. Bafejou-lhe a sorte, nesse ínterim, ao encontrar Edite veio, logo depois, exatamente, no dia 8 de dezembro de 1936, a se tornar sua fiel esposa e inseparável companheira durante 69 anos. Desse enlace matrimonial entre Edmundo e Edite adveio proles numerosas, constituídas de 15 filhos, dos quais 10 ainda vivos Renato Bonfim, Edésio, Nemésio, Aglaê Machado, Dagmar Costa, Leda Bonfim, Graça Formiga, Fátima Fontenele, Antônio Bonfim (Tuíca) Mimosa Pessoa. Sendo 4 homens e 6 mulheres, todos bem sucedidos nas diferentes atividades que abraçaram. Possuidor de rara inteligência, Edmundo Medeiros sempre dignificou os cargos e funções que exerceu, com destaque para:
- Correspondente do Banco do Brasil, S.A., agências de Sobral e Ipu, por 33 anos
- 22 de julho de 1942 a 6 de outubro de 1975, data em que foi instalada a unidade daquela Instituição Financeira em nosso município.
- Correspondente do Banco de Crédito Comercial e do Sul América por vários anos.
- Correspondente do Jornal O POVO, por 30 anos, tornando-se, assim, membro da Associação dos Jornalistas do Interior. -Colaborador para a melhoria da justiça desta terra, exercendo a função de adjunto de promotor, por 6 anos, com todas as atribuições do cargo.
- No campo político, Edmundo Medeiros foi vereador em três legislaturas e Prefeito Municipal no biênio 1947/1948.
- Contribuição com a Educação, exercendo a função de supervisor do Ensino de 1º Grau do estado do Ceará. A par de todas essas atividades, era o comércio de tecidos, a que lhe garantia a sobrevivência própria e da família. Assim, durante 70 anos, manteve-se à frente de sua loja, constituída em seu próprio nome, onde de maneira honrosa, amável e atenciosa, atendia a todos que procuravam, quer clientes, quer amigos, quer pessoas simples do povo que necessitavam de sua orientação e de seus prestimosos serviços. Edmundo Medeiros, com certeza, amou tanto sua terra, a ponto de fazer dela a razão de ser sua vida. A prova maior disso que de lá nunca se afastou. Quis o destino, no entanto, que, embora não fosse essa a sua íntima vontade, viesse a baixar à sepultura, sua última morada, num jazigo no Parque da Paz, repousando definitivamente na companhia de Francisco, filho querido e Edite, dileta esposa que acompanhou, durante toda a vida, e agora por toda eternidade. Em síntese, soube ser Edmundo, em vida, vivificante exemplo de cristão fervoroso, de pai dedicado e de cidadão de inesgotáveis qualidades morais, razões pelas quais, aqui e agora, rogam seus entes queridos que Deus, na sua infinita misericordia, lhe dê o repouso eterno e o privilégio de privar de sua beatitude celestial. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza

quarta-feira, 23 de agosto de 2006

Frase do dia
"O Lula é que declarou apoio, o Lúcio não fez nenhuma, manifestação."

Alckmin, a propósito do uso pelo governador Lúcio Alcântara (PSDB), do Ceará, de trecho de discurso onde Lula o elogia

terça-feira, 22 de agosto de 2006

Santa Feliciana da América - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro

Capela de Santa Feliciana no distrito de América

Como toda cidade do interior, Ipueiras é rica em seu folclore, destacando-se como celeiro de interessantes estórias, "causos" e lendas.
São histórias que foram passando de boca em boca, entre um cafezinho e outro, nas palestras animadas de calçadas e alpendres.
Embora me considere uma entusiasta dessa temática, não tenho a pretensão de ser um Leonardo Mota. Pesquisador do folclore nordestino que contou tão bem nossos costumes e tradições. Mas me arrisco a pesquisar e repassar o que não deve cair no esquecimento coletivo.
Entre muitas lendas que povoam o imaginário popular de nossa gente Como:
O buraco da bala, O Lobisomem da vila Cuncun, O tronco de amarrar valente, A cruz da finada Marta, Santa Feliciana da América, eu dou destaque a essa última.
Não me lembro quando ouvi pela primeira vez esta história. Mas recordo que muito me interessou, além de emocionar-me.
Fui até a América, município de Ipueiras, fotografei a pequena capela, seu altar, e fiz uma boa pesquisa sobre a Santa Milagreira.
Dona Biluca, hoje falecida, moradora antiga do lugar, me presenteou com preciosas informações, que bem guardadas me servirão no futuro. O depoimento dos moradores é tão ou mais importante que a própria lenda.
A história da Santa da América, é contada em várias versões e uma delas eu repasso nesta crônica em homenagem ao 22 de agosto, dia do folclore.
"Contam que uma criança fraca do juízo e órfã de mãe.
Maltratada pela madrasta, sumiu no mato.
Foi encontrada morta, ao pé de uma palmeira.
Lá foi enterrada, onde se plantou uma cruz.
Algum tempo depois, lá estiveram alguns missionários,
e levaram o corpo dela que se tinha santificado.
A cova estava aberta, sendo fechada pelo vento,
Com areia branca e fina"
Dizem que a menina que virou santa já fez muitas curas milagrosas, daí o motivo de transformarem em capela, o lugar onde antes era apenas uma cruz. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

Frase do dia
"Para parte dessa elite, que deposita em nós esse ódio, o povo só era bom nas senzalas, na escravidão dos canaviais e nos andaimes da construção civil".

Aldo Rebelo (PC do B-SP), presidente da Câmara dos Deputados.

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

Devagar, eis o novo - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza


A escola é o que são seus professores. Importante, pois, ouvi-los. E investir na universalização gradual da educação voltada para o "mundo do trabalho" e a "prática social" (LDB), com remuneração condigna dos professores, em todos os níveis, em sua tarefa de formar o "cidadão, o profissional e a pessoa" (Constituição Federal). Em site do Conselho de Educação do Ceará, coordenava eu, anos atrás, na Web, a discussão "Desafios educacionais".Um dia, mensagem de um professor me chocou: "Hoje é o dia do professor. Dos alunos, ganhei uma gravata. Tenho vontade de me enforcar com ela". Hoje, anos passados, no Grupo Ethos-Paidéia, volta-nos o mesmo professor Magalhães Santa. Queixa-se da penúria salarial dos docentes e de sua enganosa capacitação. Muitos abandonam a carreira, outros adoecem. Sintoma, os gabinetes cheios dos psicólogos, homeopatas e curandeiros até. Entre eles, a competição em vez do diálogo, da solidariedade. Os alunos feitos "geração just in time", o aprender um mero chip: "o passado, roupa nova que não nos serve mais". Na contramão desse clima, chega-nos e-mail de brasileiro que, faz 18 anos, trabalha em importante empresa, responsável pela fabricação dos motores propulsores para os foguetes da Nasa, na Suécia, onde impera a ideologia do slow down, antítese do just time: qualquer projeto a ruminar-se por dois anos, por mais brilhante e simples a idéia. Nesse rumo, aponta o pensamento complexo de Edgar Morin, onde as ciências se imbricam num todo: as humanas, conscientes das bases físicas e biológicas; as naturais, de sua inserção numa cultura, história e papel social. Umas e outras, conscientes dos princípios ocultos que comandam suas elucidações e de que lhes falta uma consciência. De que o futuro pode estar imanente no passado, se re/lido a expressar o sempre. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Frase do dia
"Ou ele cometeu perjúrio, e vamos pedir a sua prisão, ou ele vem desmentir o presidente."

Do presidente do PSDB, Tasso Jereissati (CE)

terça-feira, 15 de agosto de 2006

Ipueiras de fé - Por Jean Kleber Mattos / Brasília
O primeiro casamento religioso que eu vi, foi em Ipueiras. Final dos anos quarenta, século vinte. Foi o casamento de meu padrinho de crisma, José Costa Matos com a ipueirense Alderi Moreira. Quando se é criança vê-se tudo maior, daí foi a cerimônia mais grandiosa que testemunhei nesta vida. Bonita e poderosa. Paramentos de gala com as cores do Vaticano. Fios d?ouro à vontade. Padre Francisco Correia Lima, o vigário, oficiou. A fumaça branca emanada do turíbulo embalado pelo acólito em movimentos pendulares, dava um toque mágico ao ambiente do altar-mor. Se bem me lembro, o acólito vestia uma batina vermelha. Por sobre ela, uma sobrepeliz branca, com mangas rendadas. Também uma pala vermelha. Meus conhecimentos sobre liturgia católica são escassos, mas acho que era isso.
Lembro-me de umas flores brancas artificiais muito bonitas que surgiam no altar principal em dias de festa. Adonias era o sacristão. Acendia e apagava os candelabros. Havia uns cilindros brancos que pareciam velas. Não eram. Cotos de vela eram habilmente encaixados num depósito no ápice da peça. Estes sim, velas de parafina. O acendedor era uma peça metálica na extremidade de uma vara. Também servia para apagar. Tinha um pavio e um abafador em forma de cone metálico. Tudo na mesma peça.
Aquilo tudo me encantava. Queria ser padre. "Celebrava" missas em casa. Procurava imitar os movimentos do padre. Pequenas bolachas tipo "Ceci" faziam as vezes de hóstia, para delícia dos colegas. A comunhão era sem dúvida o momento mais aguardado.
Lembro-me de minha primeira comunhão. Meus pais envolveram o Educandário na celebração. Ofereceram um café da manhã a todos os alunos. Pediram-lhes que comparecessem vestidos de branco. Os que já haviam feito a primeira comunhão comungaram comigo. Depois da missa, o café "apoteótico" na sede da escola. Todos haviam sido convidados. Uma festa para ninguém esquecer.
E o jejum para a comunhão?. Às vezes batia a hipoglicemia. As velas pareciam tremular um pouco demais. Leve desmaio. "Agonia", dizia-se. Recuperação rápida.
Eu gostava da cerimônia de "Te Deum", realizada sempre ao anoitecer. É rápida e bonita, bem ao gosto de uma criança. O ouro do cálice, a custódia dourada e radiante, o "design" do sacrário. Um encanto!
Gostaria de acolitar, mas era muito criança. Frota Neto, Nemésio, Marcondes e mais alguns, que eram maiores, já acolitavam a missa em latim. Meu amigo Nemésio, filho de "seu" Edmundo, ainda deu-me algumas lições, mas não adiantou:
- Introibo ad altare Dei...!
- ........!
- Qual é a resposta?
- Esqueci...
- Ad Deum qui lætificat juventutem meam!
Minha avó, D. Luizinha, com desvelo, confeccionou uns paramentos de cor verde, adequados ao meu tamanho. Fez-me a surpresa aproveitando um regresso meu de Fortaleza. Inesquecível.
Festas dos santos com quermesses, leilões e queima de fogos. Lembro-me de um avião artesanal que nas noites de festa corria num fio, propelido por pólvora. Ele partia da torre da igreja e ao chegar próximo ao solo, explodia. Neste momento, na Praça da Matriz, ficávamos com a respiração suspensa. Numa noite, a explosão retardou e um colega meu tentou segurar o brinquedo que então explodiu. Queimadura grave. Danos às mãos. O menino, filho de "seu" Joaquim Adelino, teria que esperar a lenta cicatrização com a mão enfaixada. Foi, durante algum tempo, o herói da meninada.
E as procissões? Andores enfeitados com flores diversas e aspargo ornamental. A impressionante rigidez das imagens. Filas de fiéis caminhantes, alguns exibindo as fitas identificadores das congregações religiosas: Marianos e Filhas de Maria em destaque. Tudo isso ao som dos hinos, contando com a harmonia da banda de música local.
Da nossa fé oh Virgem
O brado abençoai
Queremos Deus
Que é nosso Rei
Queremos Deus
Que é nosso Pai...
Havia um hino de beleza ímpar, que era entoado na hora da comunhão. Aí, destaque para a professora Diana ao harmônio:
Jesus nosso Pai
Jesus Redentor
Te adoramos
Na Eucaristia
Jesus de Maria
Jesus Rei de amor!
Este maravilhoso hinário ainda hoje me inspira, muito embora não seja assíduo à Igreja Católica atualmente. O escritor e cronista Carlos Heitor Cony, que se diz ateu, volta e meia é visto entre os fiéis, participando de missas no Rio de Janeiro. Ele também se encanta com a beleza da liturgia católica.
Somente uma cerimônia me assustava. A missa de requiem. Paramentos negros com realces brancos. O contraste total. Atmosfera pesada. Perda e sofrimento. Na véspera, o sino em toque compassado anunciando a jornada do féretro. A misericórdia da Igreja, conforme enfatizaria no futuro, o dramaturgo Nelson Rodrigues.
Quase sempre aos domingos eu via, à porta da igreja, um ou outro "anjinho" em seu pequeno esquife de cor azul clara, ornamentado com flores de "Jasmim de Caiena". Cerimônia fúnebre. Os altos índices de mortalidade infantil refletiam o subdesenvolvimento da região.
Impossível falar minimamente sobre a Igreja Católica na Ipueiras daqueles idos, sem mencionar as ladainhas vespertinas que se seguiam à reza do terço. Tudo em latim. Público predominantemente feminino. As Filhas de Maria, as donas de casa e suas crianças.
Sancta Maria, ora pro nobis.
Sancta Dei Genitrix,
Sancta Virgo virginum,
Mater Christi,
Mater divinæ gratiæ,
Mater purissima,
Mater castissima...
Lembro-me de uma professora, Zélia, amiga de minha mãe, coordenando a reza.
Quando estive em Ipueiras em 1962, com dezesseis anos, ouvi, de viva voz, em presença de minha mãe, D. Mundita, e da prima Carlinda, o relato fantástico de dois ipueirenses miraculados.
Madrugada do dia nove de novembro de 1953. Começavam os preparativos para a partida da imagem peregrina da Virgem de Fátima, vinda de Portugal e que visitava Ipueiras. Os fiéis gritavam "vivas" a Nossa Senhora. De repente um "viva" diferente se ouviu. Era Vicente, o padeiro mudo, que acabara de aclamar a santa. Bem perto dali, ainda na Praça da Matriz, bem ao lado da igreja, a mãe da catequista Isa Catunda, quase cega de catarata, disse à filha que iria para casa, que era próxima. A filha aquiesceu e disse: "eu levo a senhora". "Não precisa", respondeu a mãe: "estou vendo o caminho."..
Os milagres foram relatados mais tarde no livro "Vendo a Vida Passar" de Padre Francisco Correia Lima, com trechos reproduzidos no livro "Quase" de Frota Neto, e por Marcondes Rosa, em crônica, no site de Ipueiras.
Em regozijo, Ipueiras fez construir na rua General Sampaio, em frente à casa do padre vigário, um arco, que Frota Neto em seu livro "Quase" chamou de Arco do Triunfo de N.S. de Fátima. O monumento é hoje de alvenaria, e feito, segundo Bérgson Frota, em artigo sobre o tema no blog de Ipueiras, pelo mesmo arquiteto que fez o Cristo de Ipueiras, Pedro Frutuoso. A obra foi concluída em 1954. O arco representa o triunfo da fé do povo de Ipueiras ! *PC*

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Frase do dia
"A nossa indignação é uma mosca sem asas: não ultrapassa as janelas de nossas casas".

Versos da música "Indignação Inação" do grupo Skank

sábado, 12 de agosto de 2006

As minhas duas horas intransponíveis - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


"Um, dois, três, quatro... Vamos! E desce e sobe. Isso!" São as palavras do professor de ginástica. Turma grande, alunos empenhados e esforçados. Há os que reclamam, os que fazem careta, os que olham para o lado e dão aquela coladinha. Entretanto, ninguém pode ou quer parar. Todos agüentam até o "Chega por hoje" sem ao menos perguntar se o novo exercício é matéria de prova. Um modelo de personagens perfeitos. No espelho, o reflexo da minha ação e dos demais. Todos se enxergam. E isso é bom, dá-nos a oportunidade de nos corrigirmos. Conheço muita gente que precisa vir para o Body Balance. Talvez, alguns políticos. Será que se algumas autoridades fizessem esse programa de condicionamento postural, trabalhando força e equilíbrio o nosso ensino não mais seria a hora do recreio?
Será que se o partido de esquerda se equilibrasse no Jump Class compreenderia que ter o controle, requer traquejo e condicionamento físico?
É! A minha turma é legal. Todos sabem que devemos dançar no ritmo da música. E, por falar em música, será que a nossa se prostituiu? O Ministro da Cultura canta reggae e em Inglês. Contudo, não quero levantar esse peso ainda. A minha série mal começou.
Rosca alternada é o que eu gostaria de presentear ao Secretário de Segurança. O importante nesse exercício é a base, a mesma que os pugilistas usam. Contudo, luta mesmo pra mim é o aquecimento que faço antes das séries de exercícios. Sei que preciso estar com a musculatura bem aquecida para evitar futuras lesões; mas pedalar, correr ou fazer esteira por vinte minutos sem rumo e sem sair do lugar é coisa que o governo faz bem melhor do que eu.
Tenho certeza de que um forte exercício aeróbico é o que falta ao inerte Ministério da Saúde. Precisam encontrar a vacina para a passividade.
As mesas flexoras e extensoras são excelentes para as pernas. Recomendo-as ao juiz que concedeu habeas-corpus ao empresário que constrói casas com peças de Lego.
O peso ideal determina um bom nível de saúde e de aproveitamento das aptidões físicas que ajudam a desenvolver tarefas diárias sem fadiga excessiva. Puxada pela frente, seria o exercício apropriado ao responsável pelas altas taxas de juros.
Enquanto vou adquirindo resistência e condicionamento físico na aula de Spinning, recordo-me um dia alguém ter me falado: "a vida é como uma corrida de bicicleta, cuja meta é cumprir a Lenda Pessoal". Mas será que a vida não passa de uma narração de caráter maravilhoso, na qual os fatos históricos são deformados pela imaginação popular ou pela imaginação poética? Assusto-me com o inusitado dessa pergunta. Eu sou apenas um marombeiro. Melhor não procurar a resposta. Pelo menos, não agora. Ainda tenho alguns exercícios a fazer.
Irei trabalhar o peitoral, exercício chamado de supino reto. Preciso ter peito para "comemorar como idiota a cada fevereiro e feriado" já explanava uma Legião Urbana.
Confesso não gostar de malhar costas, mas o voador dorsal é responsável pela minha serenidade à falta de bom senso. Levo comigo alguns pesos nas costas.
Na remada aberta e/ou fechada desbravo o bravio mar da solidão. Aproximo-me da menina atabalhoada com os alteres. Pergunto em voz alta: "Quem modelou teu rosto?". "Ahã?". Disfarço e pergunto se quer ajuda. Academia também é lugar de paquera.
Volto à minha série. Já estou acabando. Faltam os abdominais infra, supra e oblíquo. Não quero ficar com aquela barriguinha saliente que evidencia a preguiça e exalta o sedentarismo.
Levanto-me, olho-me no espelho e suspendo a camisa. Um sorriso incontido reluz aos olhos. Mas ainda não acabou. É preciso dar uma alongada. Antes é opcional, mas depois dos exercícios é muito importante. Serve para manter ou para aumentar a amplitude dos movimentos. Melhora a postura; reduz as tensões articulares originárias principalmente em idosos ou indivíduos que se viciam em posições erradas no dia-a-dia e ainda diminui os riscos de lesões e distensões.Passaram-se duas horas. Há quem pergunte se vale a pena tanto esforço. Prefiro não responder. A resposta deve ser individual. Porém, se o corpo está são, a mente o acompanha. *PC*

Beto Costa é jornalista

sexta-feira, 11 de agosto de 2006

quarta-feira, 9 de agosto de 2006

Frase do dia
"Nos devemos ter grande cuidado no Dia dos Pais. Não acredito em rebelião, mas tudo é possível."

Governador Cláudio Lembo, de São Paulo

terça-feira, 8 de agosto de 2006

O Pioneiro Pinto Martins - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Na tentaiva de provar a viabilidade da rota aérea ligando as Américas (norte e sul), o cearense Euclides Pinto Martins e o piloto também brasileiro Walter Hilton, iniciaram em 4 de setembro de 1922 saindo da Flórida, o primeiro vôo dos EUA para o Brasil, na façanha que seria conhecida como rota Nova York-Rio de Janeiro, pois a primeira tentativa sem êxito havia saído do rio Hudson, no mês de agosto do mesmo ano. Os brasileiros pilotando o hidroavião biplano, de 28 metros de envergadura e dois motores "liberty" de 400 hp, cada. Acompanhados por um jornalista e um cinegrafista, decolaram uma máquina de oito mil quilos, criado na pioneira Fábrica Curtiss. O Sampaio Corrêa II, nome dado ao avião, para homenagear o senador e presidente do aeroclube do Rio de Janeiro, atravessou a América Central e em primeiro de dezembro pousou no rio Canani, no Pará, ao norte da foz do rio Amazonas, dirigindo-se para a Ilha de Maracá, Belém e Bragança aonde por força de um temporal pousou no rio Caeté. Três dias depois decolou de Bragança para São Luís do Maranhão. Em 19 de dezembro amerissou em Camocim, terra natal de Pinto Martins. O grande aviador foi muito homenageado, mas seguindo viagem para completar a missão decolou em direção a Aracati. Chegando a Fortaleza o Sampaio Corrêa II por dificuldade de amerrissagem nas agitadas águas da enseada do Mucuripe, sobrevoou a cidade por alguns minutos e seguiu de volta a Aracati, onde pernoitou e partiu no dia seguinte para Natal. Mal viajando 50 milhas o motor começou a apresentar problemas o que levou ainda em terras potiguares um pouso não planejado na Baía Formosa, perto de Canguaretama, chegando em Recife, sofreu consertos e recebeu um novo motor. No dia oito de fevereiro de 1923, precisamente às 11h32min, o Sampaio Corrêa II foi avistado sobrevoando a Baía de Guanabara. Ao pousar foram recebidos na lancha Independência do Ministério da Marinha. Pinto Martins aos 31 anos entrava para a história dos pioneiros da aviação brasileira. Em 13 de maio de 1952 o Aeroporto de Fortaleza recebia o seu nome, eternizando numa justa homenagem o cearense que levou longe o nome de seu País. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Frase do dia
"Eu estou absolutamente zen, paz e amor. Paz, amor e trabalho, que é disso que o Brasil precisa".

Geraldo Alckmin reeditando o lema de Lula na campanha de 2002

sábado, 5 de agosto de 2006

Sou igual a você - Por Paulo Felipe / Rio de Janeiro


Participei , marquei presença, estive lá... com o corpo, a alma e a coragem de ser realmente quem eu SOU!
Procurei ser LEGÍTIMO e AUTÊNTICO.
Fui até brindado por boas companhias... salve a Bahia!
Não sei exatamente, qual o numero de paradas que já marquei presença, foram tantas...
Mas, essa teve um sabor diferente. O sobrenatural pairava no ar e se fez presente, nos dando um "banho de chuva" . Banho em todos aqueles que realmente estava ali dispostos a serem o que realmente são. Dançamos, pulamos, beijamos e mostramos que somos milhares com direitos iguais a todo cidadão.
Em meio a chuva, nos livramos de alguns oportunistas, curiosos e preconceituosos que sempre se infiltram em nosso meio, era como se lavássemos nossas alma em plena orla de Copacabana e cantássemos uma musica bem conhecida:
"ai , ai, ai, ai , ai, ai... eu vou tomar um banho de chuva , um banho de chuva! "
Sentimos nosso corpo e nossa alma lavados, retirando-nos o medo do preconceito e da homofobia.
A cada ano são momentos diferentes, histórias que fazemos por um outro olhar.
Ver uma dreg quen (artista bem conhecida na noite gay) ser recebida por fotógrafos, se sentindo uma estrela, recebendo o valor merecido dos paparazos... arrasou KAIKA!!
A chegada triunfante da nossa eterna Miss Brasil Gay , sempre deslumbrante, uma foto com ela , é a certeza que lá estivemos!
Se depararmos com o ícone do mundo gay , a SEMPRE , a ÚNICA e MARAVILHOSA Laura de Vison, foi tudo de bom. Com reverência e muita alegria, de imediato tirei o meu chapéu (o boné no momento) para saudar aquela que é exemplo de respeito e autenticidade.
Por ser considerado um grande ato político, eles também estavam lá ... os políticos!... não pude deixar de cumprimentar alguns, mas com a minha candidata ao Senado e atuante Deputada Federal quis uma foto, afinal o momento é único!
Foi um momento único. Eu estive lá e quero continuar estando, enquanto precisarmos mostrar que:
somos MILHÕES;
existimos;
a HOMOFOBIA seja crime;
o projeto de UNIÃO CIVIL seja votado;
e que O PRECONCEITO MORRA!
Eu estive e estarei sempre lá. *PC*

Paulo Felipe é advogado

sexta-feira, 4 de agosto de 2006

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

Frase do dia
"A prática tem demonstrado que a reeleição não é salutar. Por que não é? Se imagina tratamento igualitário entre os candidatos . Inegavelmente, quem ocupa a cadeira e caminha no sentido da reeleição acaba por confundir os papéis."

Marco Aurélio Mello, presidente do Tribunal Superior Eleitoral

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

O Cristo, o jatobá e a estação de trem - Por Walmir Rosa / Fortaleza


Os três maiores símbolos de Ipueiras, sem desmerecer os demais valores, para mim, com certeza, são, pela ordem, o Cristo, o Jatobá e a Estação de Trem. E você, meu caro Kleber, dele tratou com maestria, nas suas duas últimas crônicas.
No "Vocabulário do Rio Jatobá", nos fez um minudente relato de seu fantástico banho de rio, acompanhando Seu Neném, seu pai; o Zaca, (irmão do Fernando, filho de seu Gustavo, que morava próximo ao Cristo, irmão de Maria Helena); e o Assis, irmão do Sebastião, meu amigo, filho de Seu Zé Fernandes, do Sítio Lagoa, na Serra. Este, bom cavaleiro e bom de copo (nos dias de feira), dono do melhor cavalo marchador (nos anos 50) do município, que, nos sábados, levava seu proprietário, numa marcha só, de volta ao lar, sem precisar de guia - conta a lenda.
Cada palavra sua me fez voltar no tempo. Curimatãs, piaus, traíras, cangatis, carás, cabeças de prego eram os peixes da época. A importação econômica e cultural fê-los ser substituídos pelos tucunarés, carás-tilápias, pecadas, tambaquis de hoje. Aqueles, no entanto, resistem tal qual o sertanejo.
Bom relembrar os enxuís, com seu saboroso mel, prêmio precedido de certeiras ferroadas, minoradas pelo fumego que espantava os rebeldes marimbondos, utilizando esterco seco de gado (que também servia, à noite, para espantar as muriçocas). Lembrei-me das apostas, para quem atravessasse o rio primeiro; das cacimbas de areia, da colheita de pedras arredondadas, para munição da bala & shy;deira, que se prestaria para abater lagartixas, calangos e passarinhos, um tempo em que não se tinha noção de preservação ecológica. Os saltos dos galhos das oiticicas, nosso trampolim matuto. Bons tempos, enfim.
O trem (ah! o trem!) é, talvez, o símbolo que mais me encanta na minha Ipueiras de antigamente. Tenho sempre vontade de escrever sobre ele, mas a preguiça e o medo de não fazê-lo direito me desvanecem. Foi bom não fazê-lo. Pude desfrutar, com você, da viagem inaugural de ida e volta a Fortaleza, comendo poeira, fumaça e as iguarias da viagem (tapioca, quebra-queixo, colchão-de-noiva, peixe frito) com guaraná Wolga, do Ipu e guaraná Sport, de Sobral, para, alfim, ser recebido, de braços abertos, pelo nosso Cristo. *PC*

Texto publicado originalmente no blog GRUPO IPUEIRAS.

terça-feira, 1 de agosto de 2006

Frase do dia
"Que não se preocupem os vizinhos do norte, que não pretendo exercer meu cargo até fazer 100 anos."

Fidel Castro, presidente de Cuba