quinta-feira, 26 de janeiro de 2006

Realidade Histórica - Por Carlos Moreira / Ipueiras

Jean - A Charge Online


A elaboração de idéias nos permite criar espaços que nos transportam, de uma maneira muitas vezes clara, ao mundo fantástico da imaginação. Dramatizar e personificar são alguns dos artifícios que o homem usa para lidar com os conflitos existentes em uma sociedade dividida, gerando, assim, um olhar crítico e decisivo.

Deparamo-nos freqüentemente com um mar de informações visuais e auditivas, não havendo tempo suficiente para refletirmos a seu respeito, haja vista que o homem desenvolve, com sua perspicácia, a capacidade de se adaptar à velocidade de um mundo cada vez mais dinâmico e intangível, efeito do avanço tecnológico e da crescente integração dos meios de comunicação, que reagem ao simples toque do "homem ciborgue".

O futuro que outrora parecia uma viagem distante e impossível hoje faz parte do nosso dia-a-dia. A evolução agora tem hora e data marcadas. Somos capazes de mudar não só simples conceitos históricos, mas a estrutura como um todo.

Um homem sem cultura é um homem sem alma, sem identidade. A comunicação é um dos fundamentos nos quais se assenta o ser humano. Através dela formulamos conceitos, ditamos regras, estabelecemos limites, unimos povos e interagimos em um mundo futurista.*PC*

terça-feira, 24 de janeiro de 2006

Personalidades de Ipueiras - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza


Em seu livro "Vendo a vida passar" (Rio, 1965. p.146), fala de uma das mais cativantes personalidades na vida de Ipueiras. Dario Catunda:
"Tenho tantas lembranças desse amigo, que poderia escrever sobre ele longamente". Um dos exemplares humanos mais nobres que conheci. Inteligência robusta, consciência honesta, coração boníssimo pela sua naturalidade de espírito tão compreensível a tudo o que era humano, que em tudo se regia pela fé.
Nos meus tempos mais difíceis em Ipueiras, quantas vezes não fui procurá-lo, ou mandei chamá-lo à casa paroquial, atendendo-me com prontidão, muita satisfação e alegria. Tinha ele sempre uma palavra de conforto, tímida às vezes, mas consoladora para todos os nossos problemas, o que muito me confortava.
Havia certas noites em que juntos andávamos em quase todas as ruas e praças da cidade, num bate-papo alegre ou sério que terminava quase sempre na casa paroquial; às vezes a conversa se concluía na tradicional e despreocupa roda do café da calçada do Zeca Bento, onde se falava de tudo, especialmente da política . *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).

sexta-feira, 20 de janeiro de 2006

A Praça Sebastião Matos - Por Bérgson Frota / Fortaleza


De todas as praças de Ipueiras uma tem uma história ímpar.
Trata-se da Praça Sebastião Matos, sua singularidade se dar por ser a única a homenagear um ex-prefeito da cidade.
Sebastião Matos foi prefeito entre (1950-1954) pela antiga UDN e sua administração se destacou pela criação de obras assistenciais as secas como também pela índole boa e humana do prefeito lembrado pelos antigos ipueirenses como o "prefeito de coração".


Mais uma vez recorrendo ao ex-prefeito Manuel Cavalcante Dias, coube o mérito de na sua primeira administração em justa homenagem inaugurar em 1969 num campo aberto que servia antes para jogos de futebol e vôlei, uma praça situada quase em frente ao Colégio Estadual Otacílio Mota que veio a receber o nome do ilustre político.
A Praça Sebastião Matos foi a terceira praça inaugurada em Ipueiras, sendo a primeira a Praça do Obelisco, em homenagem aos 50 anos da criação do município (1933), que depois foi rebatizada de Praça. Getúlio Vargas e hoje é a Praça. Maria Lima.


A segunda foi a Praça. Pe. Angelim construída na administração do prefeito Sebastião Matos em frente a Igreja Matriz homenageando com justiça o sacerdote e político que tanto lutou para tornar Ipueiras um município, sendo a terceira praça a que este artigo trata.
Com o tempo a Praça Sebastião Matos sofreu várias modificações e é hoje uma das mais belas praças de Ipueiras, guardando em comum com a praça Pe. Angelim a característica de apesar das muitas alterações sofridas não ter mudado de nome.


Com as décadas de 80 e 90 outras praças foram inauguradas, principalmente em bairros como o Vamos-Ver e outros, porém a história dos monumentos de Ipueiras continua sendo brindada com a beleza da praça Sebastião Matos, homenagem justa a um prefeito que tanto fez por sua cidade e sua população. *PC*

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

terça-feira, 17 de janeiro de 2006

A Bruxinha - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Eram seis horas da tarde, já se findava o dia.
Começava a escurecer, e o sol não mais se via.
Voltavam a pé do colégio, Mariana e Maria.
A casa das duas meninas, era no Rio do Mato.
Lugarejo bem pobre, mas também muito pacato.
Pois não é que nesse dia, a coisa mudou de figura !
Mariana e Maria avistaram, uma estranha criatura.
Mariana tremeu de medo, Maria tremeu muito mais.
Fizeram o sinal da cruz, e correram sem olhar pra trás.
Por mais que as meninas corressem, ela sempre tomava a frente.
Era uma bruxinha menina, por isso era diferente.
Numa vassoura pequena, voava alegremente.
Não era uma bruxa má, apenas uma feiticeira.
Só queria com as crianças um pouco de brincadeira,
Mariana não entendia, Maria também não.
A pobre bruxinha chorava, com aquela situação.
Estava cansada de porções, fervendo num caldeirão,
Queria novas amigas e sair da escuridão.
As meninas entraram em casa, tremendo de tanto medo.
A bruxinha desapontada vagava pelo terreiro.
Foi quando apareceu, clareando a escuridão.
Uma fada encantada com uma varinha na mão.
Apontando para todos, falou com o coração.
Sou fada dos tempos modernos, meu nome é inclusão.
Acabar com as diferenças é minha maior missão.
Toda criança merece, carinho e compreensão.
Em seguida desapareceu, deixando a paz solta no ar.
As meninas, já sem medo, não viam bruxinha por lá.
Sorridentes e felizes findaram as três a brincar. *PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2006

As borboletas de Miranda - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Miranda era uma garotinha triste que vivia num orfanato.
Para se alegrar, sempre que podia ia ao jardim ver as flores e admirar as cores e os cheiros que delas saíam.
Um dia, Miranda viu algo que lhe chamou muita atenção. Era uma borboleta de cor azul e vermelha em formato quadriculado. Imediatamente ela pôs-se a correr para capturar a pequena e bela criaturinha.
Mas a borboleta era ágil e logo sumiu num voar que parecia uma folha colorida a brilhar pelos raios do sol.
Miranda ficou triste por tê-la deixado fugir.
Em seu quarto, à noitinha, ela ficou chorando até quase amanhecer, pois sentia muito ter perdido a oportunidade de ficar com uma bela borboletinha ao seu lado.
Quando o dia amanheceu, ela correu logo para o jardim, e em vão procurou pela borboleta que havia visto no dia anterior.
Nada encontrou além de pequenos insetos.
Um dia, passeando sem interesse entre as flores, viu uma outra borboleta de cor violeta-verde. Achou que aquela era a mais linda que já tinha visto, e pôs-se a segui-la até que esta sumiu entre as rosas.
Miranda então parou e pensou que de nada adiantaria prender a criaturinha para tê-la somente para si, pois a sua beleza era a harmonia que fazia com a natureza.
Desde então passou a desenhá-las num rico caderno, observando cuidadosamente os detalhes, e capturando o que de mais belo nelas havia.
Mais tarde, ao ser adotada, transformou o seu caderno em um livro; desta forma ela dividiu com todas as crianças a grande lição que aprendeu no jardim do orfanato: a beleza das borboletas estava na sua liberdade.

Texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Gerardo Mello Mourão, poeta grego nascido em Ipueiras - Por José Luís / Fortaleza


Carlos Drummonde de Andrade, considerado um dos grandes poetas brasileiros, eternizado em bronze na praia mais famosa do Brasil, a de Copacabana, no Rio de Janeiro, assim dizia: Algumas pessoas pensam que sou o grande poeta do Brasil. O grande poeta do Brasil é o Gerardo Mello Mourão. E digo o Gerardo, como se diz o Dante. Isto resume o lugar que o escritor ipueirense Gerardo Mello Mourão ocupa na literatura brasileira e mesmo na literatura mundial. De Ezra Poud a Jorge Luís Borges e Octavio Paz, muitos já teceram encômios à força camoneana de sua poesia, que, entre outras honrarias, já chegou a ser indicada para o prêmio Nobel de literatura e, em 1997, a Guila Órfica, uma secular irmandade internacional de poetas, elegeu Gerardo como o poeta do século XX.

Mello Mourão pertence à cepa dos fundadores do País que ele denominou dos Mourões. Na realidade, toda a Serra Grande, ou Serra da Ibiapaba, foi a sede do reinado dos Mello Mourões. Ali eles nasceram, cresceram, travaram lutas, morreram em meio a conflitos e fizeram a história daquela região.

Ipueiras e o Ceará devem se orgulhar de ter um filho que resume, em si só, o que é ser universal, sem esquecer de cantar a sua aldeia. Gerardo Mello Mourão, se orgulha de sua terra, de sua gente. Sempre que pode está aqui e revive seus dias de infância. Em 2003, quando recebeu o título de Cidadão Guaraciabense, outorgado pela Câmara Municipal de Guaraciaba do Norte, o poeta dizia que aquela terra também é sua. A sua família floresceu na Matriz de São Gonçalo dos Mourões, na chã da Ibiapaba, na Ipueiras de tantos Mellos, tantos Mourões.

No início da vida, Mello Mourão, nascido a 8 de janeiro de 1917, e batizado, quatro dias depois no dia 12 do mesmo mês, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Ipueiras pelo primo monsenhor José de Lima, decidiu ser padre e seguiu para o seminário a fim de se tornar sacerdote, mas a vida o levou para outras atividades.

Sendo o maior poeta do Brasil, Gerardo se diz cearense há mais de quatrocentos anos e quando dizemos que é poeta grego, nascido em Ipueiras, é porque poucos escrevem ou falam grego igual a ele na América. Em seu livro Os Peãs e até mesmo n´O País dos Mourões, encontramos trechos inteiros nesse idioma por ele tão bem dominado.

Cidadão do mundo, ele perdeu a conta de quantos títulos de cidadãos honorário e Doutor Honoris Causa possui, destacando os de Quebec, de Paris, de Valparaíso, no Chile, entre outros e as muitas cidades do Brasil que o possuem como filho honorário. O poeta diz: Fui amassado no barro bom para o homem. Nunca me saíram da memória da retina as palmeiras e os chapadões da serra azul, por onde os jesuítas temerários escreveram com o próprio sangue o capítulo inaugural da primeira navegação mediterrâneo do Brasil, singrando o sertão e a cordilheira, entre o Ceará e o Piauí. Guardo nos ouvidos da memória o estrondo dos bacamartes com que meus antepassados, Mellos e Mourões, se engolfaram na guerra fratricida, sustentada pela bravura do coronel José de Barros Mello, oito vezes meu tetravô, chamado O Cascavel, ao enfrentar a fúria vingadora de seu cunhado e primo-irmão, também meu tio-tetravô, o indomável Alexandre Mourão, que levou sua guerra até o Rio Grande do Norte, a Paraíba e Pernambuco, com a galhardia romântica de um capitão da Renascença.

Poeta, jornalista (foi correspondente da Folha de São Paulo na China durante trinta anos), político, cristão, guardião das tradições nordestinas, passou vários anos na prisão em diferentes períodos, por conta de suas ideologias, as quais, mesmo aos 87 anos, nunca abandonou.

No cárcere, escreveu o primeiro romance O Vale de Espadas, que se segue da trilogia Os Peãs, O País dos Mourões, A invenção do Mar e tantos outros.

Sábio como poucos, o poeta é devoto de São Gonçalo Majella, seu patrono na Academia Brasileira de Hagiologia, por mim fundada juntamente com as escritoras Matusahila Santiago e Gizela Nunes da Costa. Quando lançou o livro biográfico O Bêbado de Deus, sobre São Geraldo Majella (1726-1755), afirmou na imprensa que Trocaria tudo o que sei e tudo que escrevi pela sabedoria do pequeno alfaiate de aldeia que conversava com Deus e os anjos em sua aldeia dos Apeninos.

Gerardo Mello Mourão é um orgulho nacional e patrimônio da cultura e, nós que somos originários do País dos Mourões (a Serra de Ibiapaba), reverenciamos, lisonjeados, sua sabedoria e reconhecemos o contributo por ele dado à literatura universal. *PC*

José Luís é Professor da UVA, Presidente da Academia Brasileira de Hagiologia

segunda-feira, 9 de janeiro de 2006

A bodega - Por Tânia Alves / Fortaleza


Com duas portas de madeira fornida e desgastada, a bodega ficava no Centro da pequena cidade, próxima a tantas outras no mesmo estilo na zona comercial. Era ali no meio de surrões cheios de farinha, milho, feijão e goma; de litros e mais litros de cachaça; com rolos de fumo de palha em cima do balcão e prateleiras escassas de mercadorias que as pessoas se encontravam aos sábados, dia de feira. Do outro lado do balcão, ficava o dono da mercearia, um filho e um sobrinho que eram os ajudantes.
Os fregueses iam de longe das comunidades da zona rural ou da periferia. Gostavam de freqüentar o recinto apertado, ficar por ali sentados em tamboretes de madeira ou encostados nos sacos. Muitos iam à bodega não somente para comprar um quilo de açúcar ou de arroz, ou adquirir uma lata de óleo, mas também para jogar conversa fora, encontrar os amigos. Passavam horas e horas tomando cachaça, genebra, Conhaque de Alcatrão de São João da Barra ou guaraná quente. De cada dose, jogavam um pouquinho no chão (acho que era para o santo) e tiravam o gosto com uma mão cheia de farinha branca ou d`água.
Deixavam guardados no local os sacos com as primeiras compras do dia, as carnes e os peixes amarrados com embiras e que o comerciante colocava pendurados em pregos na parede. Voltavam para a feira para fazer outras compras.
Retornavam, no fim da manhã, para buscar os sacos deixados na mercearia e voltavam para casa.
Numa época em que as cartas eram a única forma de comunicação possível, a bodega também funcionava como correio informal entre os pais de família que partiam para o Rio, São Paulo ou Brasília e as mulheres que ficavam na cidade. Antes da viagem, combinavam com o dono da mercearia que enviariam cartas aos cuidados dele para serem entregue aos familiares. Na parte do destinatário vinha escrito: para fulano de tal, no Riacho das Flores, aos cuidados de Vicente Rosendo (que era o dono da bodega). O carteiro entregava a correspondência ao comerciante, que se encarregava de fazer chegar até o destinatário.
No sábado, as pessoas apareciam na mercearia igualmente em busca das cartas. O filho do dono da venda pegava o maço de correspondências que ficava em cima de uma mesa e lia os nomes de todos os destinatários. As vezes, não tinha chegado nada para a pessoa que ia em busca de notícias, mas aparecia uma carta para um vizinho na comunidade e ela se encarregava de entregar. Sempre dava certo, não havia extravio. Ali, as pessoas deixavam ainda as cartas para serem enviadas. Todos os dias, por volta das 9 horas, o ajudante saía da bodega e levava a correspondência para ser postada.
Foi assim durante anos, até surgirem outras formas de comunicação. Além disso, o bodegueiro ficou cansado, havia envelhecido. Após a aposentadoria, decidiu fechar a bodega. Mas enquanto pôde, nunca deixou de ir para a "rua" (centro comercial) um dia sequer. O filho dele viajou por Fortaleza, São Paulo e voltou para a cidadezinha. Como o pai, montou uma bodega, que também é freqüentada por pessoas que moram na zona rural. No dia de feira, os fregueses continuam deixando compras no local para guardar (as carnes agora ficam em freezer) e ainda de permanecer por ali conversando sentados e, banquinhos de madeira tomando, agora, cerveja gelada.

Publicado na coluna Ceará do jornal O Povo, de Fortaleza.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2006

O Canto da Guerreira - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro




Ipueiras dos cantos e recantos,
que canto em tom de saudade.
Do frouxo riso da infância.
Dos gozops da mocidade.
Da semente outrora plantada,
Fartura na maturidade.

Ipueiras da menina feliz,
que gostava de cirandar,
No gira-gira da vida.
Faceira a namorar,
no seu mundo de alegria,
gostava de se encantar.

Ipueiras das serenatas,
que corriam becos e ruas.
Dos jovens apaixonados,
cantando ao clarão da luz.
Da miragem feito mulher,
na janela seminua.

Cenário da inocência.
Caminhos da perdição.
Roteiro de uma vida,
transbordante de emoção,
uma guerreira, uma lenda,
teve Ipueiras em seu chão.

Na flor da maturidade,
carrega seu esplendor.
Mesnosprezando a hipocrisia,
ergue o estandarte do amor.
E beija em sinal de respeito,
a bandeira que hasteou. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal
O Povo, de Fortaleza.

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2006

Um pracinha de Ipueiras - por Bérgson Frota / Fortaleza



Sessenta anos se passaram e o mundo continua a lembrar as tragédias da II Guerra Mundial, histórias de um holocausto, período em que a humanidade mostrou seu lado mais negro.
Para um jovem de 23 anos, Olavo Moreira Catunda, o ano de 1942 foi marcante, precisamente no mês de julho recebia ele do prefeito de Ipueiras, na época quem exercia na cidade o cargo de chefe do serviço militar, sua convocação para a guerra.
Em 20 de julho partia de Ipueiras em direção a Sobral onde seria reunido a outros convocados oriundos de cidades vizinhas da zona norte do Estado.
Os convocados demoraram pouco na cidade sendo enviados a Fortaleza e depois embarcados para Natal, onde durante dois anos integraram o 16º RI (Regimento de Infantaria), logo depois em outubro de 1944 juntamente com uma tropa numerosa partiram em direção ao Rio de Janeiro onde embarcaram no grande navio de tropas americano M.C. Meigs, que levava entre tropas e tripulação 8 mil homens para os campos de guerra na Europa.
A travessia do Atlântico foi a primeira grande prova para os pracinhas, por ser um grande alvo a submarinos alemães, o navio americano foi acompanhado por duas lanchas torpedeiros, um grande encouraçado e mais dois navios de guerra brasileiros com tropas sendo um deles o célebre Duque de Caxias.
Ao fim de dezesseis dias de viagem desembarcaram no porto de Nápoles (Itália) entre final de novembro e início de dezembro de 1944. Olavo Catunda fez parte do segundo grupo de brasileiros incorporados ao 5º Exército Americano.
Desempenhando papel de bravura em combates num clima hostil de inverno avançaram pela região da Toscana fazendo em grupos divididos o recuo em mais de 400 quilômetros das tropas germânicas.
Conquistas como Monte Castelo (o mais demorado e onde mais brasileiros caíram), Montese, Fornovo, Zocca, Collechio, Soprassasso, Castelnovo e La Serra ficaram marcadas na vida deste pracinha cearense.
No fim da guerra regressou à Nápoles, logo embarcando para o Rio, chegando a Ipueiras em novembro de 1945 com o título de segundo sargento da infantaria sendo depois reformado para o posto de segundo tenente.
Olavo Catunda ainda em Ipueiras foi nomeado prefeito durante o ano de 1947, depois vindo a residir em Fortaleza.
No ano em que o Grande Conflito completa 60 anos, este pracinha cearense contempla um passado não tão feliz, pela morte de tantos companheiros e a lembrança de tanta destruição, mas com a consciência tranqüila de que cumpriu na Grande Guerra seu maior e mais difícil dever cívico.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

O Sapo e a Lua - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Numa pequena lagoa nas encostas de um monte vivia um sapo. Mas não era um sapo comum, era ambicioso e, enquanto os outros sapos cantavam, procurando acasalar-se, ele virava os olhos para o céu e contemplava apaixonado a lua.

Todas as noites, quando já escurecia, ele virava os olhos para cima procurando o prateado disco.

A lua notou um dia aquele olhar amoroso e de uma forma que só o sapo percebia ela passou a lhe corresponder.

Os sapos riam dele, daquele sapo que só tinha olhos para o céu e em toda a lagoa ele era motivo de chacota.

O sapo se entristecia, pois sabia que seu amor, embora correspondido, nunca seria concretizado. Ele queria subir à lua e ficar juntinho dela. Como poderia, se ela ficava tão longe, lá no céu?

A conselho de um jacaré, passou a pular mais alto do que todos os outros sapos, na intenção de num dos pulos chegar junto da lua.

Mas tudo era em vão e ele acabava cansado e cada vez mais desanimado.

Um dia começou uma forte ventania que obrigou a todos os pequenos animais da floresta a se abrigarem. O vento se transformou num forte tufão, então o sapo teve a idéia de se jogar na ventania e talvez assim chegar a sua amada lua.

No meio do tufão o sapo rodopiou e foi subindo, subindo até sumir por completo.

Da floresta então o sapo desapareceu.

Na primeira lua cheia, seus companheiros, cheios de inveja, viram na lua o pequeno sapo a pular alegremente no seio de sua amada. Esta foi a sua recompensa por acreditar no impossível. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.