quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Sou brasileiro e não me envergonho nunca! - Por Beto Costa / Rio de Janeiro

A minha primeira ação efetiva do dia é ler o jornal enquanto tomo o café da manhã. Mas hoje as notícias começaram a me embrulhar o estômago. Não sei se foi o meu previsível mau humor por meu time ter perdido a final do campeonato para um timinho do interior de São Paulo ou se finalmente enxerguei que o jornal está mergulhado no sangue da vaidade. Escândalos políticos, fraudes, crimes policiais, fofocas, tropeço da seleção brasileira de futebol são as manchetes de capa mais usuais. O desafio é trazer o furo de reportagem da modelo Tal beijando o famoso Fulano. Isso vale foto de meia ou até de página inteira! É impressionante como a evolução do ser humano nada mais é do que uma corrida ao desejo imoderado de atrair atenção.Sinceramente, não tenho a pretensão de ser o ditador de valores e costumes, mas algo me incomoda. Talvez seja vergonha por ser brasileiro. E não pergunte por que ainda não me acostumei nem afirme que em toda parte do mundo é assim. Não sou nenhum Papagaio de Pirata tampouco Maria Chuteira. Eu tenho um nome e uma história a preservar.Ao virar a página percebo que até o piloto brazuca da Fórmula 1 tá de saco cheio! No caderno de turismo constato que a nossa fama além mar é devida às belezas naturais. E quem não gosta da mulata de fio dental sambando e rebolando até o chão nas areias de Copacabana? Cartão postal mais belo não há! Mas já pensou se pudéssemos pôr como postal os políticos do mensalão? Talvez o turismo aumentasse. A frase publicitária poderia ser: "Conheça o Brasil e pegue o quanto quiser" ou então "Perca a vergonha você também".Eterna promessa, o verde e amarelo começa a desbotar na bandeira que tremula sem direção. O devaneio poético do Hino Nacional é decorado pelas crianças quando têm escola para ir. E assim o ensino se fundamenta. Aprovado é quem tem maior capacidade de memorizar.Ao virar mais uma página leio que as esferas federais, estaduais e municipais leiloam a incumbência de quem vai assumir o gerenciamento de determinados hospitais. No caderno de economia a notícia de deflação! Deflação? Ah, é! O preço das passagens não sobe há mais de um mês! Talvez tenha sido por causa da desinflação que o trabalhador voltou a sorrir. Comemoremos! Tivemos aumento no salário mínimo! Agora com o troco podemos comprar aquele biscoito recheado que sempre consideramos supérfluo.Numa matéria de página inteira descreve-se que sonegar o imposto de renda pode resultar em prisão. Sem querer justificar essa ação ilícita, me interrogo sobre a ausência de uma matéria sobre os ilusórios incentivos ficais, que, dependendo da empresa - Simples, Micro, Pequena ou Grande, a cada nota fiscal emitida há impostos como ISS, ICM, Confins, Pis, IRPJ dentre outros que podem totalizar 30% do valor do produto. Mas tudo bem! Isso não vende jornal.Viro mais algumas páginas e encontro o caderno cultural. É impressionante! Só há informes publicitários e releases. Onde estão as matérias? As críticas? Os artigos? Ih! Essa comédia teatral vai estrear hoje? Nossa! O preço da entrada não é nada atraente.As páginas policiais desisto de ler. Mais policiais envolvidos em chacinas... Chega! É muita decepção por um dia. Dobro o jornal e chamo a servente. Ela coleciona os selos promocionais. E como sou brasileiro e não me envergonho nunca, vou chamar a secretária com aquele decote saliente. Precisamos conversar. *PC*

Beto Costa é jornalista
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