segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Salada de Frutas - Por Beto Costa / Rio de Janeiro

Há uma semana aceitei o desafio de escrever um livro infantil sobre as frutas. O meu objetivo é passar para as crianças que, além da beleza e do sabor, há nelas um poder medicinal capaz de curar ou prevenir muitas doenças. Seria muito bom que a minha mãe tivesse me dado maçãs frescas raladas ou até o suco durante a fase aguda da faringite que tive aos treze anos de idade. Em vez disso, tomei um remédio horrível. Não sei se era antibiótico ou xarope, mas ainda faço careta só de me lembrar do gosto. Entretanto, as folhas a minha frente permanecem mudas. Não consigo escrever nada! Cada linha que consigo chegar ao fim é um alívio. Mas logo releio e nada faz sentido. Mais uma folha pro lixo. Já tentei fazer das frutas personagens, como numa historinha em quadrinhos. Mas logo descubro a diferença entre estórias e história.Uma chata dor de cabeça começou a me acompanhar. Talvez seja apenas um resfriado.Os dias vão passando e ainda não consigo fazer um capítulo sequer. Busco um atrativo. Um livro que seduza crianças e adultos. Já pensei até em montar um livro jogo, uma espécie de RPG, mas a editora não me disponibiliza tanto tempo assim. Aliás, o recado deixado há pouco na secretária eletrônica foi do propenso revisor do livro querendo saber uma previsão de entrega. Nada mais do que uma forma de pressão! Preciso de um suco de maracujá. Calmante melhor não há. Misturado com mel então... Que delícia! Contudo, se eu o beber agora, acho que irei dormir e isso não quero e nem posso. Nessas horas percebo como o tempo é precioso e cruel ao me negar a concessão de mais algumas horas.A verdade é que estou cansado. Por três vezes minha cabeça pesou pra frente, só parando ao bater no teclado. Foi quando esfreguei as mãos com força no rosto. Espreguicei todo o corpo e fui tomar um banho gelado. Algo havia mudado. Eu precisava escrever e pronto. Estalei os dedos. Me ajeitei na cadeira. E comecei a escrever. Consegui fechar o segundo capítulo dizendo que, embora muitos não saibam, o limão é uma fruta. E o seu suco evita a acne, a amigdalite, a asma, a faringite e a gripe. Tanta vitamina na pequena bolinha verde que Pedrinho fazia de malabares num sinal de trânsito para levar um dinheirinho extra para casa.Mas antes de começar o terceiro capítulo o sono foi mais forte. Cheguei o laptop pro lado e me rendi. Foi quando começou a minha viagem. A mais insólita de todas que já vivi. Caí numa espécie de País das Maravilhas. Todos eram frutas, menos eu. Entretanto, para continuar respirando naquele mundo, eu precisava me transformar numa fruta. Pelo menos foi o que disse o espevitado Morango, que antes de sair correndo me deu um beijo na boca. Naquele momento eu estava tonto e com um objetivo: me transformar numa fruta. Mas qual? E como?Admito ter me sentido sozinho. Tudo era muito louco. Comecei a andar. No começo pensei presenciar um forte outono, pois o caminho estava coberto por folhas secas. Mas com o andar percebi que era a Natureza me dando as boas vindas.Antes da primeira curva encontrei a Melancia chorando. Perguntei o porquê de tanta tristeza. Com a voz embargada e muito assustada com a minha presença, disse que não queria mais ser tão grande, pois era sempre a primeira a ser encontrada no esconde-esconde.
"- Ah, que isso! Você não é tão grande assim. O seu tamanho é proporcional às suas utilidades médicas".
"- Como assim?", ela perguntou enquanto enxugava as lágrimas.
"- Olha só, com o seu suco se combate a febre. Você ainda é muito proveitosa no combate a distúrbios no metabolismo do ácido úrico e a dores produzidas por ferimentos. Isso sem falar no reumatismo, que você tanto ameniza".A Melancia então reencontrou o sorriso. Às vezes, precisamos lembrar o quanto somos importantes para os outros.Ela então me desejou sorte e disse não me acompanhar por estar esperando o caminhão que iria leva-la à feira. Todavia, indicou-me um atalho.A estrada proporcionava um grande prazer, embora eu estivesse correndo contra o tempo. Tudo era fascinante. Muito ar puro e aquele cheirinho maravilhoso de natureza. O que mais me incomodava era não saber pra onde eu estava indo. Por isso, tanto fazia virar a próxima direita ou esquerda. Mas como é para frente que se anda, segui na reta.De repente, um susto. A Laranja havia espirrado. Olhei para o lado e antes que eu lhe fizesse alguma pergunta ela falou:
"- Não se assuste, jovem. Esse meu espirro é por causa dos agrotóxicos que vocês usam. Sabe, se um dia vocês entenderem que Deus nos fez perfeitos e não precisamos mascarar a nossa aparência, vocês humanos aprenderão o que é viver".O meu olhar espantado para a dona Laranja logo se transformou em admiração, apesar de tudo ser muito louco para a minha compreensão. De trás do laranjal aparece o viril Banana, mais conhecido como Fê, por ser rico em ferro. Na minha frente estavam as duas espécies mais procuradas e apreciadas pelos humanos. E o mais irracional era o papo deles. Pareciam velhos amigos.Quando o silêncio se fez presente, perguntei como eu apareci ali e ainda fui obrigado a aceitar uma missão. Diante dessas inquietantes indagações, a dona Laranja falou não entender o meu espanto, pois assim é a vida. Nesse momento, me senti curado do resfriado. A dor de cabeça passara. Enxerguei o meu íntimo medo.Mais confiante, as celebridades pediram que eu procurasse o professor Mamão ou a matriarca de todas as frutas, a rainha Maçã.Durante o caminho fiz algumas amizades e descobri que era mentira que eu precisava me transformar numa fruta para continuar vivo. Não devemos acreditar em tudo que nos dizem. Foi a lição que a doce Nêspera, muito indicada contra angina, me ensinou.Cansado, mas sem desistir, encontrei o professor Mamão. Talvez ele tenha esse status por ser uma das melhores frutas do mundo, tanto pelo seu valor nutritivo como pelo seu poder medicinal. Todas as frutas admiram os seus efeitos benéficos sobre os tecidos vivos.
"- Professor, me disseram que o senhor pode me ajudar a voltar pra casa. É verdade?". Não obtive resposta. Refiz a pergunta por mais quatro vezes e nada. Finalmente, um sinal. Andou em minha direção. Parou e perguntou:
"- Pra que tanta pressa de chegar, meu jovem?".
"- Olha, eu já estou cansado de nunca encontrar respostas. Eu quero apenas voltar pra casa e terminar o meu trabalho".O sério professor sorriu e com o ar sereno que lhe era peculiar falou que a minha ansiedade ainda iria me atrapalhar muito. Então, ele abriu uma porta e pediu para que eu entrasse.Com cinco passos a frente a porta se fechou. A sala tinha um trono vazio e um espelho que cercava todo o aposento circular. De dentro de um baú sai a matriarca Maçã.
"- É, menino, você já andou um bocado até chegar aqui, hein? Mas eu sabia que você chegaria. Sabe, você mudou muito desde a vez que caí sobre a sua cabeça enquanto passava férias na casa do seu avô. Naquela ocasião, você estava adormecido de tanto cansaço e fome, depois de inúmeras tentativas frustradas de tentar tirar algumas maçãs do pé, e não me comeu. Você me levou para casa para que a sua avó me cozinhasse bem picadinha e, ao misturar mel, desse o caldo quente para curar o catarro pulmonar da sua irmã. Hoje em dia você está muito objetivo e sucinto ao mundo. Eu quis trazê-lo aqui para lhe dar uma licença do real. Sinta-se. E perceba que o mundo é bem menos complicado do que você gostaria".Sem saber o que falar e fazer, apenas ouvi. Foi quando... Trim! Trim! Trim! O telefone me despertou. Que sonho mais real! No outro lado da linha, o diretor executivo da editora marcava uma reunião para fecharmos os próximos livros.Aceitei mais esse desafio por acreditar mais ainda em mim. Dizem que a natureza tem sempre a nos ensinar. E talvez seja por isso que a chamemos de Mãe Natureza. Ainda não sei bem, mas agora estou cheio de novas idéias para desenvolver os capítulos restantes. Afinal, é a minha assinatura que vai delimitar a fronteira entre o desejo e o devir. Mas antes irei fazer uma salada de frutas para o café da manhã. *PC*

Beto Costa é jornalista
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