quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

A Rainha do Ignoto - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Publicado em 1899, A Rainha do Ignoto foi descoberta há pouco tempo pelo pesquisador e crítico Otacílio Colares, que prefaciou a segunda edição do romance em 1980. A obra de características fantásticas entre o mundo sertanejo e o cotidiano regional, tem a sua trama enriquecida com os costumes e tradições do interior cearense da época. O fantástico se apresenta de forma natural e é aos poucos aceito pelo leitor atento, que dificilmente não se deixa envolver pelo cativante enredo da rama. A Rainha do Ignoto é uma mulher vestida de branco que num barco desce à noite pelo rio Jaguaribe, e não deixa de ser uma fantástica aparição pelos seres bizarros e mágicos com que se deixa acompanhar. Conhecida por muitos como "Funesta" e por outros "Fada do Arerê", ela mexe com a imaginação e curiosidade de um rico moço recém-formado, vindo de Recife. Desde a primeira vez que a vê, Dr. Edmundo passa a tê-la quase como uma obsessão em sua vida. Saber quem é, o que quer e o que faz passam a ser as razões da vida deste personagem coadjuvante da trama. Governa esta aparição um mundo dominado por mulheres "as paladinas" que juntas distribuem aos humildes e necessitados os benefícios de que tanto carecem. Fundindo o imaginário fantástico às necessidades sociais e as opressões patriarcais que já tanto afligiam a nossa população. Quando já no fim do romance decide morrer. A protagonista deixa-se conhecer sem antes discursar, cantar e tocar. Todos os traços presentes em contos fantásticos parecem estar presentes neste trecho, é como se estas artes fossem um elo entre a fantasia e as durezas da vida real. O que mais impressiona no livro, são as metamorfoses dos seres que de humanos vão ganhando traços animalescos e por isso repelentes. Como metáfora da fantasia quando perdida o seu encanto. Natural de Aracati, Emília de Freitas viveu entre 1855 a 1908, com o falecimento do pai em 1869 transferiu-se com a família para Fortaleza. Estudando Francês, Inglês, Aritmética e Geografia numa conceituada escola particular, daí se deduz a grande ifluência ao realismo fantástico de contos e novelas européias da época. As fantásticas criaturas e a figura feminina que incorpora a personagem principal, fazem da obra A Rainha do Ignoto, um trabalho de rara preciosidade, não só para o período em que foi escrito, como pelo tema que não deixa de ser tão atual ao universo literário latino-americano e finalmente por ter sido escrito por uma mulher, escritora de rara verve narrativa. Emília de Freitas com esta obra, hoje apontada como pioneira do realismo fantástico no Brasil, entra para a lista das grandes escritoras de acurada sensibilidade do real e imaginário dentro da literatura brasileira. *PC*
Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

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