segunda-feira, 25 de dezembro de 2006

Mudaria o Natal ou mudei eu? - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Sinto-me esse homem, do Velho Machado. E me lembro, dos tempos iniciais da Rádio Universitária (FM), quando lançamos, certa feita, uma mensagem de Natal, que dizia: "Neste Natal, lembre-se do aniversariante".
Hoje, vejo lojas voltarem aos presépios. E até cadeias de supermercados e shoppings centers, olhares ávidos sobre os 13º salários nossos, arquivarem estranhos papais-noéis, reeditando os presépios de outrora.
Na estante, acena-me o livro Terapeutas do Deserto - De Fílon de Ale xandria e Francisco de Assis a Graf Dürkheim - de Jean-Yves Leloup e Leonardo Boff, editado pela Editora Vozes. Do Prólogo da obra, extraiamos o que nos conta Pierre Weil, Reitor da Unipaz:
"(...) Eu tinha acabado de conhecer Jean-Yves Leloup. Resolvi convidá-lo para uma conversa com Monique e surgiu daí uma situação muito curiosa. Jean-Yves dizia-se também muito cansado. Dirigia nesta época o Centro Internacional de la Sainte Baulme, no sul da França, o qual tinha todas as características de uma universidade holística.
A Sainte Baulme está edificada sobre uma gruta e reza a tradição que Maria Madalena ao chegar à França, após a morte do Cristo, aí se refugiou. Jean-Yves fez uma escola, e,de uma certa maneira,exercia o seu sacerdócio recuperando pessoas marginalizadas por vícios diversos e "ovelhas" perdidas, como eu mesmo presenciei. Era um trabalho muito bonito, procurando dar à tradição cristã o seu sentido original. Um trabalho semelhante ao que Leonardo Boff vem realizando, há muitos anos, no Brasil.
Reunimo-nos em Paris e Jean-Yves falou assim: "Já que estamos todos cansados, façamos uma coisa maior. Criemos a Universidade Holística Internacional". Fizemos os estatutos, registramos na Prefeitura de Paris e, ainda na Sainte Baulme, realizamos um primeiro seminário intitulado: "A aliança" . Foi realmente um grande encontro, um evento histórico que cul­minou com a colocação do nome Aliança em um monumento da Av. de La Grande Armée em Paris. Nessa ocasião, redigimos também o programa do Curso de Formação Holística de Base. Isto ocorreu há mais de dez anos.
Depois vim para o Brasil e vocês conhecem o resto da estória. O Governador José Aparecido de Oliveira, sonhando com uma instituição como essa, convidou-me para iniciá-la e dirigi-la e, dessa maneira, nasceu a Universidade Holística Internacional em Brasília.
Entre os frutos desta universidade, tivemos este seminário, cujos conferencistas, Jean- Yves Leloup e Leonardo Boff, souberam nos brindar com o melhor de Fílon e seus Terapeutas, Graf Dürckheim e Francisco de Assis."

Francisco, o homem ecológico, o irmão universal (Leonardo Boff)

"(...) Tracei os grandes tópicos da vida de Francisco que serão depois aprofundados. Falaremos, nessa oportunidade, da santa humanidade de Jesus, da recuperação do presépio, da Eucaristia e de tudo o que recorda a passagem de Cristo por este mundo e que Francisco fez questão de lembrar. Ele recupera toda uma tradição que afastou Jesus da sua humanidade, fazendo-o Deus, Senhor, Imperador. Traz de volta Jesus como servo, sofredor, como o irmão de cada pessoa humana. Os textos referem que ele dizia: 'Que beleza termos um Deus que é irmão nosso! Que lindo, que extraordinário que ele nasça, que ele chore, choramingue, que ele mame o leite no peito de sua mãe!'
Francisco não pensa nos dogmas abstratos de Calcedônia ou de Nicéia, na natureza divina, nascendo junto com a natureza humana. Não. Ele pensa na criancinha que chora, que mama, e ele diz: 'Vamos arranjar uns paninhos, porque ele está tremendo de frio'. E assim representa o presépio, cria o presépio tal qual o conhecemos hoje em dia. O presépio é uma invenção de São Francisco, para dar carne à sua identificação. A Via-Sacra também é uma invenção de São Francisco e nela vemos, até hoje, as estações da Paixão do Cristo, novamente em seu processo de identificação.
Além disso, ele se identifica com a natureza e seus elementos como irmãos e irmãs. Ele é irmão da cigarra, da abelha, da lesma, do irmão lobo de Gubbio e até da Irmã Morte. Essa identificação é uma grande trajetória. E por que ela é importante para nós nos dias de hoje? Porque São Francisco não é mais dos franciscanos, não é mais da Igreja, não é mais do Ocidente. Ele é um arquétipo da humanidade. Como todo arquétipo, ele sempre renasce, sempre vive, ganha novas figurações. Transformou-se no arquétipo do homem cordial que raça todos os seres e com eles se identifica.
Na biografia de São Francisco feita por São Boaventura tem uma frase que diz: 'Francisco era tão inocente que nele renasceu o homo matinalis, o homem matinal da primeira manhã da criação'. O homem ecológico, o irmão universal que confraterniza com tudo, que religa todas as coisas, religa as mais distantes às mais próximas. Francisco casa os céus com os abismos, as estrelas com as formigas e faz uma síntese, das mais fascinantes e das mais generosas da humanidade, a partir de dentro. Une a ecologia interior com a ecologia exterior.
No Oriente, japoneses, coreanos, indianos, veneram São Francisco mais do que ao Cristo. Tudo o que é escrito sobre ele traduzido - esse meu livro sobre São Francisco tem mais de dez edições no Japão. Porque São Francisco é mais Zen...
O papa, em 29 de novembro de 1987, de um modo muito inteligente, proclamou-o Patrono da Ecologia. Eu acho que ele é mais do que Patrono da Ecologia. Ele é um dos arquétipos da humanidade reconciliada. Através dele podemos ter esperança o de nos resgatar, de nos reconciliar com todas as coisas e antecipar a utopia do Reino de Deus dentro de nós que rompe para fora como utopia e como realização histórica. Por isso, ele é alguém que fala à subjetividade profunda dos seres humanos, de todos aqueles que estão buscando. Por isso, ele é atual e nós é que somos velhos (...)"
"Pois assim como num só corpo temos muitos membros e os membros não têm todos a mesma função, de modo análogo, nós somos muitos e formamos um só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros. Tendo porém dons diferentes, segundo a graça que nos foi dada, quem tem o dom do serviço, o exerça servindo; quem o do ensino, ensinando; quem o da exortação, exortando. Que o vosso amor seja sem hipocrisia, detestando o mal e apegados ao bem; com amor fraterno, tendo carinho uns para com os outros, cada um considerando o outro como mais digno de estima." (Paulo. Apóstolo, Rm. 2, 4-10, citado por Jean Ives LeLoup)

O SER HUMANO É UM ENTRELAÇAMENTO,UM NÓ DE RELAÇÕES (LEONARDO BOFF)

A mais rica definição do ser humano que encontrei até hoje é a definição de um grande escritor francês, chamado Antoine de Saint-Exupery, em seu romance La Citadelle - A cidadela. Ele diz: L'être humain est un noeud des relations - "O ser humano é um nó de relações" .
O ser humano é um nó de relações, voltado em todas as direções - para cima, para o sonho; para o alto, para Deus; para dentro de si, para o seu coração; para os lados, para os seus irmãos e irmãs; para baixo, para a terra, para a natureza. Relações em todas as direções. E o ser humano só se realiza, se ele agiliza, se ele articula as relações. Se corta as relações, ele empobrece. Então, eu diria que esta antropologia é pan-relacional, é uma antropologia ecológica.
O que é a ecologia? Pierre Weil falou disso recentemente. A ecologia é a relação e não existe nada fora da relação. Porque tudo tem a ver com tudo, em todos os momentos e em todas as circunstâncias. Não existem as coisas, existem as pontes que fundam as coisas. Não existem os objetos, existem as subjetividades que têm história, que estão abertas umas às outras, as relações que envolvem todo mundo. Então esta antropologia é ecológica, pan-relacional, amarra as realidades.
No âmbito dessa antropologia se move São Francisco. Não é preciso ser só um nó de relações, mas é preciso ser um nó de relações cordiais. A cordialidade é fundamental para São Francisco, em quem tudo é amarrado no coração. Por isso, é carisma, é comoção, é vibração, é entusiasmo, é abraço, é confraternização com todo o mundo em uma antropologia de relação, pan-relacional, de cordialidade para com todos os seres.
Uma antropologia que sabe sentir o coração das coisas. Os textos dizem que Francisco sentia o coração íntimo das coisas. Isso tem um sentido bíblico e um sentido profundamente oriental. As coisas têm coração, porque têm identidade. Então, poder sentir o coração do outro, afinar-se, entrar nesta sintonia com ele, é viver a fraternidade universal. É tomar-se árvore, pedra, oceano, estrela. Não é a estrela estar lá e você estar aqui. É você virar estrela, tomar-se sol, transformar-se em lua. É você ter a união mística (como dizem os antropólogos que estudam esse fenômeno), a fusão mística com essa realidade. Uma experiência de não-dualidade, de identificação. Não gosto da palavra identidade. Gosto de identificação - aquele processo que vai criando a identidade, na medida em que se identifica com o outro. Essa foi a caminhada de Francisco.
O filósofo francês Jacques Maritain e outros viram que, em termos sociais, São Francisco dá origem a uma democracia universal. Dá origem a uma democracia sócio-cósmica e não só a uma democracia onde as pessoas humanas são todas iguais, todos irmãos e irmãs, sem hierarquias, como é o ideal da democracia. Na Igreja oficial, hierárquica nunca houve democracia. Nas ordens mendicantes, tudo é democrático, todos são eleitos, do provincial ao guardião. Tudo é decidido em reuniões que nunca acabam, onde os cabelos são arrancados e os capuzes voam. Mas estão aí, como diz São Francisco, in plano esse, todos no mesmo plano, em seu ideal de fraternidade.
Ele proibia que qualquer frade fosse vigário, bispo e muito menos cardeal. Nada disso. Queria que eles continuassem lá embaixo, como irmãos. ln plano subsistere, subsistindo no plano, no chão, onde todos devem estar. Portanto, é uma democracia social, os seres humanos todos como irmãos e irmãs, igualitários.
Uma democracia cósmica, incluindo nela outros cidadãos: as plantas, os animais, as rochas, as águas, o sol, a lua, as estrelas. Imaginem o que seria da cidade onde moramos se não houvessem as plantas? Se não existissem os passarinhos, as nuvens e uma atmosfera pura para respirarmos? Não seria uma cidade humana. Estes novos cidadãos participam do nosso convívio, devem ser respeitados, têm direito a viver. São Francisco já intuíra as legislações para a defesa dos animais e das plantas.
A democracia cósmica não é uma democracia biocentrada, centrada apenas na vida, porque na natureza existe a morte. A natureza é o equilíbrio vida-morte. Por isso, Francisco inclui em sua democracia todas as formas de vida e também os leprosos, os doentes, nada excluindo, nem mesmo a morte.
"Mudaria o Natal ou mudei eu?" Mudamos nós, o mundo, que se tornou ecológico, numa autêntica "democracia ecológica", centrada na vida em abraço com a morte. Tempos, pois, de se aposentarem os "papais noéis", porque, como diria o apóstolo Paulo, "assim como num só corpo temos muitos membros e os membros não têm todos a mesma função, de modo análogo, nós somos muitos e formamos um só corpo em Cristo, sendo membros uns dos outros."

Feliz Natal! *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
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