quinta-feira, 30 de novembro de 2006

O Comunicado - Por Beto Costa / Rio de Janeiro

Farol de milha, rodas cromadas e vidros negros contrastavam com o azul escuro de linhas elegantes do meu primeiro carro. Opala era sinônimo de conforto, espaço e desempenho. Ter um carro desse ostentava status. Todos queriam. Arrepios ainda sinto sempre que lembro da transmissão manual de cinco velocidades overdrive para o motor de seis cilindros. Eu era o maioral nos pegas de rua. Ninguém me vencia. O adesivo do vidro dizia: "O lado bom de comer poeira é poder ler esse adesivo". Porém, por fim nem tinha mais graça. Todos apostavam em mim. Não havia mais adversários. Atravessar a linha de chegada na frente só era bom por arrancar os suspiros das garotas. Eu nem ganhava mais tanto dinheiro! Tudo era muito amador. Tempo bom! Às vezes, sou dominado pela aflição de não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos.É, meu amigo! Se lembra do cuidado que eu tinha com você? Sentar no capô nem pensar. Eu passava tardes inteiras encerando, limpando e fazendo a manutenção geral para o fim de semana. Nós éramos uma dupla em tanto. Só existente na ficção. Havia até quem te chamasse de batmóvel! Eu odiava, mas para não dar asas à brincadeira eu ria e fingia que gostava.Quantas aventuras curtimos juntos. Esse pequeno amassado perto do farol dianteiro foi quando perseguimos o único ladrão que apareceu na cidade. Chegamos antes da polícia. Legal era quando tinha jogo do Mengão e não passava na televisão. Era só ligar o seu rádio que a galera logo chegava. Quando dava por mim já estava rolando o maior churrasco. Dá pra contar nos dedos da mão esquerda que garotas não conheceram o seu estofamento de couro. Quem poderia prever que um dia eu me casaria, hein? Quanto mais com a menina que sempre me chamou de exibido e nem olhava pra mim. Você nos levou à lua-de-mel. Foi a primeira vez que viajei para fora do estado. Conhecer o Rio de Janeiro foi incrível. Ninguém me tira da cabeça que foi na Floresta da Tijuca, enquanto esperávamos a chuva passar e ao som do toca fita novo, que Eduarda, minha primeira filha, foi germinada.Meu filho caçula perguntou uma vez de onde vem tanta devoção. Respondi que não precisava sentir ciúmes e o abracei forte. Mas quer saber? Acho que a minha paixão - melhor, o meu amor, pois paixão nenhuma dura tanto assim - começou no dia 22 de abril de 1979, quando meu pai me levou ao autódromo de Tarumã, no Rio Grande do Sul, para assistir à primeira prova do Campeonato Brasileiro de Stock Car. Fiquei completamente fascinado com os pilotos, os carros, o glamour... Tudo era perfeito. Eu respirava o ar de sofisticação e desempenho. Antes dos carros partirem para a volta de apresentação os pilotos acenaram ao público. Tenho certeza que o sinal de positivo do número 16 foi pra mim. Um menininho loirinho de dez anos de idade, esperto e muito curioso. Era assim que muitos me conheciam. Naquele dia cheguei em casa e pedi ao meu avô, o Coronel do vilarejo onde morávamos, um Opala. "- Vô, eu quero ser igual ao Ingo Hoffmann e ao Affonso Giaffone Júnior". Com um sorriso sereno ele riu e me pediu calma. Perguntou o porquê de tanta aflição e passou a tarde contando histórias. Acabei esquecendo de ser piloto, mas o meu sonho de consumo nunca deixou de ser o carro que refletia o próprio desenvolvimento da indústria automobilística brasileira. Caramba! A sua geração foi demais! Em 23 anos de vida a família Opala virou sinônimo de um conceito que atendia as necessidades do consumidor cada vez mais exigente. Você foi chamado de bonito por dentro e por fora, possante, silencioso, espaçoso, seguro, forte e clássico. Ao volante me sentia avassalador. A minha virilidade se convencia ser a mais audaz, bastava acelerar. Aos poucos você se tornou uma extensão da minha personalidade. Acessórios e os novos equipamentos tinham a minha cara. Deixei de pagar a conta de luz e água para comprar esse novo cano de descarga. Todos o conheciam pelo ronco do motor.Nossa, quanta loucura! Talvez não haja dito popular mais verossímil do que "recordar é viver". Acordei cedo hoje. Vim para a garagem e perdi a hora. Sabe, meu amigo, estou chateado. Você sabe que amanhã nesse horário nós iríamos viajar, né? Toda a família reunida rumo ao nordeste. Seriam horas na estrada. Voltar a experimentar aquela sensação de liberdade era tudo o que eu precisava. Não me olhe assim. Eu sei que tenho andado muito estressado. Casamento, três filhos e trabalho têm sido o motivo dos meus cabelos brancos. Que bom seria se eles fossem como a sua pintura. Entretanto, o filho do meio, aquele que nasceu aí dentro, ficou de recuperação mais uma vez. Esse é o motivo por não tirá-lo da garagem para uma nova aventura. Espero que entenda. *PC*

Beto Costa é jornalista
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