segunda-feira, 13 de novembro de 2006

A Descoberta de "O Sertão" - Por Bérgson Frota / Fortaleza


Há exatamente noventa anos, era impresso em Ipueiras pelo futuro historiador e imortal da Academia Cearense de Letras, Hugo Catunda Fontenele, o pequeno jornal "O Sertão". Na época Hugo Catunda tinha então dezessete anos incompletos, mas mesmo adolescente, já mostrava seu grande talento para o pioneirismo e a notável capacidade intelectual que lhe acompanhou até a morte, ocorrida em 7 de março de 1980, em Ipueiras. Impresso durante a I Guerra Mundial, há um artigo intitulado "A Guerra", no qual o autor, utilizando dados de Francisco Lins, escritor fluminense, mostrava os altos custos humanos e financeiros do terrível conflito. "É a triste verdade, e no entanto vivemos quase indiferentes a tantos horrores que de um certo modo nos afectam". Comentário tão atual nos dias hodiernos. Outros assuntos de "O Sertão" abordavam a vida social da cidade e notícias curtas, mas abrangentes do resto do País. Na última folha, os anúncios dominavam. As lojas locais como A Libertadora e a Loja do Povo tinham destaque, entre os menores um interessante: "Raul Catunda - Prepara com a máxima pontualidade retratos a crayon em ponto grande, (em letras menores), Preços Módicos". O jornal anunciava que era impresso três vezes por mês, custando a assinatura por trimestre 3.$.000. Cartas ao mesmo deveriam ser endereçadas ao "director". Estes dados foram retirados da primeira edição de "O Sertão", jornal de que não se sabe se teve outras edições. Encontrado nas ruínas da casa do historiador há cinco anos, pouco se descobriu da existência de outros números. O tempo que separa as gerações encarregou-se de silenciar esta pergunta, porém deixou claro para os ipueirenses que com merecimento Hugo Catunda ocupou nº 36 da Academia Cearense de Letras, cujo patrono é o Senador Pompeu. Apresentando um talento precoce, foi valorizado por Raimundo Girão no livro Apresentando um talento precoce, foi valorizado por Raimundo Girão no livro "A Academia de 1894" que o enalteceu dizendo ser seu estilo de aristocrático aticismo, e outras vezes de sabor euclidiano. Carlos D'Alge no livro "O Exílio Imaginário" relatou: Nertan Macedo encontrou um brilhante colaborador, e dessa amizade resultou a trilogia: O Clã dos Inhamuns, O Clã de Santa Quitéria e O Bacamarte dos Mourões. Citações de louvor ao notável historiador foram feitas por Raimundo de Menezes no seu "Dicionário Literário Brasileiro" e no "Dicionário de Literatura Cearense". A descoberta de "O Sertão" foi então para os ipueirenses e para a comunidade literária cearense um presente, talvez possa ser considerado a primeira obra impressa de um homem que em vida foi conhecido como escritor de punho seguro e detentor de uma linguagem concisa e sazonada pela técnica. (A primeira edição de "O Sertão" data de 17 de março de 1916) *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Bérgson Frota é professor visitante da Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA) e professor de Grego Clássico no Seminário da Prainha - Fortaleza.

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