quarta-feira, 1 de novembro de 2006

Amor, autor de crimes perfeitos - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


O crime perfeito não é a tortura policial realizada aqui no Brasil. Não é a hiperinflação. Não é o filme hollywoodiano protagonizado por Michael Douglas e Gwyneth Paltrow em 1998. Também não faz parte de nenhum suspense de Alfred Hitchcock. E muito menos se baseia na falta de um vilão com nome e endereço. O crime perfeito está em abandonar a vítima no silêncio e em fazer da saudade um lugar para querer estar preso. Para tamanha destreza e sangue frio eu só conheço uma personificação capaz de crimes perfeitos, a nossa projeção no outro. E assim somos traídos, atingidos e condenados. Essas linhas tortuosas são narradas pelo autor Amor.
Aliás, quem nunca teve um amor? E o que pensar quando ele vai embora? Sentimento mais egoísta não há. Não deixa ao menos uma pista de como continuar. Cara-de-pau! Se foi por assim ir. Sem hesitar ou dar explicações. Como se tudo fosse normal. Quanta falta de consideração! Não se preocupou em como o cônjuge ficaria.
Que sentimento desalmado é esse que até ontem conjugava todos os verbos em apenas dois pronomes: eu e ela. Que sentimento mais nômade é esse que me presenteia com a indagação: será que alguma coisa minha nela ficou guardada? Dúvidas e questionamentos passam a dominar os pensamentos das vítimas.
Dissimulado, esse tal de Amor consegue cúmplices. Faz com que o Pretérito assalte o Presente em plena luz do dia. Tudo em prol de mais um passear pelo túnel do tempo. Aliás, é nesse momento que devolvemos os sentidos às palavras e tornamos possível pôr os pingos nos devidos is. Entretanto, viver dias em que nada faz sentido é mais normal do que se imagina, revela a pesquisa Desabafo.
Impune, o possessivo Amor não se preocupa com o tempo e muito menos com a intensidade de como dominará a próxima vítima. Dono de mil e um disfarces, faz-se de eterno amigo, compreensível e sensível. Apresenta um mundo de ilusão, onde se pinta o país das maravilhas. Não há escrúpulo para se conseguir mais uma presa. Ele seduz. Faz com que fiquemos cegos. Mas não esqueça: a sua missão é caçar. E na selva vence o mais forte.
Ditador, o seu golpe fulminante não nos concede o direito de reivindicar. Há quem relute. Não acredite. Há até aquele que quando se entrega já é tarde demais. Essa vítima, por sinal, é a que o astuto Amor mais gosta. Mobiliza e despreza. É quando ele caça apenas por se divertir.
É impressionante o arrojo do Amor! Aparece quando menos se espera e onde nem se imagina. O engraçado é que ele se considera charmoso por ser imprevisível. E isso mexe com o imaginário, principalmente das mulheres. O que as transforma em presas com pouca resistência.
O manipulador amor nos faz acreditar que a então cara-metade é a coisa mais próxima do paraíso a que chegaremos. Nos tira a força de voltar para casa. E transforma cada segundo em eterna guerra íntima.
Dominador de mentes, ele transforma um momento em verdades das nossas próprias mentiras.
Não há quem o defina. Poetas, escritores, historiadores já tentaram. Todavia, palavras precisariam ser inventadas.
Enigmático, ditador, manipulador, possessivo, dissimulado... Não importa como designar esse andarilho ancestral. No fundo ele sempre responderá ao crime de latrocínio. Afinal, ele rouba os nossos lindos planos. E isso tudo por quê? Para nos fazer chorar? Não! Ele não seria tão previsível. Ele nos obriga a conhecer a vida. Nos apresenta a Solidão e nos ensina que após um conto de fadas somente resta fechar o livro.
Porém, foi com o olhar perdido ao horizonte que compreendi a razão dos crimes. Entendi que ele quer que nos redescubramos a cada instante. Enxerguei a sua misericórdia, pois é Amor que cura todas as feridas e não o Tempo como muitos acreditam. Além disso, ele abriga todos os corações órfãos espalhados pela cidade. Nesse momento a lágrima incontida obrigou-me a perceber que talvez a culpa seja nossa. De querer ficar preso ao passado. De não admitir que tudo está em movimento. Talvez a culpa seja do Medo que nos faz ficar largados no sofá da sala com a tevê contando histórias aos quatro cantos. Talvez a culpa seja do Pensamento que nos ilude com a convicção de que há verdades absolutas. Ou talvez a culpa seja dos Devaneios que nos silenciam a certeza de que o Amor é evasivo.
Tudo bem! Não irei ficar tecendo justificativas. Não sou tão bom advogado assim. Contudo, de uma coisa eu sei: o Amor é onipresente. Por esse motivo, enquanto houver vida, seremos sempre alvos do seu olhar. Mas somente quando ele lhe der as costas por ter cometido mais um crime perfeito você entenderá limpidamente a pergunta que foi pichada nas paredes do crime: "Será que ela ainda pensa em mim?" *PC*

Beto Costa é jornalista

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