sábado, 21 de outubro de 2006

Voto, o senhor das armas! - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


Eder - A Charge Online


Até as eleições de 2006, eu, sinceramente, acreditava que política poderia coexistir com idealização, ou seja, eu cria na possibilidade de projetar, planear, planejar, programar... A minha ingenuidade era tamanha que até a apuração de todas as urnas no dia 2 de outubro eu visionava um sonho em verde e amarelo. Mas acho que ninguém mais sabe o significado das cores da bandeira brasileira. Talvez tenha virado lenda! Assim como o hino nacional, que alguns jogadores de futebol lembram de cantar antes das partidas oficiais.
Com a aprovação popular de alguns candidatos como: Clodovil Hernandes e Frank Aguiar para nossos representantes, percebi que o voto é a maior das armas brancas inventada pela tal Democracia. Aliás, que Democracia é essa que nos obriga a votar? Ah! Talvez seja por isso que alguns candidatos eleitos nem saibam qual é a função do deputado federal. A maior preocupação é saber de qual cor será a mesa e quantos dias se é obrigado a bater o cartão de presença.
Acreditem! O meu sorriso, ao virar a página do jornal, foi de nervosismo. A liberdade do ato eleitoral está me apavorando. Antes de começar a leitura da página seguinte, um amigo toca o interfone. Eufórico, ele diz pra eu descer. Um abraço caloroso foi a minha recepção. Extravasando uma felicidade presenciada somente quando o Flamengo foi campeão brasileiro, ele desvela o motivo de tanta alegria: o candidato que fez o churrascão aqui na comunidade havia sido eleito. Logo, o novo emprego estava garantido. Perguntei sobre o candidato da coligação que havia empenhado a palavra em construir a linha do metrô passando por debaixo d'água pra nos ligar à cidade vizinha. "- Sim! Ele também entrou!", gritava o amigo, dizendo ser um milagre dos céus. Naquele instante, entendi como os votos são comprados e como a moeda promessa é forte.
Ao retornar à minha rede na varanda, volto às páginas que soltam tinta. As comparo com o nosso sistema legislativo cada vez mais desbotado. Mas fitando os olhos sobre as linhas, uma surpresa! Oito acusados de ligação com mensalão são eleitos deputados. Forcei a minha vista! João Paulo Cunha (PT-SP), José Mentor (PT-SP), Vadão Gomes (PP-SP), Sandro Mabel (PL-GO), Pedro Henry (PP-MT), Paulo Rocha (PT-PA), Valdemar da Costa Neto (PL-ES) e José Genoíno (PT-SP). Eu não acreditava no que estava lendo. Paulo Rocha e Valdemar Costa Neto renunciaram aos respectivos mandatos no ano passado para evitar processo de cassação. Não! Só pode ser uma pegadinha! E o José Genoíno? Deputado federal? Será que é verdade quando dizem que o povo não tem memória? Lembro que a minha mãe sempre dizia que a alimentação balanceada é um dos pré-requisitos importantes para se ter uma boa memória. Mas fazer o quê? A mãe gentil da população está cada vez mais prostituída de valores.
A indignação, de alguma maneira, me obriga a continuar a leitura. É quando arregalo os olhos com a notícia: "Eleito senador, Collor sinaliza apoio ao ex-adversário Lula". Não é possível! Algum colega trocou o meu jornal na portaria do prédio. Senti-me na obrigação de fechar o jornal. Incrédulo, liguei o rádio no noticiário. E a boa notícia foi que os candidatos esdrúxulos fracassam nas urnas. Nomes como Super Zefa, Super Moura e Katielly, o transformista, não constituirão o Congresso Nacional. Essa reposta popular traz a esperança de que ainda não perdemos por completo o discernimento de que os nossos governantes não têm apenas a função de servirem como chacota.
Entretanto, o meu contentamento não dura muito... O locutor diz a hora. Caramba! Daqui a pouco tenho que pegar as crianças na escola. Estar de férias me traz outras responsabilidades. Mas antes decido ir ao bar da esquina beber um refrigerante para amenizar o calor provocado pelo caos.
Ao chegar, o balconista já vai dizendo: "- O seu guaraná tá super gelado. Vai?". Após confirmar com a cabeça, ouço um grupo de jovens discutindo a eleição do Paulo Maluf. Um dos meninos se exalta na defesa do ex-prefeito de São Paulo e grita: "- Ninguém aqui tá discutindo o quanto ele roubou. Eu estou falando que, roubando ou não, pelo menos ele fez muita coisa para a população! Meu pai sempre me fala o quanto pior era o trânsito da cidade antes das obras que ele fez." Enquanto os ânimos se exaltavam, eu enchia o segundo copo e me perguntava se o meio justifica o fim.
Antes de deixar o dinheiro em cima do balcão e me despedir do pessoal, ouvi uma velhinha conversando com a outra que o presidente poderia contar o voto dela novamente. Afinal, ela não queria perder a bolsa família. A minha vontade era de compará-la com um porco, o qual troca tudo por um prato de lavagem... Nesse momento, descobri mais uma maneira de comprar votos.
Antes de voltar pro carro, vejo colado na parede o slogan "O Brasil é tão bom quanto o seu voto". Mexer com o ego dos pouco mais de 125 milhões de eleitores continua sendo o mais forte argumento da íntegra Justiça Eleitoral.
Já no caminho de volta, nem a bagunça das crianças no banco traseiro me tira do transe... Questionam-me sobre o que mais oferece senso crítico à população. Seriam os jornalistas, ou os políticos, ou a classe artística que vire e mexe pousa sem calcinha, ou os intitulados músicos intelectuais que afirmam que política é assim mesmo que formam opiniões? De que adiantou divulgar e apurar mensalão, sanguessugas, cuecão, CPI dos Correios dentre outros? Foi quando lembrei que na escola só aprendemos a manipular resultados. Olho pelo retrovisor e vejo o meu filho dizendo que quem não cola não sai da escola. Às vezes, sair do transe é doloroso! Ver o meu próprio filho corrompido quase me transformou em mais um sonâmbulo pessimista.
Ao chegar em casa, meus filhos perguntam se estava tudo bem. Respondo que sim. Os chamo pra perto de mim e saio correndo em direção ao elevador, dizendo que quem chegar por último será a mulher do padre.... Após a gritaria e a constatação de quem havia perdido o pique, ditei quais seriam as regras: tomar banho. Almoçar. Tirar a sonequinha de uma hora. Fazer os trabalhos do colégio. E brincar.Enquanto as minhas esperanças de renovações dormiam, decidi que a partir de hoje sempre haveria uma conversa sobre consciência política. É preciso que desde cedo saibamos diferenciar direitos de deveres. Quando isso acontecer, o voto não será mais uma bala perdida que mata os nossos sonhos de governar e legislar, como reza o regime político baseado nos princípios da soberania popular e da distribuição eqüitativa do poder, a Democracia.

Beto Costa é jornalista

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