terça-feira, 10 de outubro de 2006

Tributo à Neci - Por Jean Kleber / Brasília

Janeiro de 1953. Início da revoada. Nós havíamos recém comprado as passagens de trem para Fortaleza. Íamos de vez. Viajaríamos no dia seguinte eu, meu pai Neném Matos e minha mãe D. Mundita. Tão logo conseguíssemos casa para alugar em Fortaleza, passaríamos um telegrama que acionaria o esquema. Um caminhão, certamente o do Matinho, partiria de Ipueiras levando a mudança, enquanto minha avó D. Luizinha, seguiria de trem com sua criada Maria José. No caminhão estariam o Zaca, filho de "seu Gustavo" e o Assis, filho de "seu" José Fernandes. O Zaca estava indo inscrever-se como aspirante na Marinha do Brasil e o Assis tentaria o noviciado na Ordem dos Padres Paulinos.
À noite, meus pais ainda estavam arrumando as malas quando duas moças chegaram. Uma delas chamava-se Neci. Moravam para os lados do açude. Neci fez um pedido inesperado. Queria ir conosco. Perguntou à minha mãe se ela tinha empregada em Fortaleza Não tinha. Ofereceu-se então para o serviço. Uma rápida conversa de minha mãe com meu pai e a moça estava empregada. Seguiria conosco no dia seguinte. Crescia desta forma a nossa "equipe ipueirense de arribação". Na manhã seguinte, a passagem de Neci foi comprada na hora da partida.
Nos primeiros dias em Fortaleza ficamos hospedados na Pensão do Norte, à Rua Barão do Rio Branco, perto do Passeio Público. Saíamos todos os dias em busca de casa para alugar. Para nós e para minha avó. Numa delas, na Praia de Iracema, Neci acidentou-se numa cerca de arame farpado. Culpa minha. Mania de criança de fazer "pique pega" por nada. Ao escapar-me no jogo, Neci não viu o fio solto e cortou o peito do pé. Tomou injeção. Antitetânica A marca do acidente remanesceria indelével. Menos mal que no pé.
Neci era simpática, doce e silenciosa. Índole boa. Se o Zaca fora meu grande companheiro em Ipueiras e Maria José a criada exemplar, Neci seria meu anjo em Fortaleza.
Quando não estava ajudando minha mãe nos afazeres domésticos, acompanhava-me nas brincadeiras próprias de meus oito anos: soldadinhos de chumbo, águas coloridas, "bila" (bola de gude) e "trisca" (pique-pega).
Uma vez instalados no bairro Joaquim Távora, um telegrama acionou Ipueiras e o caminhão de lá partiu. Acomodados numa única "carrada", estavam nossos móveis e dois gatos: o "Pucí" (corruptela de "Pussy") e o Bambí. Pucí era rajado, marrom-claro, meio assustado e "sistemático". O Bambí era preto e brincalhão, talvez por ser mais novo.
Poucos dias após sua chegada em Fortaleza, Pucí assustou-se com os latidos de um cãozinho pequinês preto que o encarava e fugiu, não mais retornando. Bambí teve outra atitude. Pregou um tapa certeiro no focinho do bicho que fugiu ganindo. Ficou em casa. Viveu conosco algum tempo até que, não se sabe como, foi contaminado pelo vírus da raiva, vindo a morrer, não sem antes arranhar meu braço e morder a perna de Neci.
Fomos então companheiros, eu e Neci, no tratamento ambulatorial do Instituto José Frota, onde nos aplicaram uma série da famosa vacina anti-rábica. Enfermeiro Wilson aplicava. Gente boa. Lembro-me bem dele.
Meu pai tinha alergia à casa. Nem bem chegava do serviço e começava a espirrar. O banheiro era externo, nos baixos de uma caixa d'água. Parecia coletivo, do tipo que serve a duas casas. Na época se comprava, em barras grandes, um sabonete verde translúcido com aroma de eucalipto. Perfumadíssimo e barato. O banho matinal era animado. Lembrava os banhos de chuva em Ipueiras. No Carnaval, que se daria logo em seguida à nossa chegada, dominava a música "Você Pensa Que Cachaça é Água?"
Neci revezava com o Zaca o apanhar-me na escola ao meio dia. Providência de minha mãe, até que eu, vindo do interior, aprendesse a lidar com o intenso tráfego da rua Visconde do Rio Branco. Na escola, eu integrava uma turma especial do terceiro ano primário. Era no Colégio Cearense, dos irmãos maristas. Pela manhã eu ia a pé com meu pai, que me deixava à porta da escola e daí seguia para o escritório.
Quando era dia do Zaca me apanhar, ele trazia um garrafão de três litros de capacidade, para apanhar água. Sorte, o colégio fundara-se sobre uma fonte de água mineral gaseificada, a qual jorrava de todos os bebedouros. Em casa, formulávamos com ela o suco de uva concentrado comprado na mercearia. Tínhamos então um refrigerante caseiro delicioso e naturalmente gaseificado.
Mudaríamos de casa ainda duas vezes pelo menos. Primeiro para a rua Rodrigues Júnior, depois para a rua Heráclito Graça. Neci estaria conosco todo esse tempo, ou sejam, seis anos mais ou menos. Ela era baixinha, "cheinha", de tez clara e macia, um tanto sardenta. Cabelo bem liso, em quase nada lembrava a mãe, que era morena e magra. Eu ouvira dizer que ela sofria da coluna, que era excêntrica, seqüela atribuída a uma queda da mãe quando grávida. Confesso que jamais consegui ver qualquer excentricidade ou defeito naquela doce criatura. Eu a achava linda. Os adultos não. Padrões pré-estabelecidos e assimilados. Como explicar então o encanto de Neci? Sem padrões previamente assimilados a criança cria seus próprios padrões. As crianças vêem a alma e a alma ocupa todos os espaços: sejam intercelulares, intracelulares, atômicos ou sub-atômicos. Assim, a conformação corpórea também se apresenta harmoniosa e bela, tal como a alma. Um amigo de Fortaleza que eu conheceria mais tarde, Padre Tarcísio, assistente de JEC, me diria nos anos sessenta que as crianças e as mulheres são os seres verdadeiramente metafísicos. Assimilaria na época, naquele mundo polarizado, que nós, os homens, sofríamos de indigência espiritual.
Em nossa cultura costuma-se comentar a amizade entre o filho do patrão e a empregada com um sorriso malicioso. Tal não se aplicava ali. Não fosse por meus poucos anos vividos, o seria pela estrada religiosa onde, àquela época, trafegava minha existência.
Hábito ipueirense, tínhamos um pote com água na cozinha. A tampa era um quadrado de madeira. Uma noite, Neci estava lavando os pratos. Após enxaguar cada um, colocava-os sobre a tampa do pote, até formar uma pilha. Naquele dia, a tampa do pote não estava devidamente ajustada e adernou com o peso. Todos os pratos caíram e quebraram. Acorremos à cozinha e logo percebemos que, para almoçarmos no dia seguinte, teríamos que compara pratos novos. Eu estava excitado com a idéia de pratos novos. Criança gosta de novidade. Mas o que mais me encantou foi ver que meus pais estavam dando gargalhadas diante daquela pequena tragédia. Ou nos tornáramos todos crianças ou estava evidenciada a impossibilidade de se ter raiva de Neci.
Mas um dia Neci partiu. Soube que para casar-se.Vi-a ainda uma ou duas vezes quando nos visitou já em sua nova vida de dona de casa. Na ultima vez de que me lembro, percebi que o tempo já começava a marcar suas feições. Sorriu animada ao ver-me, quase esfuziante. Abraçou-me com carinho, como alguém que reencontra um filho ou um irmão mais novo. Naquele momento foi-me dado ver, em quase todo o seu esplendor, a beleza de Neci. *PC*

Jean Kleber Mattos é Engenheiro Agrônomo pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Doutor em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Professor Adjunto da Universidade de Brasília.
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