segunda-feira, 16 de outubro de 2006

"O mito gera a lenda e a lenda gera a história" - Gerardo Mello Mourão / Rio de Janeiro

Nesta parte da entrevista, Gerardo Mello Mourão fala de sua religiosidade e, citando Passolini, diz que "sem milagres o ser humano estaria privado da esperança e do sentido da vida"
- O que esse livro representadentro do conjunto da obra do senhor?
Gerardo -Creio que este livro é uma espécie de eco das palavras que compõem toda a minha aventura de escritor e poeta. Trocaria tudo o que sei e tudo o que escrevi pela sabedoria do pequeno alfaiate de aldeia que conversava com Deus e os anjos em sua aldeia dos Apeninos.
-O senhor é uma pessoa religiosa?
Gerardo - É claro. Até porque aprendi com Léon Bloy que a única tristeza que aflige a medula da vida humana é não ser santo. Eu não sou santo.
- De que maneira o fato do senhor ser cearense influiu nessa fé e, mais especificamente, nessa admiração por São Gerardo?
Gerardo -Acho que manter a fidelidade ao meu padroeiro é uma coisa da tradição familiar e religiosa do Ceará de meu tempo de menino. Meu avô se chamava José. Era o Capitão José Ribeiro Mello. Todos os anos, no dia de seu patrono S. José, promovia uma festa de arromba nas Ipueiras, e toda a tribo de Mellos e Mourões descia a Serra de São Gonçalo e da Canabrava, belo nome secular mudado hoje para Ararendá por algum político imbecil, e invadia o forró glorioso da casa do capitão. A propósito: a mania de mudar nomes de cidades e ruas no Ceará é uma praga cultivada pela ignorância de administradores e a vaidade ridícula dos bestalhões estaduais e municipais. Destroem a memória regional do povo e seu próprio patrimônio histórico. Estive recentemente nas Ipueiras. Vi, envergonhado, que mudaram o nome da rua em que nasci e onde moravam meu avô e alguns dos homens que fundaram a vida cívica e política da cidade. Tiraram da rua o nome original - rua Padre Feitosa - como tiraram o nome do General Sampaio de uma outra. Sampaio e Feitosa são dois nomes mitológicos de nossa história regional: o general de Tuiuiti e o antigo vigário de Ipueiras, senador estadual e representante do clã dos Inhamuns.
-Na apresentação do livro, osenhor escreve que o homem inocente cria a lenda, a lenda cria o mito e o mito cria a história, que não se tece apenas com os fatos provados. Nesse sentido, é possível comparar São Gerardo Majella com nomes como Padre Cícero a quem a crença popular também atribui uma crônica caudalosa de milagres?
Gerardo -É assim mesmo: o mito gera a lenda e a lenda gera a história.
-Noutro momento, o senhorafirma que "o mundo precisa voltar a acreditar de novo nos santos e nos milagres". Sobre isso eu queria perguntar duas coisas. Primeiro: em que ponto da história da humanidade o senhor acha que o homem deixou de acreditar em santos e milagres?
Gerardo -Léon Daudet chamou o século 19 de "o século estúpido", mas a estupidez começou mesmo foi no século 18, quando o racionalismo dos chamados "iluministas" passou a rejeitar tudo que não podia ser renovado. Na esteira dos iluministas veio o materialismo histórico do marxismo rococó, hoje em extinção na consciência cultural dos povos. Eles pediram provas da existência de Deus, mas nunca arranjaram uma prova de que Deus não existe. No fundo da alma, as pessoas e os povos continuaram a esperar em Deus e em seus santos e em seus milagres, como o próprio materialista histórico Pasolini, gênio poético do cinema de nossos dias. Para ele, sem milagres o ser humano estaria privado da esperança e do sentido da vida. É o que ele diz numa famosa entrevista ao jornalista Jean Duflot, do Le Monde.
-Segundo: de que maneira aretomada dessas crenças pode ajudar o homem moderno?
Gerardo -Dando ao ser humano aquilo que pode sustentar em sua incerta navegação: a esperança. Os jornais do mundo inteiro publicaram uma fotografia patética de Moscou no dia da queda do regime comunista: à frente da multidão, uns padres ortodoxos barbudos, com seus paramentos bizantinos, invadem o Kremlin. Um deles, empunhando uma imagem do Cristo crucificado, encosta o deus morto na cara de Gorbachev e exclama: "Ele venceu, Maxim Gorbachev!" A esperança, planta nativa no coração do homem, vence sempre os desesperos da história.
-Como é a relação do senhor,hoje, com o Ceará?
Gerardo -"Para onde vai o cão que não leve a sua sarna?", costumava dizer minha avó, a velha e sábia matrona dona Úrsula. A doce e sagrada sarna do Ceará é a presença mais constante do meu coração e do meu espírito. Como a Espanha doía a Unamumo, o Ceará me dói. Foi dessa dor que tirei forças para a aventura de viver.
-O que o senhor poderia nos adiantar sobre os seus próximos projetos?
Gerardo -Meu projeto é sempre e apenas reinventar o dia de amanhã. *PC*

Texto publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, de Fortaleza.
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