quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Registro pessoal - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


Arrumar o armário sempre nos traz alguma surpresa. Encontramos objetos que nem lembrávamos mais, fotos que nos credenciam a viajar pelo tempo e diários como esse que seguro. Ler as suas páginas amarelas traduz um pouco do que eu fui. Sonhos e aspirações hoje concretizados ou que não fazem mais a menor diferença.
Contudo, uma página me fez lacrimejar. Tratava-se de um texto intitulado "Última homenagem". A partir desse título, eu já sabia do que se tratava e o quanto seria doloroso começar a leitura. Mas por algum motivo os meus olhos vermelhos continuaram a fitar as linhas seguintes... No cabeçalho: "Rio de Janeiro, 29 de setembro" e um borrão azul devido às lágrimas de outrora manchando o ano que ainda tenho guardado na memória. Este foi o dia que herdei o medo de somente poder lembrar. Foi quando respirei fundo e fiz do fôlego um escudo protetor para continuar a leitura.
Não posso mais encontrá-la, embora o amor ainda esteja por toda a casa. Tento aproximar-me ouvindo as suas músicas prediletas. Porém, não há o que eu possa fazer para tocá-la, para ouvi-la por mais uma vez dizendo meu filho.
Não tenho mais a proteção que ficava na janela acenando e orando pela minha volta. Era assim até que eu virasse a esquina. Porém, foi ela quem não me esperou! Descobri não quanto é frágil a vida, e sim como tenho pouca fé. Afinal, não consegui ressuscitá-la. E como desejei! Nos meus braços as lágrimas que rasgavam os olhos tentavam aquecer o corpo gélido. Tudo em vão. A minha febre de amor não foi o suficiente.
Agora estou tentando me achar. Tenho que aprender a andar sozinho. Não tenho mais colo e ninguém para pedir a benção.
Tento distrair a verdade enganando-me que foi melhor assim. E de que ela está melhor do que qualquer um aqui na Terra. Não consigo consolar-me com alguns argumentos. Talvez eu seja egoísta demais. Contudo, o que eu mais queria realmente era fazê-la rir com as minhas bobeiras. Nossa! Como sinto falta do seu abraço. Como dormir em paz se nunca mais irei ouvir o doce!"Deus te abençoe, filho. Boa Noite".
Não tenho mais a verdade escrita na poesia dos seus olhos de que dias melhores virão.
Se eu encontrasse uma fada que me concedesse qualquer desejo, eu não pediria a paz mundial. Ou o amor entre os homens. Ou comida e saúde para todos. Não tenho a pretensão de mudar o livre-arbítrio do mundo. Eu pediria apenas para vê-la sorrindo.
Nessa parte do texto ficou difícil continuar. Preferi parar. O desfecho dessa história eu já conheço há alguns anos. Porém, se eu fosse mudar esse escrito, em vez de ficar procurando respostas ou devaneando sobre um possível "Se...", eu apenas agradeceria por tudo.
Relendo esse texto descobri que a saudade de alguma maneira pode nos fazer crescer. E não importa que seja saudade dos parentes que moram longe. Saudade da mamãe. Saudade da praça onde passei toda infância. Saudade do gosto da fruta que não se encontra mais. Saudade do amigo imaginário que nunca existiu. Saudade da turminha que parecia inseparável. Saudade das travessuras colegiais. Saudade dos amores que na verdade não passavam de paixões. Não interessa! A saudade sempre nos lembra o quanto mudamos.
Ao fechar o diário fiquei com o olhar perdido por algum tempo. O transe só acabou com o meu filho gritando e me chamando para brincar. Ao ver a alegria dele aprendi que o passado não é o melhor momento da vida. A maior lição está em fazer da vida uma perene estação da felicidade. *PC*

Beto Costa é jornalista

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