quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Pega ladrão - Por Jean Kleber Mattos / Brasília

A alcunha do larápio era "Bolinha". Arrombador de residências. Marginal fichado na polícia de Fortaleza como perigoso. Arma branca.
Sabe-se lá por qual motivo, resolveu deixar a capital e fazer incursões pelo interior do Ceará. Caminhos tortuosos o trouxeram a Ipueiras, no fim dos anos quarenta, século vinte.
Na primeira noite de atividade arrombou três residências, uma delas o Educandário, onde morávamos eu, meus pais Neném Matos e D. Mundita, minha avó Luizinha, a criada Maria José e um aluno interno, o Antônio Brandão.
No dia seguinte ao assalto, o Antônio, que dormia numa rede na principal sala de aula, deu por falta do par de alpargatas que deixara no chão sob a rede. Uma porta forçada forneceu a pista. Alguém entrara sem ser convidado.
A notícia logo se espalhou. Quase certo que era alguém que vinha de longe, pois aquele tipo de crime não figurava em nossa lista de ocorrências.
O contingente policial era pequeno. Comandava-os o sargento Almeida. Logo, pacatos cidadãos da cidade ofereceram-se para compor uma patrulha de vigilantes que auxiliariam a polícia na captura do ladrão.
Minha avó narrou-nos então sua experiência da noite do assalto. Sono leve, acordou em meio à madrugada com um lampejo dentro de casa. Acendeu uma vela. Nada aconteceu. Apagou a vela, por fim. Daí a pouco, outro lampejo. Luz forte. Acendeu novamente a vela e ficou atenta. Nenhum barulho. Não mais lampejos. Naquela época, rolava a crença de que lampejos inexplicáveis dentro de casa durante a madrugada, eram um sinal do além, avisando que estava próxima a "passagem" de alguém. Desencarne. Ela havia ficado meio preocupada. Diante, porém, dos novos fatos que agitavam a cidade, entendeu que os lampejos poderiam ser da lanterna do ladrão.
Neste dia a cidade dormiu em sobressalto. Noite escura como breu. A patrulha era pequena mas nuclearia em sua passagem eventuais dorminhocos, aos gritos, se houvesse necessidade.
De repente, um alarme no meio da noite: aqui!
Alguém percebera o que poderia ser o facínora esgueirando-se de uma casa. A guarda e a patrulha cidadã acorreram. Lembro-me de Manoel Dias, o dentista, como um dos nucleados. Tática de guerrilha, o grupo espalhou-se em leque para fechar os flancos, até que, de um quintal, um grito denunciou a presença do fugitivo. Sem chance para ele. Foi finalmente capturado.
No dia seguinte, fila de gente à porta da cadeia para ver a presa. Objetos recuperados eram entregues aos donos. As alpargatas do Antônio Brandão estavam lá. Uma das tiras fora parcialmente cortada à faca para acomodar o pé do ladrão, que era maior. Mesmo assim, Antônio qui-la de volta.
Lembro-me de minha avó toda arrumada, pronta para ir à cadeia visitar o detento. Comentou mais tarde sobre o diálogo com ele travado. Coletara a impressão do marginal ao descobrir que adentrara uma escola: !"só tinha carteira..." Sobre a coleta ínfima com a insignificante subtração das alpargatas do adormecido Antônio: "para não sair de mãos abanando..." Também sobre a boa qualidade da luz da lanterna: "a senhora gostou?" No mais, apenas comentários sobre leveza de sono e sinais do além: "credo...!"
O sucesso da caçada abriu espaço para lendas e bravatas nos dias que se seguiram. Comentava-se que um dos policiais "voara" mais de três metros ao precipitar-se sobre o fugitivo, imobilizando-o.
Como não poderia deixar de ser, também circulavam as fofocas sobre quem tinha amarelado.
E assim, o famoso "Bolinha" entrou, por vias tortas, na história da velha Ipueiras.
Ah! Minha avó anotou a marca da lanterna! *PC*


Jean Kleber Mattos é Engenheiro Agrônomo pela Universidade Federal Rural de Pernambuco. Doutor em Fitopatologia pela Universidade de Brasília. Professor Adjunto da Universidade de Brasília.

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