terça-feira, 5 de setembro de 2006

Ouvir estrelas - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza

Vejo o País, buscando entender-lhe os contrastes. Os indicadores eufóricos falam de crescimento. E a pobreza inclui-se à mesa e na escola. Os diplomas, porém, resvalam sem fundos, sem qualidade, perdidos do porto do emprego. A expectativa de vida se amplia. Mas se afoga na depressão dos aposentos. A liberdade se escancara nas fronteiras e ruas. Mas para o crime organizado, os cidadãos, por trás das grades e cercas, reclusos nos lares, trabalho e lazer. Política se associa a corrupção. E a maioria descrê de seu sentido (69%, diz o Ibope).
O cosmo, desde Galileu, se move em órbita. Astros nascem, morrem e se transformam. E o pensamento hoje se diz complexo, unindo ciência e religião, dos rituais primitivos ao zen-budismo. O homem, de inteligência múltipla (que inclui espiritualidade e afeto), vê-se um todo de corpo e alma. Judeus, islamitas e cristãos se dão as mãos. E a era se diz "simbólica" - o mítico e o lógico em diálogo. O apocalipse retoma o sentido de "revelação", em linguagem surrealista, de "fim de um ciclo", mas de prenúncio de nova ordem: a holística, do caleidoscópio, da tensão produtiva entre o império da maioria e o direito das minorias e diferentes.
Com os astrônomos, aprendemos que plutão é asteróide menor, persistindo, porém, no horóscopo. Reis magos, guiados por um astro, voltamos à manjedoura de uma estrebaria, onde o verbo se fez carne, prenúncio do ecológico depois retomado por Francisco, o "de Assis", depois "das Chagas" - hoje o das romarias de um francisco de agora: "o de Canindé", no agreste nordestino.
Tempo de reler Bilac e ouvir estrelas. Conversar com elas e retomar o sentido primário da caridade. Não a humilhação da esmola, mas o amor-doação. "Só quem ama pode ter ouvido capaz de ouvir e entender estrelas". Este, o não-dito, esperança latente! *PC*

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
Postagem anterior
Próximo Post

Postado por:

0 comentários:

As opiniões expressas aqui não reflete a opinião do Blog Primeira Coluna.