sábado, 2 de setembro de 2006

O passeio - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


Hoje decretei feriado. Tudo por causa da meteorologia que afirmou céu azul, sem nuvens e temperatura máxima de 40ºC. O despertador só pára quando o derrubo do criado mudo. "Ah! Deixa eu dormir". Dez minutos mais tarde levanto como se tivesse perdido a hora do trabalho. Angustiado, pulo da cama e abro a janela. O sol me lembra que é feriado, o meu. Com as batidas do coração normalizadas, traço um programa. Hoje serei turista na minha própria cidade. Apreciarei aquilo para o que a pressa do dia-a-dia me faz fechar os olhos.
Meu primeiro ato é desligar o celular e guardá-lo na gaveta do armário. Ninguém será capaz de atrapalhar o meu dia perfeito.
É verdade que sou admirador da beleza. Mas hoje não quero ir à praia e ficar tecendo versos ao mar ou ao vento. Não irei olhar pra cima e reverenciar o Cristo Redentor. Também não imaginarei como o homem amarrou cabos de aço entre dois morros e fez o bondinho do Pão de Açúcar. Pode acreditar, mas eu não ficarei atônito ao espelho da Lagoa Rodrigo de Freitas. Só por hoje eu não vou esquecer que sou feliz.
Começo o meu descobrir pelo calçadão que beira toda a orla. Vejo pessoas com bicicletas, patins, skates, ou apenas correndo ou caminhando, como eu. Não importa o físico. Não é desfile de moda e sim de desfrute da vida.
Antes do almoço fiz uma visita ao Jardim Botânico. Bastou sentir o ar puro e a tranqüilidade da natureza para revigorar a alma para a semana inteira. Tomado por uma coragem avassaladora que me empurrava a desbravar cada vez mais, deixo o carro no estacionamento e prossigo o passeio a pé. Nossa! Como a arquitetura é efêmera! Pego o ônibus que me leva ao Parque do Flamengo, 1.200.000m² de área verde à beira-mar. No quiosque compro um coco gelado e um sanduíche natural. Faço um piquenique solitário. Antes que as formigas me fizessem levantar bruscamente observo de longe a mãe que segura a mão do filho desequilibrado. Os primeiros passos são os mais difíceis. De repente o menininho cai. Em vez de choro um sorriso contagiante. Acho que foi por isso que nem xinguei as tanajuras carnívoras. Enquanto tentava me livrar delas um jovem de olhos vermelhos e fala desconjuntada disse:"Que dança maneira véio! Você é muito louco!". Foi quando percebi que precisava conversar. Todo carioca adora um bom papo. Antecedendo ao táxi que peguei ao Centro fui ao bar da esquina. Pessoas falavam como se a verdade fosse absoluta. Esquecem que a mentira é uma verdade. E nisso concordamos. Todos os políticos prometem mais o que podem cumprir. Contudo, o carioca não é avesso a promessas não cumpridas.
Ao entardecer chego na Lapa, núcleo da boemia. Os bares já estão começando a encher. Agradeço o taxista que não tinha troco. Prossigo andando. O Largo da Carioca é o ponto de encontro dos artistas populares. Tem mágicos ganhando dinheiro fácil. Capoeiristas fazendo acrobacias que desafiam a lei da gravidade. Além de comediantes, cantores e pessoas pregando a palavra da salvação. Em comum, a autenticidade.
Olhando para todos os lados atravesso a rua e vou conhecendo o Rio Antigo e as suas invasões futuristas. O corre-corre da cidade chega a ser engraçado. A menina de salto alto quase caiu. Constato como tem mulher bonita. Os decotes, as calças justas ou até os terninhos modelando o corpo me fazem aceitar que não há nada mais doce. Acho que foi nessa hora que perdi as chaves de casa. Mas tudo bem. Não irei voltar agora. Ainda tenho muito a observar. A noite ainda nem começou. *PC*

Beto Costa é jornalista
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