quinta-feira, 31 de agosto de 2006

A farinhada - Por Dalinha Catunda / Rio de Janeiro


Julho transcorria com seus dias claros de temperatura amena, num sertão ainda verde pela fartura das águas abençoadas que caíram sem modéstia nesse ano de 2006.
As noites frias e estreladas exibindo uma lua cheia, de graça incomparável, que, sem sombra de dúvidas, faz jus ao nosso tão cantado "Luar do Sertão", foi o cenário perfeito onde tive a felicidade de vivenciar, agora na fase adulta, o que tanto me encantou na meninice. E isso, no sitio Pai Mané, no município de Ipueiras: a farinhada. Ah! a farinhada!...
O ritual, o mesmo de antigamente. Durante o dia a algazarra de meninos descascando macaxeira, mulheres fazendo o mesmo serviço e entoando velhas cantigas, homens limpando o forno, trazendo mandioca numa carroça, todo esse movimento e animação antecediam o momento mágico que estava por vir. A grande noite.
E a noite, nesse dia, não se fez de rogada. Vestiu-se de beleza impar como a presentear-me. A negritude que forrava o céu aos poucos ia sendo salpicada de estrelas e, em breve tempo, o céu era um tapete mágico, reluzente, prateado à espera da rainha da noite, que não tardou a aparecer. Linda, majestosa soberana surgiu deslumbrante por detrás da serra grande, dando um ar de conto de fadas àquela noite sublime, na casa de farinha.
Enfim a lua e a tão esperada noite. As mulheres banhadas e cheirosas, apenas serviam café entre beijus e tapiocas, enquanto dos homens, eram as tarefas mais pesadas, como preparar a massa e mexer a farinha no forno. O cheirinho de farinha torrada invadia o ar. A cada nova fornada, multiplicava-se a animação. Entre gracejos e piadas, transcorria a farra da farinha.
Vivo na Cidade Maravilhosa, onde as luzes coloridas e a magnífica geografia fazem do Rio o mais belo cartão postal. Porém, tenho orgulho em dizer que minha alma sertaneja se encanta com a beleza e a magia de luas e lamparinas.*PC*

Dalinha Catunda é escritora e natural de Ipueiras, Ceará

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