terça-feira, 11 de julho de 2006

A viagem encantada - Por Jean Kleber Mattos / Brasília


Saudade do trem de 1950 viajando para Fortaleza. Viagem de trem era viagem elegante. Primeiro foi a Maria Fumaça. Denominação inspiradíssima. Sempre achei aquela máquina muito doida. Uma complicação só. Depois veio a máquina a Diesel. Mais moderna. Para mim, a Maria Fumaça tinha mais estilo.
Houve tempo em que o trem que passava em Ipueiras tinha primeira classe. Poltronas cobertas e confortáveis. O que mais me impressionava no trem era o carro restaurante. Muito bacana almoçar junto à janela vendo o sertão passar. O desfile da natureza.
Deixando Ipueiras, nem bem tomávamos gosto na viagem, o trem parava. Era a estação Abílio Martins. Cidade pequena. Depois vinha o Ipu. Mais bacana. E aí, Cariré! A terra do arroz-doce. Na praça da estação, tabuleiros alinhados a céu aberto com os pratos cheios à mostra. Correria. O trem demorava pouco. Passageiros pulando da composição e correndo em direção à "iguaria". Comida apressada.
O trem soava um apito anunciando a partida. Correria de volta. Nunca experimentei aquele arroz. Minha mãe não aprovava. Apenas apreciava o espetáculo gastronômico. Tínhamos nosso "farnel" próprio. Farofa de frango. Deliciosa. Em Miraíma, a fartura do peixe. Açude. Lembro do coro dos vendedores de água portando uma quartinha e um copo de alumínio. O mesmo copo para todos. Indução de imunidade. A água mineral com gás era novidade para mim. Não matava a sede. Nota dez para a água da quartinha. Olhágua! Olhágua!
Numa estação ou outra, se muito, crianças do local atiravam areia no trem que passava. Às vezes pedras. O subdesenvolvimento gosta de marcar presença.
A composição chegava a Sobral. Cidade grande. Quitutes mais sofisticados. Havia o "Colchão de Noiva". Era uma cocada especial e deliciosa, hoje atração turística em Fortaleza. A vegetação natural do Vale do Acaraú, sempre me encantou. Árvores esparsas de copa horizontal. Como na África. Pude comparar no futuro.
Sentíamos Fortaleza mais próximo quando chegavam Itapipoca, a Pedra do Frade, e o vale do Curu. Daí, Caucaia. O holofote da Base Aérea varrendo os céus. A luz vermelha das torres. Agora sim, estávamos chegando. Sempre à noite. A grande estação. Deslumbramento! Os chapeados, carreteiros com chapéu típico, com placa metálica numerada e bem polida, nos esperavam. Os carros de aluguel, Citroen. A Pensão do Norte, de "seu" Hermógenes, na rua Barão do Rio Branco, lá estava. Éramos velhos fregueses. Recepção amiga.
No dia seguinte, a incursão à Loja de Variedades e à "Quatro e Quatrocentos". Lanchonetes! O cheiro de pastel. O molho do cachorro quente. Delicioso! Não há igual nos dias de hoje. Sorvetes enormes! Brinquedos de plástico. Carrinhos de corda. A frota de carros de aluguel. Um show para arregalar os olhos de qualquer criança. Só tive medo do chuveiro. Nunca tinha visto um. Visitas aos parentes. Visitas aos escritórios comerciais. Meu pai já preparava o êxodo.
O regresso a Ipueiras. Acordar cedo. Enjôo passageiro. A partida do trem. Caminho de volta. Tudo de novo, ao revés. Um caminho pontilhado de nomes indígenas. Alguns graciosos, outros engraçados. Itapipoca era meu favorito. Miraíma parece nome de gente. Chegada prevista para as três da tarde. O trecho Ipu-Ipueiras era espacialmente mágico. O trem sacudia levemente e marcava compasso: Tatá-tatá, tatá-tatá...Raios dourados do sol espreitavam por trás de pequenas nuvens. Um céu de Constantino do tipo "in hoc signo vinces" conforme minha avó me mostrara numa ilustração da História do Cristianismo.
Eu estava dando tratos à bola. O que me esperava afinal, em Ipueiras? Minha avó Luizinha? Os coleguinhas do Educandário? Os banhos de tina, de rio e de chuva na rua? O banco de "notas" feitas com carteiras de cigarro? As cerimônias de "Te Deum" ao entardecer? Eu me lembrava do deslumbramento de Fortaleza e sorria. Mais dia menos dia, viveria lá. Mas um aperto no coração me fazia lembrar que Ipueiras havia, definitivamente, me conquistado. O trem fez uma longa curva. Lá longe, um morro. No alto, a figura branca com os braços abertos. O Cristo de Ipueiras dando as boas vindas!
Puro encantamento!

Texto publicado originalmente no blog GRUPO IPUEIRAS

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