segunda-feira, 31 de julho de 2006

Fiel amigo - Por Beto Costa / Rio de Janeiro


Não agüento mais! É muita pressão! De repente tudo ficou fora do meu domínio! Bastou o meu sócio fugir com a minha grana para a janela do meu quarto não abrir mais. Meus amigos se afastaram. A minha casa foi penhorada. Não tenho mais o respeito da minha família. Abri falência. Tá difícil continuar...
Prender-me ao passado apazigua o coração. Os olhos vermelhos pesam, obrigando-me a dormir. Não tenho mais a relatividade de outrora. Perdi a fé! A mentira passou a ser a minha maior verdade. Errei por acreditar demais. As pessoas sempre nos decepcionam. Isso é real! Não existe homem perfeito. O nosso progenitor, Adão, foi passível de erro.
Contudo, sempre que vejo o Rex penso que amigo igual não há. Não me abandona por nada. Protege a casa e sempre perdoa a minha rispidez. Será que se não estivesse alheio a tudo ele permaneceria assim? Eu creio que sim, pois a índole desse meu Pitbull é incorruptível. Uma vez ouvi: "-Só quem te agüenta é esse cachorro".
Fazendo carinho na cabeça dele, comecei a imaginar como seria se o ser humano fosse como os cães. Com certeza haveria mais segurança. A distração para as crianças estaria garantida! Assim como a companhia para as corridas matinais. Diferente dos felinos, os cães não são interesseiros, então, não haveria Delúbio Soares, João Mário, Ângela do PT, valérioduto e mensalões. Arrisco-me até a dizer que não existiria pizza. É engraçado imaginar o Pitbull como presidente. Autoconfiante como ele só, duvido que se curvaria à Bolívia. Resistente, não assinaria mais nada ao FMI. Extremamente entusiasta, os EUA seriam apenas um parceiro comercial e não colonizadores. Por ser considerada uma raça de alto grau de inteligência e com muita vontade de trabalhar, aposto que personalidade de ser brasileiro não faltaria. Não faltaria amor e orgulho à Mãe Gentil. Será que foi por isso que inventaram a Lei da Fucinheira? Esse devaneio me fez pensar numa seleção brasileira de Pitbull...
Ah, amigo! Que vontade de ser como você! Mesmo sabendo que na época do cio é cada um por si.
Olhar através dos seus olhos amendoados, não sei por quê, me faz lembrar de um ícone na minha vida. Talvez seja a cor castanha que me transporte a essa saudade. Um marinheiro altivo de valores sólidos, ao qual a palavra bastava. Um homem fiel à esposa e à família, mas que após ter sido culpado de um crime que não cometera decidiu escrever uma carta de despedida. A vergonha de ser julgado e condenado pelos próprios amigos, que freqüentavam a sua casa sempre que voltavam de alto mar, foi demais pra ele. Quinze anos depois da sua morte, ficou provada a inocência do meu pai. A culpa era do melhor amigo, que, por inveja, armou tudo.
Fala pra mim, meu amigo. Os cães têm inveja? O meu suspiro deixa escapar o "eu acho que não"... Sabe, Rex, o que mais me dói é que eu tive o exemplo dentro de casa e mesmo assim cometi o mesmo pecado. Errei por acreditar demais.
Continuo olhando no fundo dos olhos, o abraço calorosamente e não recebo um latido sequer. Você me entende com os olhos. Hoje eu gostaria de cumprimentar quem falou que o cão é o melhor amigo do homem. Somente agora eu entendo essa essência.Rex, é certo que ainda falarei muitas bobagens, muitos sonhos não farão mais sentido, e continuarei cometendo erros, mas quer saber? Se eu o tiver do meu lado, as coisas ficarão sempre mais fáceis, meu fiel amigo.*PC*

Beto Costa é jornalista

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