terça-feira, 6 de junho de 2006

O vocabulário do rio Jatobá - Por Jean Kleber Mattos / Brasília


Numa manhã, fomos ao banho, no rio Jatobá - eu, meu pai, o Zaca e o Assis.
Quero apresentar dois membros da comitiva.
O Zaca é Zacarias Pereira de Souza, filho de "seu" Gustavo, que morava próximo ao rio. Trabalhava lá em casa. No futuro, integraria o contingente da gloriosa Marinha do Brasil, no Rio de Janeiro. Assis é Francisco de Assis Fernandes, filho de "seu" José Fernandes, que era um próspero sitiante na serra. Era estudante interno do Educandário. Assis viria a se ordenar padre em Roma, pela Ordem dos Paulinos, alguns anos depois. Hoje é jornalista prestigiado em São Paulo, especializado em televisão. É casado. Tem filhos e netos.
É admirável o número de palavras e conceitos que uma criança pode aprender num simples banho de rio. A criança aprende apenas o básico, e, no correr da vida, os sinônimos mais sofisticados vão se incorporando ao seu linguajar. Beira do rio. Margem. Água limpa. Límpida. Cristalina. Piaba. Peixinhos. Filhotes de peixe. Alevinos. Remanso. A curva do rio. Águas mansas. Plácidas. Poço. Profundidade. Perigo. Saber nadar. A coroa do rio. Os ribeirinhos pronunciam a "c'rôa" do rio. Banco de areia. Cacimba. Cavar a água. Lençol freático.
Aquele era um dia cheio de novidades. O banho transcorria à sombra de grandes árvores que margeavam o rio. Logo alguém viu um enorme "enxu" fixo em um galho de árvore. Enxú. Casa de marimbondo.Vespeiro. Mel. Cria-se que ao produzir-se fumaça os marimbondos fugiriam ou seriam inibidos de atacar. Havia apenas fósforos. Não havia papel. Enfim encontramos algo bem combustível. Esterco seco de vaca. Produzida a fumaça e afastados os insetos, sobreveio a captura do enxu. Decepção! Apenas formas encasuladas restavam dentro. Inúmeras. Nada de mel. Tamanho não é documento. Crime ecológico. Colméia em fase de reprodução. Marimbondos são aliados dos agrônomos contra as pragas da agricultura. Predam lagartas. Impossível para nós, naquele estágio, esse entendimento.
Uma porca e três ou quatro bacorinhos atravessaram o rio. Um espetáculo enternecedor. Nadam bem. Quase submersos, apenas o focinho emergia. Ninhada de porcos. Filhotes de porco. Mais tarde, aprendi que o coletivo é vara. Se perguntado naquele dia, "porcaria" seria a resposta. Se muito, eu teria uns sete anos naquela época.
Um dia, o rio jatobá transbordou. A cheia do rio. A correnteza. Flocos de espuma. Pouquíssimos, pois ainda não conjugávamos o verbo 'poluir'. Meu padrinho de crisma, José Costa Matos, levou-me para ver. Minha mãe nos acompanhava. O padrinho José foi o herói do dia. Entusiasmado com o espetáculo das águas, lançou-se ao rio, enfrentando a correnteza. Nadou nas águas perigosas. Parecia um peixe. Um dia inesquecível para mim. O nadador seria em futuro próximo o famoso Costa Matos, poeta e escritor reverenciado nos meios literários cearenses. Se bem me lembro, naquela época ele acabara de lançar o primeiro livro de poesias, "Pirilampos".
Hoje o vocabulário das crianças é mais rico, porém cheio de palavras horrendas. Poluição. Desmatamento. Assoreamento. Eutrofização. Esgoto a céu aberto. Este é o vocabulário dos rios brasileiros no século XXI. Não mais piabas, nem água limpa. Não mais o banho seguro. E porquinhos? Ainda atravessam o rio? Haja coragem...
Outras palavras, porém, começam a se incorporar com sabor de esperança. Educação. Saneamento básico. Consciência ecológica. Reflorestamento. Campanhas. Solidariedade. Pacto de não agressão. *PC*

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