quarta-feira, 24 de maio de 2006

Reféns do crime organizado - Por Marcondes Rosa de Sousa / Fortaleza


Sinovaldo - Jornal NH(RS)


Violência e segurança! Temas a abrigar preconceitos históricos, em nossa vida social. E aí, a segurança, alicerce a lastrear-nos os direitos humanos, obstada pela violência, a resvalar no brejo... Minha geração, que amargou os anos 70, ainda se queixa dos militares. No afã de nos garantir segurança, teriam eles toldado de repressão o conceito de "ordem". Mas, sobre radicais de esquerda (alguns ligados a igrejas), acusa-se o equívoco de confundirem luta armada com estratégias de inclusão social das legiões de oprimidos e deserdados. Nessa briga, cresce a noção de segurança como piso manco de nossos direitos. E a violência ganha, entre nós, campos, cidades, ruas, igrejas, lares, vida social, a nos fazer inertes reféns. Entre os políticos, o tema é tabu. Os do marketing querem, dos candidatos, a imagem de "estadistas". Não de prosaicos e caricatos "xerifes". E quando, como em Fortaleza, nas últimas eleições, a questão se aguça, recorre-se ao jogo ultra-romântico da luta entre "o amor e o temor". Mãos dadas, os eleitores preferem a construção de nossa urbs - envolta num belo, embora vago, em meio a formas crescentes de violência urbana. Hoje, são nítidos nossos equívocos históricos. A cena do assalto ao Banco Central em Fortaleza não pode ser tomada como o afluir ali de flagelados ao tempo da seca. Tecnologia, capital e globalidade se uniram, ultrapassando fronteiras de uma limitada federação. Os episódios recentes em todo o estado de São Paulo foram além. Mostraram-nos sociedade e estado, reféns do crime organizado. E assim, "Não dá mais pra segurar" - diz a canção. O País explodirá. É o recado, em tom de "caos produtivo". Um alerta para que o "deitado eternamente em berço esplêndido" acorde, afinal, o País, para versão mais atual do lema de nossa bandeira: "ordem e progresso". *PC*

Texto publicado originalmente no jornal O Povo, de Fortaleza.

Marcondes Rosa de Sousa é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Estadual do Ceará (UECE).
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